Leitura para a Festa do Santo Rosário

Leitura para a Festa do Santo Rosário
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Extraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1   

1. O Rosário é uma devoção sumamente meritória. Uma oração é tanto mais meritória, quanto mais cara é a Deus. Ora, o Rosário compõe-se justamente das duas formas de oração mais caras a Deus: do Padre Nosso, ensinado pelo próprio Deus feito homem e da Ave Maria, como nos foi ensinado pelo Arcanjo São Gabriel, e, por inspiração de Deus, Santa Isabel e a Santa Igreja. Se os Santos do Paraíso pudessem voltar à terra e aumentar seus méritos, de preferência a qualquer outra oração, se serviriam do Padre Nosso e da Ave Maria para honrar e louvar a Deus.

Uma oração é tanto mais meritória, quanto mais a invocação material for vivificada pela intenção espiritual e pelo afeto do coração. Pouco ou nenhum valor teria a oração vocal, se não partisse da devoção interna da alma.

Pois bem, o Rosário une perfeita e graciosamente a oração vocal com a mental, apresentando à nossa meditação os mistérios da nossa Redenção.

Recitando o Rosário, dirigimos o nosso pensamento a Deus, ao Filho de Deus e à Mãe de Deus. Estes afetos são outros tantos raios de luz sobrenatural, que nos ilumina, nos inflama, deixando-nos o mérito de uma contemplação, se bem que breve, mas altíssima e proveitosa.

Uma oração, como qualquer outra obra boa, é tanto mais meritória, quanto mais a nossa vontade se identifica com a de Deus; quanto mais é feita por obediência à legítima autoridade, que é representante de Deus. Ora bem. Recitando o terço, satisfazemos a um dos desejos mais ardentes da Igreja, a qual o apregoou sua oração por excelência, distinguindo-a com festa solene e dedicando-lhe o mês inteiro de outubro. “Desejamos ver sempre mais largamente propagada esta piedosa prática (do Rosário) e tornar-se a devoção verdadeiramente popular em todos os lugares, de todos os dias” (Leão XIII).

Desta maneira, assim como por razão de obediência, o Divino Ofício (breviário) para o clero é a oração mais meritória, assim a recitação do Rosário, recomendada a todos os fiéis, é de um valor inestimável para o povo.

2. É uma devoção sumamente impetratória. De duas qualidades principais a oração deriva sua maior eficácia; estes dois dotes são a perseverança assídua e a união de muitos corações pela mesma oração. Estas duas qualidades vemos admiravelmente ligadas ao Rosário. Com ardente e reiterada súplica se pede, se procura, se bate, faz-se doce violência aos Sagrados Corações de Jesus e de Maria. Recitado em comum, terá o cumprimento da divina promessa: “Se dois de vós se unirem entre si sobre a terra, qualquer coisa que pedirem, ser-lhes-á concedida por meu Pai, que está nos céus. Porque onde estão dois ou três congregados em meu nome, aí estou no meio deles” (Mateus 18, 19).

Eficacíssima é a oração do Rosário, porque dispõe em nosso favor o Coração de Maria. “Que doce alegria não deve ser para ela ver-nos piamente empenhados em lançar-lhe coroas de súplicas e de louvores belíssimos! Se de fato com estas preces rendemos a Deus, como é nosso desejo, a devida glória; se fazemos o protesto de nunca mais procurar outra coisa senão cumprir em tudo sua santíssima vontade; se exaltamos sua bondade e munificência, invocando o Pai e pedindo que nos conceda, embora imerecidamente, os mais estimáveis bens; de tudo isto, oh! Quanto não se alegrará Maria, e como não enaltecerá ao Senhor! Certamente não pode haver linguagem mais digna para nos dirigirmos à divina majestade, que a da oração dominical. Tudo que no Padre Nosso pedimos, é muito reto, muito bem ordenado e conforme à fé, à esperança e à caridade cristã, e já por isso tem o especial agrado da Santíssima Virgem. Além disto, ouvindo-nos rezar, ela reconhece em nossa voz o timbre da voz de seu Filho, que nos deu e nos ensinou à viva voz esta oração e nos impôs, dizendo: assim deveis rezar. Maria, vendo-nos assim com o Rosário, cumprindo fielmente a ordem recebida, com tanto mais amor e solicitude nos atenderá. As místicas coroas que lhe oferecemos, são-lhe sumamente agradáveis e penhores de graças para nós” (Leão XIII).

A própria Rainha do Céu fez-se quase fiadora da eficácia desta excelente oração. Por seu impulso e inspiração foi que São Domingos fez do Rosário a arma poderosa para combater a heresia dos Albigenses.

À recitação do Rosário é que a Igreja atribui os seus maiores triunfos, e grata atesta, pela boca dos Sumos Pontífices, que “pelo Rosário todos os dias desce uma chuva de bênçãos sobre o povo cristão” (Urbano IV); “que é a oração oportuna para honrar a Deus e a Virgem, como afastar bem longe os iminentes perigos do mundo” (Sixto IV); “propagando-se esta devoção, os cristãos entregues à meditação dos mistérios, inflamados por esta oração, começarão a transformar-se em outros homens, as trevas das heresias dissipar-se-ão e difundir-se-á a luz da fé católica” (São Pio V).

3. O Rosário é um verdadeiro alimento espiritual. Uma oração feita com atenção produz, juntamente com o mérito e com sua eficácia impetratória, o efeito de refeição espiritual; e é precisamente esta atenção que nos falta muitas vezes, pelas distrações a que somos sujeitos, quando estamos a rezar. O Rosário tem em si a virtude de excitar e nutrir em nós o recolhimento, pondo-nos em contato com os mistérios da nossa religião. É a oração do sábio e do ignorante, pois, como nenhuma outra, se adapta à capacidade de todos.

4. Na recitação do terço se aumenta em nós a fé, quando contemplamos a vida oculta, pública e gloriosa de Jesus Cristo, que é o “autor e o consumador de nossa fé” (Hebreus 12, 2); e exteriormente, por meio de orações vocais, manifestamos que cremos em Deus nosso Pai providentíssimo; que cremos na vida eterna, na remissão dos pecados e nos mistérios da augustíssima Trindade, da Encarnação, da maternidade divina e outros; “de modo que, ao recitarmos bem o Rosário, sentimos em nossa alma uma unção suavíssima, como se ouvíssemos a própria voz da Mãe celestial, que amavelmente nos ensina os divinos mistérios e nos indica o caminho da salvação” (Leão XIII).

5. Pela recitação do Rosário aumenta-se-nos a esperança de, por Maria, obtermos a abundância da divina misericórdia; pois são justamente os mais importantes mistérios da Redenção, em que Maria se apresenta no seu papel de Corredentora: assim na Encarnação, na santificação do Batista Precursor, no Nascimento de Jesus, na apresentação do Menino Jesus no templo e no encontro do jovem Jesus entre os doutores. Enquanto recitamos o terço, mentalmente acompanhamos a Mãe do Redentor no acerbo caminho da cruz; a vemos no alto do monte Calvário unir seu sacrifício ao sacrifício de seu Filho; no terço glorioso, a nossa mente se prende à pessoa de Nossa Senhora e medita sobre a fase de sua vida depois da Ressurreição, até sua gloriosa Assunção e Coroação no céu.

6. Pela recitação do terço acende-se em nosso coração a caridade, o amor, a gratidão a Jesus e Maria, que tanto fizeram pela nossa salvação. Ao mesmo tempo desperta em nossa alma o desejo de seguir-lhes as pegadas e pertencer-lhes inteiramente. O nosso espírito enleva-se na contemplação dos grandiosos exemplos que se nos deparam nas pessoas de Jesus e Maria. Ele, ansioso por fazer a vontade de seu Pai; ela, fazendo sua consagração perpétua de escrava do Senhor.

7. Três males afligem a sociedade moderna: a aversão a uma vida modesta e laboriosa, a repugnância pelo sofrimento, o esquecimento dos bens futuros. No Rosário encontramos um remédio salutar contra estes três males gravíssimos (Leão XIII). Os mistérios gozosos apresentam-nos na Sagrada Família, o modelo perfeitíssimo da vida doméstica: pureza e simplicidade de costumes, perfeita e perpétua harmonia dos ânimos, ordem jamais perturbada, respeito e amor recíprocos, amor e dedicação ao trabalho para ganhar o sustento da vida e para poder fazer algum bem ao próximo, tranquilidade do espírito e alegria da alma, companheiros inseparáveis da consciência reta e bem formada.

Nos mistérios dolorosos vemos Jesus Cristo entregue a uma tamanha tristeza, que o corpo se lhe cobriu de suor de sangue; o vemos preso a modo dos malfeitores, submetido a um julgamento de celerados, maldito, ultrajado, caluniado; o vemos preso à coluna da ignomínia e desumanamente flagelado, coroado de espinhos, pregado na cruz, julgado indigno de ter vida; sua morte é impetuosa e sacrilegamente exigida pelo povo. Com as penas do Filho unem-se as penas de sua Mãe Santíssima. O coração de Maria, apesar de não ser ferido, é traspassado por uma espada de dor, e o título de Mãe dolorosa é a expressão da verdade. Assim o terço nos ensina que é indigno de usar o nome de cristão todo aquele que se nega a levar a cruz de sua vida.

Nos mistérios gloriosos se nos revelam os altos ideais do céu, infinitamente superiores aos bens transitórios e falazes deste mundo. O terço glorioso faz-nos compreender que a morte não é o cutelo que tudo corta e destrói, mas a passagem desta vida à outra. Ensina-nos que o caminho para o céu é estreito para todos, e diante de nós vemos Nosso Senhor, que nos conforta com a promessa deixada aqui na terra: “Eu vou para vos preparar um lugar”. — Vemos mais, que tempo virá em que Deus enxugará as lágrimas dos nossos olhos e não haverá mais luto, nem lamento, nem dor, mas viveremos em Deus Nosso Senhor, feitos semelhantes a Ele, pois o veremos como é, inebriados pela torrente das suas delícias, concidadãos dos Santos, na campanha felicíssima de nossa Rainha, nossa Mãe Maria. Uma alma que se eleva a tais sentimentos, inflama-se de tal maneira no amor de Deus, que com Santo Inácio chega a exclamar: “Oh como é baixa a terra, se a comparo com o céu!” e consola-se com a palavra do Apóstolo: “um sofrimento leve e instantâneo importa-nos glória eterna”.

Com efeito, o Rosário mostra-nos o único meio de unirmos o tempo à eternidade, a cidade terrena à cidade de Deus. É o único meio de formar caráteres generosos e magnânimos.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii
Leitura para a Festa do Santo Rosário — Padre João Batista Lehmann