Sermão V: Para o Domingo dentro da Oitava do Natal – No que consiste a verdadeira sabedoria
Sermão V: Para o Domingo dentro da Oitava do Natal – No que consiste a verdadeira sabedoriaSermão de Santo Afonso Maria de Ligório, Doutor da Igreja, para o Domingo dentro da Oitava do Natal, extraído do 5º sermão do livro “Sermões abreviados de Santo Afonso Maria de Ligório para todos os Domingos do Ano” 1
"Eis que este (Menino) está posto para ruína e para ressurreição de muitos em Israel" — São Lucas II, 34
Introdução. Tal foi a linguagem do santo Simeão quando teve a consolação de segurar em seus braços o menino Jesus. Entre outras coisas que então predisse, declarou que “este menino está posto para ruína e para ressurreição de muitos em Israel” (Positus est hic in ruinam et resurrectionem multorum). Nessas palavras, ele exalta a sorte dos santos, que, depois desta vida, ressuscitarão para a vida eterna, no reino dos bem-aventurados, e deplora a desgraça dos pecadores, que, pelos prazeres transitórios e miseráveis deste mundo, trazem sobre si mesmos a ruína e a perdição eternas. Apesar disto, são tão cegos os pecadores, que estes miseráveis só pensam no gozo dos bens presentes e chamam os santos de tolos, porque eles procuram viver pobres, humildes e mortificados. Mas virá um dia em que os pecadores verão os seus erros e dirão. Nos insensati vitam illorum æstimabamus insaniam. (Nós, insensatos, considerávamos a sua vida uma loucura, e a sua morte uma ignomínia.)2 Virão a confessar que os verdadeiros tolos foram eles mesmos. Examinemos em que consiste a verdadeira sabedoria, e veremos:
No primeiro ponto, que os pecadores são verdadeiramente tolos.
E, no segundo, que os santos são verdadeiramente sábios.
Primeiro ponto. Os pecadores são verdadeiramente tolos.
1. Que maior loucura se pode conceber do que ter o poder de ser amigo de Deus e desejar ser seu inimigo? A sua vida em inimizade com Deus torna a vida dos pecadores infeliz neste mundo, e compra para eles uma eternidade de miséria. Santo Agostinho conta que dois cortesãos do imperador entraram num mosteiro de eremitas, e um deles começou a ler a vida de Santo Antão. Legebat (Ele leu), diz o santo, et exuebatur mundo cor ejus. (e o seu coração despojou-se do mundo.) Ele leu, e, ao ler, suas afeições foram separadas dos afetos mundanos. Voltando-se para o seu companheiro, exclamou: “O que é que procuramos? A amizade do imperador é o máximo que podemos esperar. E através de quantos perigos chegaremos a um perigo ainda maior? Se conseguirmos a sua amizade, quanto tempo durará?”3 Amigo, disse ele, tolos que somos, o que é que procuramos? Podemos esperar mais nesta vida, servindo o imperador, do que ganhar a sua amizade? E se, depois de muitos perigos, conseguirmos fazer dele nosso amigo, expor-nos-emos a um perigo maior de perdição eterna. Que dificuldades devemos encontrar para nos tornarmos amigos de César! “Mas, se eu quiser, posso, num momento, tornar-me amigo de Deus.”4 Posso adquirir a sua amizade esforçando-me por recuperar a sua graça. A sua graça divina é esse tesouro infinito que nos torna dignos da sua amizade. “Porque ela é um tesouro infinito para os homens: os que usaram dela foram feitos participantes da amizade de Deus.”5
2. Os gentios tinham por impossível que uma criatura pudesse obter a amizade de Deus; pois, como diz S. Jerónimo, a amizade torna os amigos iguais. “Amicitia pares facit, aut pares accipit.” Mas Jesus Cristo declarou que, se fizermos o que Ele nos manda, seremos seus amigos. Vos amici mei estis, si feciritis quæ ego præcipio vobis. (Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando.)6
3. Quão grande é, pois, a loucura dos pecadores que, apesar de terem a possibilidade de gozar da amizade de Deus, querem viver em inimizade com Ele! O Senhor ama tudo quanto tem ser e não odeia nenhuma de suas criaturas: ele não odeia o tigre nem a víbora. Diligis enim omnia quæ sunt, et nihil odisti eorum quæ fecisti. (Porque tu amas tudo o que existe, e não aborreces nada do que fizeste.”7 Mas Ele necessariamente tem que aborrecer os pecadores. Odisti omnes qui operantur iniquitatem. (Aborreces todos os que praticam a iniquidade.)8 Deus não pode deixar de odiar o pecado, que é seu inimigo e diametralmente oposto à sua vontade; e, portanto, ao odiar o pecado, ele necessariamente detesta o pecador que está unido ao seu pecado. Similiter autem odio sunt Deo impius et impietas ejus. (Porque Deus aborrece igualmente o ímpio e a sua impiedade.)9
4. O pecador é culpado de insensatez ao levar uma vida oposta ao fim para o qual foi criado. Deus não nos criou, nem preserva nossas vidas, para que possamos nos tornar ricos ou adquirir honras terrenas, mas para que possamos amá-Lo e servi-Lo neste mundo, a fim de amá-Lo e desfrutá-Lo por toda a eternidade no outro. Assim, a vida presente, como diz São Gregório, é o caminho pelo qual devemos chegar ao Paraíso, nossa verdadeira pátria.10,“para salvar o corpo, escolhem destruir a alma; mas, não sabem que, perdendo a alma, os seus corpos serão condenados a tormentos eternos? Si animam negligimus, nes corpus salvare poterimus. (Se negligenciarmos a alma, não podemos salvar o corpo.)
6. Numa palavra, os pecadores perdem de tal modo a razão e imitam os animais brutos, que seguem o instinto da natureza e procuram os prazeres carnais sem nunca refletir sobre a sua licitude ou ilicitude. Mas agir assim é, segundo São Crisóstomo, agir não como um homem, mas como uma fera. “Hominem ilium dicimus”, diz o santo, ”qui imaginem hominis salvam retinet: qua autem est imago hominis? Rationalem esse”. Para sermos homens, devemos ser racionais, isto é, devemos agir, não segundo o apetite sensual, mas segundo os ditames da razão. Se Deus concedesse aos animais o uso da razão, e se eles agissem de acordo com as suas regras, deveríamos dizer que eles agiram como homens. Aquele que segue os ditames da razão, prevê o futuro. Por isso diz o Deuteronômio11: Utinam saperent et intelligerent et novissima prœviderent. (Oxalá fossem sábios, e entendessem, e previssem o seu último fim.) Ele olha para o futuro, isto é, para a conta que deve prestar na hora da morte, depois da qual será condenado ao inferno ou ao céu, segundo os seus méritos.
7. Os pecadores só pensam no presente, mas não consideram o fim para o qual foram criados. Mas de que lhes servirá ganhar todas as coisas, se perderem o seu último fim, que é o único que os pode tornar felizes. “Entretanto uma só coisa é necessária”.12 Atingir o nosso fim é a única coisa necessária para nós: se o perdermos, tudo estará perdido. Qual é esse fim? É a vida eterna. “Finem vero vitam æternam.” Durante a vida, os pecadores pouco se preocupam com a consecução do seu fim. Cada dia os aproxima mais da morte e da eternidade; mas não conhecem o seu destino. Se um piloto, a quem perguntassem para onde vai, respondesse que não sabia, não gritariam todos, diz Santo Agostinho, que ele estava a levar o navio para a destruição? “Fac hominem perdidisse quo tendit, et dicatur ei: quo is? et dicat, nescio: nonne iste navem ad naufragium perducet?” O santo acrescenta em seguida: “Talis est qui currit præter viam”. Tais são os sábios do mundo, que sabem adquirir riquezas e honras, e entregar-se a todo o gênero de divertimentos, mas não sabem salvar as suas almas. Como é infeliz o rico glutão que, apesar de ter podido acumular riquezas e viver esplendidamente, foi, depois da morte, sepultado no inferno! Como é miserável Alexandre, o Grande, que, depois de ter conquistado tantos reinos, foi condenado aos tormentos eternos! Quão grande foi a loucura de Henrique VIII, que se rebelou contra a Igreja, mas que, na hora da morte, vendo que sua alma estava perdida, gritou em desespero: “Amigos, perdemos tudo!” Ó Deus, quantos outros choram agora no inferno e exclamam: “De que nos aproveitou a soberba? De que nos serviu a vã ostentação das riquezas? Todas aquelas coisas passaram como sombra”.13 No mundo fizemos uma grande figura, gozamos de abundantes riquezas e honras; e agora tudo passou como uma sombra, e nada mais nos resta senão sofrer e chorar por toda a eternidade. Santo Agostinho diz que a felicidade que os pecadores desfrutam nesta vida é a sua maior desgraça: “Nada é mais calamitoso do que a felicidade dos pecadores, pela qual a sua vontade perversa, como um inimigo interno, é fortalecida.”14
8. Em suma, as palavras de Salomão cumprem-se em relação a todos os que negligenciam a sua salvação: “A tristeza toma o lugar da alegria.”15 Todos os seus prazeres, honras e grandeza, terminam em tristeza e lamentos eternos. “A minha vida foi cortada como por um tecelão: quando eu ainda a estava urdindo, ele ma cortou.”16 Enquanto eles estão lançando as bases de suas esperanças de realizar uma fortuna, a morte vem, e, cortando o fio da vida, priva-os de todas as suas posses, e os envia para o inferno para queimar para sempre num poço de fogo. Que maior loucura se pode conceber do que querer passar de amigo de Deus a escravo de Lúcifer, e de herdeiro do Paraíso a condenado ao Inferno pelo pecado? Porque, no momento em que um cristão comete um pecado mortal, o seu nome é inscrito no número dos condenados! São Francisco de Sales dizia que, se os anjos fossem capazes de chorar, não fariam outra coisa senão derramar lágrimas à vista da destruição que o cristão que comete um pecado mortal traz sobre si mesmo.
9. Oh! quão grande é a loucura dos pecadores que, vivendo no pecado, levam uma vida de miséria e descontentamento! Todos os bens deste mundo não podem contentar o coração do homem, que foi criado para amar a Deus, e não pode encontrar paz fora de Deus. O que são todas as grandezas e todos os prazeres deste mundo senão “vaidade das vaidades!”17 O que são eles senão “vaidade e aflição de espírito?”18 Os bens terrenos são, segundo Salomão, que tinha experiência com eles, vaidade das vaidades; isto é, meras vaidades, mentiras e enganos. Eles são também uma “aflição de espírito”: não só não satisfazem, mas até afligem a alma; e quanto mais abundantemente são possuídos, maior é a angústia que produzem. Os pecadores esperam encontrar paz nos seus pecados; mas que paz podem eles gozar? “Não há paz para os ímpios, diz o Senhor Deus.”19 Abstenho-me de dizer mais, neste momento, sobre a vida infeliz dos pecadores: Falarei disso noutro lugar. Por ora, basta-vos saber que Deus dá a paz às almas que o amam, e não às que o desprezam. Em vez de quererem ser amigos de Deus, os pecadores querem ser escravos de Satanás, que é um tirano cruel e impiedoso para com todos os que se submetem ao seu jugo. “Crudelis est et non miserebitur.”20 E se promete delícias, fá-lo, como diz São Cipriano, não para nosso bem, mas para que sejamos companheiros dos seus tormentos no inferno: “Ut habeat socios poenae, socios gehenæ”.
Segundo ponto. Os santos são verdadeiramente sábios.
10. Persuadamo-nos de que os verdadeiros sábios são aqueles que sabem amar a Deus e ganhar o céu. Feliz o homem a quem Deus deu a ciência dos santos. “Dedit illi scientiam sanctorum”21 Oh! como é sublime a ciência que nos ensina a saber amar a Deus e a salvar as nossas almas! Feliz, diz Santo Agostinho, o homem “que conhece Deus, embora ignore as outras coisas”. Aquele que conhece Deus, o amor que Ele merece e como amá-Lo, não precisa de nenhum outro conhecimento. São mais sábios do que aqueles que são mestres em muitas ciências, mas não sabem amar a Deus. O irmão Egídio, da ordem de São Francisco, disse uma vez a São Boaventura: Feliz de ti, padre Boaventura, que és tão culto e que, pela tua ciência, podes tornar-te mais santo do que eu, que sou um pobre ignorante. Escuta, respondeu o santo: se uma velha sabe amar a Deus melhor do que eu, é mais instruída e mais santa do que eu. Ao ouvir isto, o irmão Egídio exclamou: “Pobre velha! Pobre velha! O Padre Boaventura diz que, se amares a Deus mais do que ele, podes ultrapassá-lo em santidade”.
11. Isto despertou a inveja de Santo Agostinho e fê-lo envergonhar-se de si próprio. “Surgunt indocti”, exclamou ele, ”et rapiunt coelum.” Ai de mim! Os ignorantes levantam-se e levam o reino dos céus; e que fazemos nós, os doutos deste mundo? Oh! quantos rudes e analfabetos se salvam, porque, não sabendo ler, sabem amar a Deus; e quantos sábios do mundo são condenados! Oh! verdadeiramente sábios eram São João de Deus, São Félix da ordem dos Capuchinhos e São Pascoal, que eram pobres leigos franciscanos, não conhecedores das ciências humanas, mas doutos na ciência dos santos. Mas o que admira é que, embora os próprios mundanos estejam plenamente persuadidos desta verdade, e exaltem constantemente o mérito daqueles que se retiram do mundo para viver apenas para Deus, ainda assim agem como se não acreditassem nela.
12. Dizei-me, irmãos, a que classe quereis pertencer: à dos sábios do mundo ou à dos sábios de Deus? Antes de fazerdes uma escolha, São Crisóstomo aconselha-vos a irdes aos túmulos dos mortos! “Proficiscamur ad sepulchra.” Oh! com que eloquência os sepulcros dos mortos nos ensinam a ciência dos santos e a vaidade de todos os bens terrenos!”Pela minha parte”, dizia o santo, ‘não vejo senão podridão, ossos e vermes’. “Como se dissesse: Entre estes esqueletos não distingo os nobres, os ricos, os sábios; vejo que todos eles se tornaram pó e podridão: assim, toda a sua grandeza e glória passaram como um sonho.
13. O que é que devemos então fazer? Eis o conselho de São Paulo: “Digo-vos, pois, isto, irmãos: o tempo é curto; resta que … os que usam deste mundo sejam como se não o usassem; porque a moda deste mundo passa”.22 Este mundo é uma cena que passará e terminará muito em breve. “O tempo é curto.” Durante os dias de vida que nos restam, esforcemo-nos por viver como homens sábios, não segundo o mundo, mas segundo Deus, cuidando da santificação das nossas almas e adotando os meios de salvação; fugindo das ocasiões perigosas; praticando a oração, aderindo a alguma sodalidade piedosa, frequentando os sacramentos, lendo todos os dias um livro espiritual, e ouvindo diariamente a Missa, se nos for possível, ou, pelo menos, visitando Jesus no Santíssimo Sacramento do altar e alguma imagem de Maria Santíssima. Assim seremos verdadeiramente sábios e felizes para o tempo e para a eternidade.
Notas
- PDF de uma edição deste livro em espanhol: https://archive.org/details/sermonesligorio_202312 ↩
- Sabedoria V, 4 ↩
- Quid quærimus? Major ne esse potest spes nostra, quam quod amici imperatoris simus? Et per quod pericula ad majus periculum percenitur? ↩
- Amicus autem Dei, si voluero, ecce nunc fio ↩
- Sabedoria VII, 14 ↩
- São João XV, 14 ↩
- Sabedoria XI, 25 ↩
- Salmo V, 7 ↩
- Sabedoria XIV, 9 ↩
- S. Greg., Hom. XI. in Evan.)
5. Mas o infortúnio da maior parte dos homens é que, em vez de seguir o caminho da salvação, eles andam tolamente na estrada da perdição. Um tem paixão pelas riquezas terrenas; e, por um vil interesse, perde os imensos bens do Paraíso; outro têm paixão pelas honras; e, por um aplauso momentâneo, perde o direito de ser rei no Céu; aquele tem paixão pelos prazeres dos sentidos; e, por luzes passageiras, perde a graça de Deus, e é condenado a arder para sempre numa prisão de fogo. Almas miseráveis! Se, em castigo de um certo pecado, a sua mão fosse queimada com um ferro em brasa, ou se fossem encerradas durante dez anos numa prisão escura, certamente que se absteriam dele. E não sabem eles que, em castigo dos seus pecados, serão condenados a permanecer para sempre nas profundezas do Inferno, onde os seus corpos, enterrados no fogo, arderão por toda a eternidade? Alguns, diz São João Crisóstomo((Hom. de recup. Laps. ↩
- XXXII, 29 ↩
- São Lucas X, 42 ↩
- Sabedoria V, 8 ↩
- Ep. v. ad Marcellin. ↩
- Provérbios XIV, 13 ↩
- Isaías XXXVIII, 12 ↩
- Eclesiastes I, 2 ↩
- Ibid. IV, 16 ↩
- Isaías LVII, 21 ↩
- Jeremias VI, 23 ↩
- Sabedoria X, 10 ↩
- 1ª Coríntios VII, 29-31 ↩