Sermão para a Oitava da Epifania
Sermão para a Oitava da EpifaniaSermão de Santo Agostinho de Hipona, Doutor da Igreja (6° Tratado em [São] João), para a Oitava da Epifania, extraído do livro “Domingos e festas com os Padres da Igreja”
I. Quando Jesus fora batizado por São João, uma pomba desceu do Céu e pousou sobre Ele. Ao mesmo tempo, as três Pessoas da Santíssima Trindade, em quem acreditamos, se manifestaram, pois, como diz o Evangelho: E, depois que Jesus foi batizado, saiu logo da água; e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descer como pomba, e vir sobre ele. E eis (que se ouviu) uma voz do céu, que dizia: Este é meu Filho, o amado, no qual pus as minhas complacências1. Vemos aqui, então, a adorável Trindade: o Pai, cuja voz foi ouvida; o Filho, que estava presente em Sua sagrada Humanidade; e o Espírito Santo, que se mostrou na forma de uma pomba. Foi em nome desta Santíssima Trindade que os Apóstolos foram enviados, e sabemos bem que assim foi. No entanto, somos confrontados com o fato de que há alguns hereges que não acreditam nesta verdade clara, ou, melhor, que fecham os olhos à luz que brilha diante deles; pois, de fato, é claro como o sol do meio-dia que os Apóstolos foram enviados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, para ensinar e batizar, e também que foram assim enviados pelo próprio Salvador nosso, de quem está escrito: Esse é o que batiza2. E Jesus falou assim pelo Seu Evangelista, pois tinha reservado para Si esse poder, cujo ministério apenas delegou a outros.
II. Ora, São João (Batista) não estava inicialmente consciente desta verdade; só a soube por ocasião do batismo de Nosso Senhor. Ele já sabia que Jesus era o Filho de Deus e o supremo Regente do universo, que Ele era o Cristo e que iria batizar com o Espírito Santo. Mas o que ele não sabia antes, todavia apenas entendeu pela pomba descendo e permanecendo sobre nosso Senhor, era que nosso Redentor reteria um poder absoluto sobre o batismo, que Ele estava prestes a estabelecer como um sacramento; que Ele não comunicaria Seu poder sobre o Sacramento a Seus ministros, mas os empregaria apenas para ministrar nele o poder que Ele retém para Si mesmo. E é nesse poder que Jesus Cristo reserva somente para Si, e que ainda é administrado diariamente por Seus sacerdotes, que reside a unidade da Igreja. De fato, a verdadeira Igreja é comparada a uma pomba na Sagrada Escritura, pois lemos: Uma só é a minha pomba, a minha perfeita, ela é a única para sua mãe, escolhida pela que lhe deu o ser3. Mas se o poder de nosso Salvador no sacramento da salvação pertencesse a seus ministros, haveria tantos batismos quanto ministros, e não haveria mais o batismo de Cristo.
III. Reparai, amados irmãos, que antes de São João ter sido autorizado por Nosso Senhor a batizá-Lo, ele, o Batista, sabia que o Salvador batizaria com o Espírito Santo. Mas quando Jesus recebeu o Batismo, São João, tendo visto a pomba descer do céu, soube de algo que até então lhe era desconhecido, isto é, que embora houvesse ministros desse poder, este poder de dar o Espírito Santo no Batismo seria reservado apenas ao próprio Jesus Cristo, e não seria comunicado a outros. Isto foi o que São João aprendeu nessa ocasião. Mas como podemos provar que ele sabia que o Redentor batizaria com o Espírito Santo e que compreendeu que esse poder não seria transmitido a ninguém? O Evangelho nos diz que João conhecia a Jesus mesmo antes de Ele ir ter com ele ao Jordão para ser batizado, pois então disse a Jesus: Sou eu que devo ser batizado por Ti, e Tu vens a mim?4 Eis que ele sabia que Ele era o Senhor, o Filho de Deus! Mas como podemos provar que ele sabia que Ele era Aquele que iria batizar com o Espírito Santo? Antes de o Senhor chegar ao rio, onde muitos se tinham levado para serem batizados por João, o Batista disse: Eu na verdade batizo-vos com água, mas virá um mais forte do que eu, a quem eu não sou digno de desatar a correia dos seus sapatos; Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo5. Mas como é que João pôde dizer, antes da vinda da pomba, que não conhecia Jesus? Devemos chamar-lhe mentiroso? Deus nos livre! Mas quando a pomba desceu e pousou sobre Cristo, foi então que ele soube pela primeira vez que o Senhor reservou o poder do Batismo como peculiar a Si próprio, de modo que, quem quer que queira, seja justo ou injusto, batizar com o Seu Batismo, a virtude do Sacramento procederá, no entanto, não do ministro, seja ele justo ou injusto, mas d'Aquele sobre quem a pomba pousou. Assim, Cristo é o verdadeiro batizador em cada Batismo cristão, e sê-lo-á até ao fim de todos os tempos. Neste sentido está escrito sobre Ele: Esse é o que batiza no Espírito Santo. Se Pedro batizar, o verdadeiro Batizador é Cristo; se Paulo, se Judas, o verdadeiro Batizador ainda é Cristo.6
IV. Com efeito, se a santidade do Batismo dependesse da santidade pessoal do ministro, não haveria dois batismos exatamente iguais; então, cada receptor do Sacramento julgar-se-ia mais ou menos regenerado, segundo a maior ou menor santidade do ministro do Sacramento. Mas, amados irmãos, notai bem isto. Os santos, os santos servos de Deus, que pertencem à pomba, cuja porção está em Jerusalém, os homens bons da Igreja, dos quais o Apóstolo diz: O Senhor conhece os que são seus7, os santos, por sua vez, são diferentes entre si pela diversidade de graças e santidade, tendo uns atingido um grau de santidade, outros, outro. Resulta, portanto, que embora uma pessoa seja batizada por um santo, e outra por um ministro menos digno, cuja castidade não seja tão intensa, e que tenha feito menos progressos no caminho da perfeição, contudo, cada receptor recebe a mesma graça através do mesmo Sacramento. Como poderia ser isto, se não fosse o próprio Cristo o batizador eficaz? Assim, o grau de santidade e mérito do ministro não resulta num Sacramento mais ou menos perfeito, que é sempre um e o mesmo. E pela mesma razão é evidente que, mesmo que o ministro seja indigno, contudo, ou porque a sua indignidade é desconhecida da Igreja, ou porque ela o tolera como o joio, que na colheita será separado do trigo, o Batismo que ele administra é idêntico ao administrado por um ministro nunca tão digno, uma vez que em todos os casos o próprio Jesus é o Batista efetivo.
V. Reconheçamos, pois, amados irmãos, esta verdade, e não façamos como aqueles hereges cegos que não a vêem, ou fingem não a ver, e assim se apressam para a sua condenação. Se abrissem os olhos, ser-lhes-ia evidente que os Apóstolos e discípulos do Senhor foram enviados pelo seu Mestre a todas as nações da terra e que lhes foi ordenado que batizassem todos os homens em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Na verdade, como nosso Senhor os enviou a todas as nações, Ele os enviou à Sua herança. Pois sabemos que o profeta se referia a Ele quando disse: Pede-me, e eu te darei as nações em tua herança, e estenderei o teu domínio até as extremidades da terra8. E não é desconhecido para vós que a lei saiu de Sião, e de Jerusalém a palavra do Senhor9, e também que nosso Senhor pregou primeiro em Jerusalém, e que foi para lá que enviou os seus discípulos, dizendo: Ide, pois, ensinai todas as gentes, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo10. Reparem que nosso Senhor, ao enviar os Seus discípulos e ao ordenar-lhes que batizassem todas as nações, não disse nos nomes do Pai, do Filho e do Espírito Santo, mas em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, para nos dar a entender que só há um Deus. O Apóstolo enfatiza este fato ao explicar a promessa de Deus a Abraão. As promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E ÀS DESCENDÊNCIAS, como (se se tratasse) de muitos, mas (diz) como de um só: E À TUA DESCENDÊNCIA, a qual é Cristo11. Estas palavras, como observa S. Paulo, não se referem à multidão dos seus descendentes, mas a um só, que é Jesus Cristo, para nos dar a entender que, como Jesus é um só, assim também não há senão um só Deus: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
VI. Mas não te vanglories do teu batismo, nem te ensoberbeças por causa desse privilégio; porque, embora o teu batismo tenha sido perfeitamente eficaz, como sou obrigado a reconhecer, e embora a pomba o tenha reconhecido, ela lamenta continuamente que, apesar deste sacramento, que te une a ela, estejas no entanto fora da sua comunhão e, consequentemente, fora do caminho da salvação. Ela vê em ti o sinal de um cristão e aprova-o, mas ao mesmo tempo vê e deplora a tua desobediência à Igreja; por isso te chama e convida a voltar para ela. Fazes mal em gloriar-te do teu Batismo, porque te recusas a ouvi-la e a obedecer-lhe. Os ímpios, que a Igreja não reconhece como seus filhos, podem muito bem gloriar-se do privilégio do seu Batismo. Não há, no entanto, muitas pessoas avarentas e intemperantes, e outras que são secretamente idólatras, ou ainda aquelas que consultam disfarçadamente adivinhos e astrólogos, que, no entanto, possuem o mesmo privilégio do batismo de que te glorias? E a pomba, vendo-se no meio dos corvos, lamenta este estado. Deixai, pois, de vos vangloriar de uma bênção que tendes em comum com os ímpios, e esforçai-vos por praticar a humildade, a caridade, a paz, virtudes de que tendes grande necessidade, para que por elas vos seja proveitoso o Batismo que recebestes.
Notas
- São Mateus III, 16, 17 ↩
- São João I, 33 ↩
- Cântico dos Cânticos VI, 8 ↩
- São Mateus III, 14 ↩
- São Lucas III, 16 ↩
- N. E.: Para compreender esta homilia, é preciso ter em conta que a intenção de Santo Agostinho era refutar os donatistas. Estes hereges pretendiam que, na Santíssima Trindade, o Pai era maior do que o Filho, e o Filho maior do que o Espírito Santo. Pensavam também que os católicos deviam ser rebatizados. Por isso, Santo Agostinho repete várias vezes que as três Pessoas da Santíssima Trindade são iguais, que têm uma só e mesma Divindade, e que o Batismo é o mesmo Sacramento, seja qual for o oficiante que o administre. ↩
- 2ª Timóteo II, 19 ↩
- Salmo II, 8 ↩
- Isaías II, 3 ↩
- São Mateus XXVIII, 19 ↩
- Gálatas III, 16 ↩