Tempo da Quaresma — 18. Sábado depois do II domingo da Quaresma: A Paixão de Cristo obrou nossa salvação a modo de Redenção

Tempo da Quaresma — 18. Sábado depois do II domingo da Quaresma: A Paixão de Cristo obrou nossa salvação a modo de Redenção
,

Extraído das Meditações para todos os dias do Ano Litúrgico a partir das obras de Santo Tomás de Aquino, Doutor Angélico e Doutor Comum da Igreja universal, originalmente compiladas pelo Pe. D. Mézard, O. P. 1

Diz a Escritura: “Não por ouro nem por prata, que são coisas corruptíveis, haveis sido resgatados da vossa vã existência, que recebestes de vossos pais; mas pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e sem contaminação alguma.” (1 Pd. 1, 18). Noutro lugar: “Cristo nos remiu da maldição da lei, feito ele mesmo maldição por nós” (Gl. 3, 13). E dito do Apóstolo “feito maldição por nós” significa que sofreu por nós no madeiro. Logo, pela sua Paixão nos remiu. Pelo pecado o homem estava escravizado de dois modos:

1. Primeiro, pela servidão do pecado; pois, “todo aquele que comete pecado é escravo do pecado” (Jo. 8, 344) e “todo aquele que é vencido é escravo daquele que venceu” (2 Pd. 2, 19). Ora, como o diabo venceu ao homem, induzindo-o ao pecado, o homem foi feito escravo do diabo.

2. Segundo, quanto ao reato da pena pela qual o homem estava ligado, segundo a justiça de Deus. E esta também é uma escravidão; pois é próprio do escravo sofrer o que não quer, ao contrário do homem livre, que pode dispor de si mesmo como quer.

Por onde, sendo a Paixão de Cristo uma satisfação suficiente e superabundante pelo pecado e pelo reato do gênero humano, a sua Paixão foi um como preço, pelo qual fomos livrados de uma e outra escravidão. Assim, a satisfação pela qual satisfazemos por nós ou por outrem é considerada um preço pelo qual nos remimos do pecado e da pena, segundo a Escritura: “Redime os teus pecados com a esmola” (Dn. 4, 24).
Ora, Cristo satisfez, não certo dando dinheiro nem por qualquer forma semelhante, mas dando-se a ele próprio — bem máximo — por nós. Por isso é que se diz ser a Paixão de Cristo nossa redenção.
O homem, pecando, contraiu uma obrigação tanto para com Deus como para o diabo:
— Pois, pela culpa, ofendeu a Deus e sujeitou-se ao diabo, pelo seu consentimento. E assim, em razão da culpa, não se tornou servo de Deus; mas antes, afastando-se do seu serviço, incorreu na escravidão do diabo, por justa permissão de Deus, por causa da ofensa contra ele cometida.
— Mas, quanto à pena, o homem contraiu principalmente uma obrigação para com Deus, como supremo juiz; e para com o diabo, como seu algoz, segundo aquilo do Evangelho (Mt. 5, 25): “Para que te não suceda que o teu adversário te entregue ao juiz e que o juiz te entregue ao seu ministro”, i. e., ao anjo cruel da pena, como interpreta Crisóstomo. Embora, pois, o diabo retivesse, injustamente e na medida do seu poder, sob o seu jugo o homem enganado pela sua fraude, tanto quanto à culpa como quanto à pena, contudo, era justo que isso o homem o sofresse, por permissão de Deus, quanto à culpa, e pela ordem do mesmo Deus, quanto à pena.
Por onde, relativamente a Deus, a justiça exigia fosse o homem redimido; não porém relativamente ao diabo.2

Notas
  1. N. do E.: Estas Meditações do Doutor Angélico para a Quaresma podem ser encontradas todas neste PDF: https://archive.org/details/meditacoes-de-santo-tomas-de-aquino-para-a-quaresma_202402
  2. III q. XLVIII, a. IV.