Imaculada Conceição de Maria – Ponto III
Imaculada Conceição de Maria – Ponto IIIExtraído do livro Glórias de Maria, de Santo Afonso Maria de Ligório, Bispo e Doutor da Igreja, Parte II, Seção I: Festas Principais de Maria, Discurso 1, sobre a Imaculada Conceição de Maria, ponto III
Ponto III
1. Maria preservada por ser Esposa do Espírito Santo
SE, pois, ao Pai convinha preservar a Maria do pecado também ao Espírito Santo preservá-la como sua Esposa. Maria, diz Santo Agostinho, foi a única que mereceu ser chamada Mãe e Esposa de Deus. Porque, diz Santo Anselmo, o divino Espírito veio corporalmente a Maria e, enriquecendo-a de graça sobre todas as criaturas, nela repousou e fez Rainha do céu e da terra a sua Esposa. Diz que veio a ela corporalmente enquanto ao afeto, porque veio formar do seu corpo imaculado o imaculado corpo de Jesus Cristo, como já o arcanjo o predissera: o Espírito Santo descerá sobre ti 1. Por esta razão, diz Santo Tomás, se chama Maria templo do Senhor, sacrário do Espírito Santo, porque por obra do Espírito Santo foi feita Mãe do Verbo encarnado.
Ora, se um exímio pintor houvesse de ter em sorte a sua esposa bonita ou feia, segundo o retrato que ele mesmo dela fizesse, que diligência não empregaria ele em fazê-la o mais formosa possível? Quem pode, portanto, dizer que o Espírito Santo haja obrado de modo diferente com Maria, isto é, que, podendo ele mesmo fazer esta sua esposa toda formosa, qual lhe convinha, não o haja feito?
Não, assim lhe convinha e assim fez, como afirmou 0 mesmo Senhor, quando, louvando a Maria, lhe disse: Toda formosa és, minha amiga, e mácula em ti não há2. As quais palavras dizem Santo Ildefonso e Santo Tomás que propriamente se entendem de Maria, como refere Cornélio a Lápide sobre a dita passagem. E São Bernardino de Sena com São Lourenço Justiniano afirmam que as citadas palavras se entendem precisamente da sua imaculada Conceição. Por onde O Idiota lhe diz: “Toda sois formosa, ó Virgem gloriosíssima, não em parte, mas totalmente, e em vós não há mancha de pecado, nem mortal, nem venial, nem original”.
A mesma coisa significou o Espírito Santo quando chamou a esta sua Esposa jardim fechado e fonte selada3. Maria foi precisamente, diz São Jerônimo, este jardim fechado e fonte selada, porque nela nunca entraram os inimigos para a ofenderem, mas sempre ela ficou ilesa, permanecendo santa na alma e no corpo. E semelhantemente São Bernardo, falando com a Bem-aventurada Virgem, disse: “Tu és um jardim fechado, no qual nunca entrou para o desflorar mão de pecadores”.
2. Maria, obra prima e predileta do Espírito Santo
Não ignoramos que este divino Esposo mais amou a Maria do que a todos os outros santos e anjos juntos, como afirma o Padre Suarez com São Lourenço Justiniano e outros. Ele desde o princípio a amou e exaltou em santidade acima de todos, como exprimiu Davi: Os seus fundamentos assentam sobre os montes santos. Ama o Senhor as portas de Sião mais que todos os tabernáculos de Jacó. Um homem nasceu nela, e o próprio Altíssimo é que a fundou4. Todas estas palavras querem dizer que Maria foi santa desde a sua conceição.
Isso mesmo quer dizer o mesmo Espírito Santo noutros lugares: Muitas são as filhas que juntaram riquezas, mas tu as excedeste a todas 5. Se Maria sobrepujou a todas em riqueza da graça, teve, portanto, também a justiça original, como a tiveram Adão e os anjos. As donzelas não têm número: uma só é a minha pomba, a minha perfeita (o hebreu lê pura, imaculada), a única para a sua Mãe6. Todas as almas justas são filhas da divina graça, mas entre estas Maria foi a pomba sem fel de culpa, a perfeita sem mácula de origem, a única concebida em graça. Por isso é que o Anjo, antes que ela fosse Mãe de Deus, a encontrou já cheia de graça, e assim a saudou: Ave, gratia plena: Deus te salve, cheia de graça.
Sobre estas palavras escreveu São Sofrônio que aos demais santos a graça se dá por partes, mas à Virgem foi dada toda. De tal modo, diz Santo Tomás, que a graça fez santa não só a alma, mas até a carne de Maria, para que pudesse a Virgem revestir dela o Verbo eterno. Ora, tudo isto leva a entender que Maria, desde a sua conceição, foi pelo Espírito Santo enriquecida e cheia da divina graça, como argumenta Pedro Celense. Por onde diz São Pedro Damião: Eleita e predestinada por Deus, devia o Espírito Santo arrebatá-la toda para si. Diz arrebatá-la, para explicar a velocidade do Divino Espírito em prevenir e fazer sua esta esposa, antes que Lúcifer a possuísse.
3. Maria, isenta da dívida do pecado
Quero finalmente fechar este discurso, em que me alarguei mais do que nos outros, porque a nossa mínima Congregação tem por sua principal protetora Maria precisamente sob este título da sua Imaculada Conceição; quero acabar com a declaração resumida de quais sejam os motivos que me dão a certeza e me parece a darão a todos desta sentença tão pia e tão gloriosa para a divina Mãe: que ela foi isenta da culpa original.
Há muitos doutores que até defendem que Maria foi isenta de contrair mesmo o débito do pecado, como são o cardeal Galatino, o cardeal Cusano, Da Ponte, Salazar, Catarino, Viva, De Lugo, Egídio, Richelio e outros. Ora, esta opinião é bem provável; porquanto, se é verdade que na vontade de Adão, como cabeça do gênero humano, foram incluídas as vontades de todos, como ensinam com probabilidade Gonet, Habert, e outros, fundados no texto de São Paulo: Todos pecaram em Adão7; provável é também que Maria não tenha contraído o débito do pecado, porque, havendo-a Deus distinguido muito na graça do comum dos homens, deve piamente crer-se que na vontade de Adão não tenha incluído a de Maria.
Esta opinião é somente provável, e eu a ela adiro como mais gloriosa para a minha Senhora. Mas eu tenho por certa a opinião de que Maria não contraiu o pecado de Adão, como a têm por certa e até proximamente definível como verdade o cardeal Everardo, Duvallio, Rinaldo, Lossada, Viva, e outros muitos. Deixo portanto as revelações que confirmam a sobredita opinião, especialmente as feitas a Santa Brígida, já aprovadas pelo cardeal Torrecremata e por quatro sumos pontífices, como se lê no livro sexto das ditas revelações em muitos lugares.
Mas não posso de nenhum modo deixar de notar aqui as sentenças dos Santos Padres sobre este ponto, para demonstrar quão uniformes eles têm sido em conceder tal privilégio à divina Mãe. Santo Ambrósio diz: "Recebei-me não das mãos de Sara, mas das de Maria, para que seja Virgem incorrupta, mas Virgem por graça imune de toda a mácula de pecado". Orígenes, falando de Maria, diz assim: "Não foi infectada pelo hálito venenoso da serpente, Santo Efrém lhe chama: Imaculada e alheíssima de toda a mancha de pecado. Santo Agostinho sobre as palavras do anjo Ave gratia plena: Deus te salve, cheia de graça, escreve: "Com estas palavras mostrou totalmente excluída a ira da primitiva sentença (nota totalmente) e restituída a plena graça da benção", São Jerônimo diz: Aquela nuvem não esteve em trevas, mas sempre na luz. São Cipriano ou quem seja o autor do livro: Não sofria a justiça que aquele vaso de eleição fosse deixado na ruína comum, porque, muito diferente dos restantes, tinha, sim, comum com eles a natureza, mas não a culpa. São Anfilóquio: Aquele que formou a primeira virgem sem ignomínia, criou também a segunda sem mancha nem delito. São Sofrônio: "A Virgem se diz imaculada, porque em nada foi corrompida". Santo Ildefonso: É certo que ela foi isenta do pecado original. São João Damasceno: A serpente não teve entrada neste paraíso. São Pedro Damião: A carne da Virgem, tomada de Adão, não tomou a mácula de Adão. São Bruno: Esta é aquela terra não corrompida que o Senhor abençoou, por isso livre de todo o contágio de pecados8. São Boaventura: “Nossa Senhora foi cheia de graça preveniente na sua santificação, isto é, de graça preservativa contra a torpeza da culpa original”. São Bernardino de Sena: “Não é crível que o Filho de Deus quisesse nascer duma virgem e tomar dela carne que estivesse manchada pelo pecado original”. São Lourenço Justiniano: Desde a conceição foi prevenida de bênçãos. O Idiota sobre as palavras Achaste graça diz: “Achaste, ó dulcíssima Virgem, uma graça singular, porque em ti houve a preservação da culpa original, etc…”. Como estes falam tantos outros doutores.
Porém os motivos que finalmente nos asseguram verdade desta pia sentença são dois. O primeiro é o consenso universal dos fiéis sobre este ponto. Afirma o Padre Egídio da Apresentação que todas as ordens religiosas seguem a dita opinião; e da mesma ordem de São Domingos diz um autor moderno que, posto que 92 escritores sigam a opinião contrária, contudo 136 abraçam a nossa. Mas sobretudo deve persuadir-nos que a nossa pia sentença é conforme com o comum sentir dos católicos o que afirma o Papa Alexandre VII na sua célebre bula Sollicitudo omnium ecclesiarum, publicada no ano de 1661, em que se diz:
De novo se aumentou e propagou esta devoção e culto para com a Mãe de Deus… de maneira que, abraçando as academias esta sentença (a pia), já quase todos os católicos a abraçam. E de fato, esta sentença é defendida pelas academias de Sorbonne, de Alcalá, de Salamanca, de Coimbra, de Colônia, de Mogúncia, de Nápoles e por outras muitas, nas quais todos os laureados se obrigam com juramento à defesa de Maria imaculada.
Deste argumento, isto é, do comum sentir dos fiéis principalmente se vale para prová-la o douto Petávio. O qual argumento escreve o doutíssimo Bispo D. Júlio Torni que não pode deixar de convencer, porque em verdade, se o só consenso comum dos fiéis nos certifica da santificação de Maria no ventre e da sua Assunção ao céu em alma e corpo, por que é que este mesmo comum sentir dos fiéis nos não há de certificar da sua Conceição imaculada?
O outro motivo, mais forte do que o primeiro, que nos dá a certeza da isenção da Virgem da mácula original é a celebração ordenada pela Igreja da festa da sua Conceição imaculada. E a este respeito vejo, por uma parte, que a Igreja celebra o primeiro instante em que foi criada a sua alma e infundida no corpo, como declara Alexandre VII na sua bula referida, na qual se exprime que a Igreja dá à Conceição de Maria o mesmo culto que lhe dá a pia opinião que sustenta que ela foi concebida sem a culpa original.
Por outra parte, tenho para mim como certo que a Igreja não pode celebrar coisa não santa, segundo os oráculos de São Leão papa e de Santo Eusébio, pontífice; e como ensinam todos os teólogos com Santo Agostinho, São Bernardo e Santo Tomás, o qual, para provar que Maria foi santificada antes de nascer, deste argumento precisamente se serve, isto é, da celebração que faz a Igreja do seu nascimento, e por isso diz: “a Igreja celebra a natividade da Bem-aventurada Virgem; mas na Igreja nenhuma festa se celebra senão de algum santo. Logo a Bem-aventurada Virgem foi santificada no ventre”.
Ora, se é certo, como diz o angélico Doutor, que Maria foi santificada no ventre, porque a santa Igreja celebra o seu nascimento, por que razão não havíamos nós de ter por certo que Maria foi preservada do pecado original desde o primeiro instante da sua Conceição, agora que sabemos que neste sentido a mesma Igreja celebra a sua festa?
De mais, em confirmação deste grande privilégio de Maria, são conhecidas já as graças inumeráveis e prodigiosas que o Senhor se compraz em dispensar todos os dias no reino de Nápoles por meio das miniaturas da sua imaculada Conceição. Eu poderia referir muitas, passadas por mão dos padres da nossa mesma Congregação, mas só quero contar duas, que são verdadeiramente admiráveis.
Exemplos
NUMA das casas que tem esta nossa mínima Congregação neste reino, veio uma mulher dizer a um dos nossos padres que o seu marido havia muitos anos que se não confessava, e não sabia a mísera que mais fazer para convertê-lo, porque, em lhe falando de confissão, logo ele a espancava. Disse o padre à mulher que lhe desse uma imagem de Maria imaculada. A noite, de novo a mulher pediu ao marido que se confessasse; mas ele fez, como costumava, ouvidos de mercador, e ela deu-lhe a imagem. Mal a recebeu, disse o marido:
— Está bem, quando me queres levar a confessar, que estou pronto?
A mulher chorava de alegria, ao ver aquela mudança tão instantânea. Na manhã do dia seguinte veio de fato o homem à nossa igreja. Perguntou-lhe aquele nosso padre há quanto tempo havia que se não confessava. Respondeu que havia vinte e oito anos.
— E como, perguntou de novo o padre, te resolveste a vir esta manhã confessar-te?— Padre, disse, eu estava obstinado; mas ontem à noite a minha mulher deu-me uma estampa de Maria, e logo senti o meu coração mudado, tanto que esta noite cada momento me pareciam mil anos pela ânsia de que amanhecesse, para poder vir confessar-me.
E com efeito se confessou com muita compunção, mudou de vida e continuou durante muito tempo a confessar-se com o mesmo padre.
EM outro lugar da diocese de Salerno, enquanto ali pregávamos a santa missão, havia um certo homem que tinha uma grande inimizade com outro, que o tinha ofendido. Um dos nossos padres lhe falou de perdão. Mas ele respondeu:
— Padre, tendes-me visto alguma vez presente aos sermões? Não. Pois se eu lá não apareço é porque bem vejo que já estou condenado; mas o que eu quero é vingar-me.
Porfiou muito o padre para movê-lo, mas, vendo que perdia o tempo, lhe disse:
— Toma esta imagem da Senhora.
Ele a princípio respondeu:
— E para que me serve ela?
Porém, logo que a recebeu, como se não tivera nunca negado o perdão pedido, disse ao missionário:
— Meu padre, Vossa Reverendíssima quer mais alguma coisa que o perdão? Aqui estou pronto a dá-lo.
Marcou-se para isso a manhã seguinte. Mas, chegada esta, tinha o homem outra vez mudado, e não queria já fazer nada. O dito padre lhe deu outra imagem. Ele não a queria, pelo que a recebeu contrariado. Mas quê? Logo que pegou nela, disse imediatamente:
— Ora vamos, acabemos com isso. Onde está o sujeito?
E logo concedeu o perdão, e depois se confessou.
Oração
AH, SENHORA minha imaculada, eu me alegro convosco por serdes enriquecida de tanta pureza. Dou graças e resolvido estou a dá-las sempre ao nosso comum Criador por vos ter preservado de toda a mancha de culpa, como tenho por certo; e para defender este vosso tão grande e singular privilégio da vossa imaculada Conceição, estou pronto e juro dar, se for necessário, a minha própria vida.
Quisera eu que todo o mundo vos conhecesse e confessasse por aquela formosa aurora que fostes sempre adornada da divina luz; por aquela arca escolhida de salvação, livre do comum naufrágio do pecado; por aquela perfeita e imaculada pomba, qual vos declarou o vosso esposo divino; por aquele jardim fechado que foi a delícia de Deus; por aquela fonte selada em que nunca entrou o inimigo para a turbar; finalmente, por aquele cândido lírio que sois, que, nascendo entre os espinhos dos filhos de Adão, em que todos nascem manchados da culpa e inimigos de Deus, nascestes pura e toda cândida e toda amiga do vosso Criador.
Deixai, pois, que também eu vos louve como vos louvou o vosso mesmo Deus: toda bela sois e mácula não há em vós. Ó puríssima pomba, toda cândida, toda bela, sempre amiga de Deus: Ó quão bela sois, amiga minha, quão bela sois! Ah, dulcíssima, amabilíssima, imaculada Maria! Vós, que sois tão formosa aos olhos do vosso Senhor, não vos dedigneis, vo-lo peço, de pôr os vossos carinhosos olhos sobre as chagas tão asquerosas da minha alma. Volvei para mim, os olhos, compadecei-vos de mim e salvai-me.
Ó gracioso ímã dos corações, atraí também a vós o meu mísero coração. Vós que desde o primeiro momento da vossa vida vos apresentastes pura e bela diante de Deus, tende piedade de mim, que não só nasci em pecado, mas depois do batismo de novo manchei de culpas a minha alma.
Aquele Deus que vos escolheu para sua Filha, sua Mãe e sua Esposa, e por isso vos preservou de toda a culpa, e vos preferiu, no seu amor, a todas as criaturas que graça jamais vos recusará? Virgem imaculada, vós haveis de salvar-me. Dir-vos-ei com São Filipe Néri: Fazei que eu me lembre sempre de vós, e vós não vos esqueçais de mim. Parece-me que tarda mil anos o ver a vossa beleza no paraíso, para mais vos louvar e amar, Mãe minha, Rainha minha, amada minha, belíssima, dulcíssima, puríssima, imaculada Maria. Amém.