Sermão para o 1° Domingo depois da Epifania
Sermão para o 1° Domingo depois da EpifaniaSermão de Santo Ambrósio de Milão, Doutor da Igreja (Livro II, em São Lucas II), para o 1° Domingo depois da Epifania, extraído do livro “Domingos e festas com os Padres da Igreja”
I. Quando Nosso Senhor tinha doze anos, começou a discutir, como lemos no Evangelho. E o número dos Seus anos era igual ao número dos Seus Apóstolos, que depois enviou a pregar a fé. Aquele que, quanto à Sua humanidade, estava cheio de sabedoria e graça de Deus, não se descuidou dos pais dessa mesma humanidade e, passados três dias, aprouve ser encontrado no Templo, prefigurando assim que, passados os três dias da Sua Paixão, Ele, que tinha sido contado com os mortos, se apresentaria vivo à nossa fé, no Seu trono celeste e na Sua Divina Majestade.
II. Para que Me buscáveis? Não sabíeis que devo ocupar-me nas coisas de meu Pai? Assim falou Jesus a Seus pais, para nos ensinar que Nele há duas gerações - uma de Seu Pai, outra de Sua mãe. A de Seu Pai é a Sua geração eterna como Deus Filho; a de Sua mãe é aquela pela qual Ele veio a este mundo para trabalhar para nós e ministrar-nos. Estes Seus atos, portanto, que estão acima da natureza, além da Sua idade, e diferentes do Seu costume, procederam não da força da Sua humanidade, mas do poder da Sua Divindade. Noutra ocasião, a Sua mãe moveu-O a fazer um milagre; pelo contrário, aqui Ele opõe-se às palavras da Sua mãe, porque ela trata como pertencendo à Sua humanidade o que era da Sua Divindade. Na primeira ocasião é dito que Ele tinha doze anos; mas na outra Ele já tinha discípulos. Sua mãe tinha testemunhado a maravilha que Ele operou numa ocasião anterior, e tinha aprendido com seu Filho a chamar a natureza mais poderosa para uma obra de poder.
III. O Evangelho acrescenta: E desceu com eles, e foi a Nazaré, e era-lhes submisso. Quem se admirará de ver que o Mestre de todas as virtudes praticasse as que lhe eram inspiradas pela devoção a seus pais? Não nos admiremos, pois, de como Ele, que era submisso a Sua mãe, tratava dos negócios de Seu Pai. Sua sujeição a Sua mãe procedia, não de fraqueza, mas de afeição obediente. Que a falsa serpente da heresia levante a cabeça de seu covil cruel e cuspa veneno de seu peito venenoso. Pois os hereges dizem que, como o Filho foi enviado pelo Pai, o Pai é, portanto, maior; e se o Pai é maior do que o Filho, segue-se que o Filho é menor; que Aquele que é enviado precisa necessariamente de algum fortalecimento de fora. Ele estava sujeito à sua mãe; precisava de ajuda humana? Deus nos livre! Ele foi obediente a Sua serva que disse: Eis aqui a serva do Senhor 1. Ele também reconheceu a autoridade daquele que na Terra era tido como Seu pai. Não nos surpreendamos, portanto, ao ver que Ele era obediente a Seu Pai Celestial; pois, se é uma virtude estar sujeito aos seres humanos, a obediência a Deus não deve ser chamada de fraqueza. A honra prestada por Jesus a Seus pais explica a honra que, como Ele disse, era devida a Deus. O Pai honrou o Filho, porque é que o Filho não há-de honrar o Pai? No batismo de Jesus, ouviu-se a voz do Pai, que afirmou ser este o Seu Filho muito amado, em quem se comprazia. E a este mesmo Filho, depois de assumir a nossa natureza humana, não deveria ser permitido, segundo alguns hereges, levantar a voz e, exprimindo os sentimentos do Seu coração, publicar que o Pai é maior do que Ele? Temos razão quando dizemos que o Senhor é infinitamente grande e digno de toda a honra e louvor; que a Sua grandeza não tem limites, e confessamo-lo. Ele não pode aumentar nem diminuir. Porque é que não havemos de acreditar também que este Filho, depois de unir a nossa humanidade à sua divindade, foi obediente ao Seu Pai, sobretudo depois do testemunho da honra que o Pai prestou ao seu Filho?
IV. Tomemos a peito esta lição, para nos convencermos do nosso dever de obedecer aos nossos pais. Pois vemos como o adorável Filho de Deus, sendo um com o Pai no tempo, na vontade e na ação, parece, no entanto, ser obediente a Seu Pai. A pessoa do Filho não é a mesma que a do Pai, mas o seu poder divino é o mesmo. Consideremos também que o Filho foi gerado sem trabalho do Pai desde toda a eternidade, enquanto que o nosso nascimento foi para os nossos pais uma causa de muitos problemas e ansiedades. Uma mãe que dá à luz um filho não está exposta a muitos perigos? Não é ela, durante muito tempo, perturbada pela ansiedade e pelo medo? E quando os seus desejos são realizados e as suas dores terminam, a sua ansiedade não termina, por causa dos perigos a que a criança recém-nascida estará exposta. Que direi da solicitude do pai em sustentar os filhos, das despesas com a sua educação e, sobretudo, dos seus cuidados e trabalhos, dos quais uma geração futura colherá os benefícios? Tudo isso mostra o dever dos filhos de serem obedientes e gratos a seus pais. E poderia haver um filho tão antinatural que achasse a vida do pai demasiado longa e o seu rendimento demasiado pequeno para a partilhar com ele? Que esse filho se envergonhe de si mesmo e se lembre do grande amor de Jesus, que se digna fazer-nos seus co-herdeiros do Reino dos Céus.
Notas
- São Lucas I, 38 ↩