Tempo da Quaresma — 25. Sábado depois do III domingo da Quaresma: Pela Paixão fomos reconciliados com Deus
Tempo da Quaresma — 25. Sábado depois do III domingo da Quaresma: Pela Paixão fomos reconciliados com DeusExtraído das Meditações para todos os dias do Ano Litúrgico a partir das obras de Santo Tomás de Aquino, Doutor Angélico e Doutor Comum da Igreja universal, originalmente compiladas pelo Pe. D. Mézard, O. P. 1
“Fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho” (Rm. 5, 10)
Pela Paixão de Cristo fomos liberados do reato da pena de dois modos:
I. — A Paixão de Cristo é a causa de nossa reconciliação com Deus, de dois modos.
Primeiro porque remove o pecado pelo qual os homens são constituídos inimigos de Deus, segundo aquilo da Escritura (Sb. 14, 9): Deus igualmente aborreceu ao ímpio e a sua impiedade. E noutro lugar (Sl. 5, 7):
Aborreces a todos os que obram a iniquidade. De outro modo, como sacrifício muito aceito de Deus; assim como perdoamos uma ofensa cometida contra nós quando recebemos um serviço que nos é prestado. Donde o dizer a Escritura (1 Rs. 26, 19): Se o Senhor te incita contra mim, receba ele o cheiro do sacrifício. Semelhantemente, o ter Cristo sofrido voluntariamente foi um bem tão grande, que em razão desse bem descoberto em a natureza humana, Deus se aplacou no tocante a qualquer ofensa do gênero humano, contanto que o homem se una com a Paixão de Cristo, segundo a fé e a caridade.
Não se diz que a Paixão de Cristo nos reconciliou com Deus em razão de que de novo nos começasse a amar, pois está na Escritura (Jr 31, 3): Com amor eterno te amei. Mas porque a Paixão de Cristo eliminou a causa do ódio, quer por ter delido o pecado, quer pela compensação de um bem mais aceitável.2
II. — Se pensarmos naqueles que O lançaram à morte, a Paixão de Cristo foi verdadeiramente uma causa de indignação. Mas, a caridade de Cristo padecendo foi maior que a iniquidade dos homens. Por isso a Paixão de Cristo é mais eficaz para reconciliar com Deus todo o gênero humano que para provocar sua cólera.
O amor de Deus por nós se revela nos seus efeitos. Dizemos que Deus faz participar de sua bondade aqueles que ama. Ora, a maior e mais completa participação na sua bondade consiste na visão da sua essência, pela qual privamos com Ele como amigos, pois a beatitude consiste nesta serenidade. Assim, pode-se dizer simplesmente que Deus ama a quem admite a esta visão, quer pelo dom real, quer pelo dom da causa — como ocorre com aqueles a quem Deus deu o Espírito Santo como penhor desta visão. Pelo pecado, porém, ao homem foi retirada esta participação na bondade divina, ou seja, a visão de sua essência; e sob este aspecto, diz-se que o homem estava privado do amor de Deus. Ora, após Cristo ter satisfeito por nós pela sua Paixão, e conseguido que fossemos readmitidos à visão de Deus, diz-se que nos reconciliou com Deus.3
Notas
- N. do E.: Estas Meditações do Doutor Angélico para a Quaresma podem ser encontradas todas neste PDF: https://archive.org/details/meditacoes-de-santo-tomas-de-aquino-para-a-quaresma_202402 ↩
- IIIa q. XLIX a. 4 ↩
- 2 Dist. 19, q. I, a. 5 ↩