Meditação de reserva: Da Oração Dominical
Meditação de reserva: Da Oração DominicalExtraído do livro Meditações para todos os dias e festas do ano tiradas das obras ascéticas de Santo Afonso Maria de Ligório, Bispo e Doutor da Igreja, pelo Padre Thiago Maria Cristini, edição de 1921, tomo I: desde o I Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive 1
Sic ergo vos orabitis: Pater noster, qui es in coelis, sanctificetur nomen tuum — “Assim, pois, é que haveis de orar: Padre nosso que estais nos céus, santificado seja o vosso nome” (Mt. 6, 9)
Sumário. Nós somos tão ignorantes e curtos de juízo, que nem sabemos quais as graças que devemos pedir a Deus para nossa salvação. Jesus Cristo, vendo a nossa insuficiência, compôs a súplica que havemos de dirigir a nosso Pai celestial. Rezemos, pois, com frequência a oração sublime qual é o Padre-nosso,e, como bons filhos, peçamos principalmente ao Senhor, que faça seu nome conhecido em toda a parte, que reine em nós pela sua graça e nos faça cumprir perfeitamente a sua santíssima vontade.
I. Consideremos como a Igreja militante, vendo-se composta de homens pecadores, se reconhece indigna de chamar a Deus seu Pai e de apresentar-lhe as sete súplicas que lhe dirige em nome dos fiéis na oração do Padre-nosso. Eis porque na santa missa protesta pela boca do sacerdote, que lha dirige, porque assim lhe foi ordenado pelo próprio Deus. E deste modo nos ensina a fazer-lhe as sete petições do Padre-nosso, nas quais consiste toda a nossa salvação, somente porque Ele assim o quer e ordena: Praeceptis salutaribus moniti… audemus dicere — “Instruídos com os vossos salutares preceitos… nos atrevemos a dizer” 2.
Nós somos tão ignorantes e curtos de juízo, que nem sequer sabemos quais as graças que havemos de pedir a Deus para nossa salvação. Pelo que Jesus Cristo, vendo a nossa incapacidade e insuficiência, compôs ele mesmo a súplica ou resumo das coisas que devemos pedir a Deus, e nos manda dizer: Pater noster qui es in coelis — “Padre nosso que estais nos céus”.
Escreve o Apóstolo São João: Videte qualem caritatem dedit nobis Pater, ut filii Dei nominemur et simus 3 — “Vede que amor nos mostrou o Pai em querer que sejamos chamados filhos de Deus e verdadeiramente o sejamos”. Foi um excesso de amor divino o querer que nós, vermes da terra, nos chamemos e sejamos filhos de Deus; não filhos por natureza, mas por adoção. Esta graça, como diz São Paulo, nos foi merecida pelo Filho de Deus ao fazer-se homem: Accepistis spiritum adoptionis filiorum, in quo clamamus: Abba (Pater) 4— “Recebestes o espírito da adoção de filhos, no qual clamamos: Abba (Pai)”. — Que maior ventura pode esperar um vassalo, do que ser adotado como filho pelo rei? E uma criatura, do que ser adotada como filha pelo seu Criador? Pois, Jesus Cristo quer que com espírito filial façamos a Deus as petições contidas na Oração Dominical: Sic ergo vos orabitis: Pater noster, qui es in coelis — “Assim pois vós orareis: Padre nosso que estais nos céus”.
II. Sanctificetur nomen tuum — “Santificado seja o vosso nome”. Deus não pode ter santidade superior à que possui desde a eternidade, porquanto ela é infinita. Nesta petição não pedimos, portanto, senão que faça com que todos conheçam o seu nome, e todos os povos o amem: os infiéis que não o conhecem; os hereges que o conhecem mal; e os cristãos pecadores que o conhecem, mas não o amam.
Adveniat regnum tuum — “Venha a nós o vosso reino”. Há dois reinos em que Deus reina sobre as nossas almas: o reino da graça e o reino da glória. Ambos estes reinos são objeto desta petição. Pedimos primeiro que a graça divina reine sobre nós na presente vida, nos guie e nos governe, e em segundo lugar, que um dia sejamos dignos da glória, na bem-aventurança gozemos da posse de Deus e sejamos possuídos felizmente por Ele no paraíso.
Fiat voluntas tua, sicut in coelo et in terra — “Seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu”. Toda a perfeição de uma alma consiste no cumprimento perfeito da vontade divina, como os bem-aventurados a cumprem no céu. Eis porque Jesus Cristo nos manda pedir que aqui na terra seja feita por nós a vontade de Deus, assim como no céu a fazem os santos. — Ó Senhor, resigno-me em tudo à vossa santíssima vontade; fazei-me sempre saber pela obediência o que de mim quereis, pois que quero cumpri-lo exatamente. Estou nas vossas mãos; fazei com que Vos ame sempre, e depois disponde de mim segundo a vossa vontade. Fazei o que julgardes mais próprio à vossa glória e à minha salvação eterna. — Ó grande Mãe de Deus, Maria, obtende-me a santa perseverança.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/santo-afonso-maria-de-ligorio-meditacoes-tomo-i-desde-o-primeiro-domingo-do-adve ↩
- Miss. Rom. ↩
- 1 Jo. 3, 1 ↩
- Rm. 8, 15 ↩