Imaculada Conceição de Maria – Ponto II

Imaculada Conceição de Maria – Ponto II

Extraído do livro Glórias de Maria, de Santo Afonso Maria de Ligório, Bispo e Doutor da Igreja, Parte II, Seção I: Festas Principais de Maria, Discurso 1, sobre a Imaculada Conceição de Maria, ponto II

Ponto II

EM segundo lugar, convinha ao Filho preservar a Maria da culpa, como sua Mãe. A todos os outros filhos não se concede poderem escolher a mãe segundo o seu agrado: mas se a um se concedesse isso, quem haveria que, podendo ter por mãe uma rainha, a preferisse escrava? Podendo tê-la nobre, a quisesse plebeia? Podendo tê-la amiga de Deus, a quisesse inimiga? Se, portanto, só o Filho de Deus pôde escolher a sua Mãe segundo o seu agrado, bem se deve ter por certo que a escolhesse como convinha a um Deus. Assim fala São Bernardo.1

E sendo muito conveniente a um Deus puríssimo ter uma Mãe pura de toda a culpa, assim precisamente a fez, como afirma São Bernardino de Sena: A terceira santificação foi a maternal, e esta afasta a culpa original. Esta existiu na Bem-aventurada Virgem Maria. Na verdade, Deus fez uma Mãe tal, pela nobreza da natureza como pela perfeição da graça, qual convinha que fosse a sua Mãe.2

Vem ao caso o que escreveu o Apóstolo: Tal Pontífice convinha que nós tivéssemos, santo, inocente, imaculado, segregado dos pecadores 3. Adverte aqui um douto autor que, segundo São Paulo, foi conveniente que o nosso Redentor não fosse só segregado dos pecados, mas ainda dos pecadores, como explica Santo Tomás.4 Mas como podia Jesus Cristo dizer-se segregado dos pecadores, tendo uma Mãe pecadora?

Diz Santo Ambrósio: Não da terra, mas do céu escolheu Cristo este vaso pelo qual descesse, e o consagrou templo do pudor.5 Alude o santo ao dito de S. Paulo: O primeiro homem da terra, terrestre, o segundo homem do céu, celeste 6.

Chama à divina Mãe vaso celeste, não que Maria não fosse terrena por natureza, como sonharam os hereges, mas celeste por graça, porque foi superior aos anjos do céu em santidade e pureza, como convinha a um rei da glória que devia habitar em seu seio, segundo o Batista revelou a Santa Brígida: Não era conveniente, lhe disse, que o Rei da glória habitasse senão num vaso puríssimo e escolhidíssimo, superior a todos os anjos e homens.7 Com isto diz o que o mesmo Padre Eterno disse à mesma santa: Maria foi vaso puro e não puro: puro porque era toda formosa; mas não puro porque nasceu de pecadores, embora concebida sem pecado, para que o meu Filho nascesse dela sem pecado.8 Notem-se estas últimas palavras, isto é, que Maria foi sem culpa concebida, para que dela sem culpa nascesse o divino Filho. Não quer dizer que Jesus Cristo fosse capaz de contrair a culpa, mas que sofreria o opróbrio de ter uma Mãe infectada do pecado e escrava do demônio.

Diz o Espírito Santo que a honra do pai é a glória do filho, e a desonra do pai é o opróbrio do filho 9. Por isso, diz Santo Agostinho que Jesus preservou o corpo de Maria de se corromper depois da morte, porque redundava em desonra sua que fosse consumida pela podridão aquela carne virginal de que ele se havia já revestido.10 Ora, se teria sido opróbrio de Jesus Cristo nascer duma Mãe que tivesse tido um corpo sujeito à podridão da carne, quanto mais nascer duma Mãe que houvesse tido a alma infectada da podridão do pecado? Além de que é verdade que a carne de Jesus é a mesma que a de Maria, de tal modo, como acrescenta o mesmo santo, que a carne do Salvador, ainda depois da sua ressurreição, ficou a mesma que tomou da Mãe.11 Pelo que disse Arnoldo de Chartres: Uma só é a carne de Maria e de Cristo; e por isso julgo que a glória do Filho não é tanto comum com a Mãe como a mesma.12

Ora, sendo isto verdade, se acaso a Bem-aventurada Virgem tivesse sido concebida em pecado, embora o Filho não tivesse contraído a mancha do pecado, todavia lhe resultaria uma certa mancha de ter unida consigo a carne em tempo infectada da culpa, vaso de imundície e sujeita a Lúcifer.

Maria foi não só Mãe, mas digna Mãe do Salvador. Assim lhe chamam todos os Santos Padres. São Bernardo diz: "Só tu foste achada digna de que no teu tálamo virginal o Rei dos reis escolhesse para si a sua primeira morada".13 São Tomás de Vilanova: "Antes de conceber já era apta para ser Mãe de Deus".14 A mesma Santa Igreja nos afirma que a Virgem mereceu ser Mãe de Jesus Cristo: "Bem-aventurada Virgem, cujas entranhas mereceram trazer a Cristo Senhor nosso".15 O que explicando Santo Tomás de Aquino, diz que Maria não pôde merecer a encarnação do Verbo, mas com a divina graça mereceu tal perfeição, que a tornasse digna Mãe dum Deus,16 segundo o que dela também escreveu São Pedro Damião, que é precisamente o que diz Santo Agostinho: "A sua singular santidade lhe mereceu por graça ser julgada singularmente digna de receber a Deus".17

Ora, suposto que Maria foi digna Mãe de Deus, que excelência - diz São Tomás de Vilanova - e que perfeição lhe não convinha?14 Ensina o Doutor Angélico que, quando Deus elege alguém para alguma dignidade, fá-lo idôneo para ela; por onde diz que Deus, tendo elegido a Maria para sua Mãe, certamente a fez digna de o ser pela sua graça,18 "pecado algum atual, nem sequer venial: aliás, diz, não seria e daqui deduzia o santo que a Virgem não cometeu jamais digna Mãe de Jesus Cristo, sendo que a ignomínia da Mãe seria também do Filho, tendo por mãe uma pecadora.11

Ora, se Maria, cometendo um só pecado venial, que não priva a alma da graça divina, não seria digna Mãe de Deus, quanto mais, se Maria fosse infectada da culpa original, que a teria feito inimiga de Deus e escrava do demônio? Por esta razão disse Santo Agostinho, naquela sua célebre sentença, que, falando de Maria, não queria fazer menção de pecados por honra daquele Senhor que ela mereceu ter por Filho e pelo qual recebeu a graça de vencer o pecado completamente.19

De maneira que devemos ter por certo que o Verbo encarnado escolheu a Mãe que lhe convinha e da qual não tivesse que se envergonhar, como diz São Pedro Damião.20 Do mesmo modo fala São Próculo: "Habitou nas entranhas que ele havia criado sem nota de desdoiro para si".21 Não era opróbrio para Jesus Cristo ouvir os hebreus chamarem-lhe filho de Maria por desprezo, como filho duma pobre mulher 22, porque veio à terra para dar exemplo de humildade e paciência. Mas, ao contrário, sem dúvida o seria, se se pudessem ouvir os demônios dizer-lhe: Não foi acaso a Mãe dele pecadora e em tempo nossa escrava? Teria também sido inconveniente que Jesus Cristo nascesse duma mulher disforme e aleijada de corpo ou no corpo possessa dos demônios. Mas quanto mais o seria nascer duma mãe disforme em tempo na alma e na alma possessa de Lúcifer?

Ah! Deus, que é a mesma sabedoria, soube bem fabricar na terra, qual lhe convinha, aquela casa em que devia habitar 23. O Senhor, diz Davi, santificou esta sua habitação desde a luz da aurora, isto é, desde o princípio da sua vida, para torná-la digna de si, sendo que a um Deus santo não convinha escolher uma casa que não fosse santa 24. E se ele declara que não irá jamais habitar numa como para alma malévola e num corpo sujeito aos pecados 25, podemos pensar que o Filho de Deus tenha escolhido habitação o corpo e a alma de Maria sem primeiro a santificar e preservar de toda a mancha de pecado, pois que, como ensina Santo Tomás, o Verbo eterno habitou não somente na alma, mas também no ventre de Maria?26

Canta a Santa Igreja: Senhor, vós não tivestes asco de habitar no ventre da Virgem."27 Sim, porque um Deus teria horror de encarnar no seio duma Inês, duma Gertrudes, duma Teresa, porque estas virgens, posto que santas, foram, não obstante, manchadas em tempo pelo pecado original. Mas não teve horror de fazer-se homem no seio de Maria, porque esta Virgem predileta foi sempre pura de toda a mancha de culpa e nunca possessa da serpente inimiga. Por onde escreveu Santo Agostinho: O Filho de Deus nenhuma casa fabricou mais digna do que Maria, a qual não foi jamais possuída do inimigo nem despojada dos seus ornamentos. Ao contrário, quem jamais ouviu, diz São Cirilo Alexandrino, que um arquiteto haja para seu uso construído uma casa, e depois a tenha cedido para ser ocupada e possuída primeiro pelo seu maior inimigo?28

Sim, porque aquele Senhor, pondera São Metódio, que nos pôs preceito de honrar os pais, não quis, fazendo-se homem como nós, deixar de observá-lo, dando a sua Mãe toda a graça e honra.29 Por isso diz Santo Agostinho que deve se crer certamente que Jesus Cristo preservou da corrupção o corpo de Maria depois da morte, como acima se disse, porque, se o não tivesse feito, não teria observado Lei, a qual, assim como manda honrar a Mãe, também proíbe desonrá-la.30

Ora, quanto menos teria Jesus atendido à honra da sua Mãe, se a não tivesse preservado da culpa de Adão? Pecaria por certo o filho - diz o Padre Tomás de Argentina, agostiniano - que, podendo preservar a mãe do pecado original, o não fizesse; ora, o que para nós teria sido pecado, diz o referido autor, deve crer-se que não teria sido decente ao Filho de Deus, isto é, que, podendo ele fazer a Mãe imaculada, o não tivesse feito. Ah, não, acrescenta Gerson: "Querendo tu, supremo Príncipe, ter uma Mãe, lhe deverás certamente honra; porque seria evidente que se não cumpriria bem aquela lei, se permitisses contrair a abominação do pecado original àquela que deve ser a habitação de toda a pureza".31
Além disso, é sabido que o Filho de Deus veio ao mundo mais para remir a Maria do que a todos os outros homens, como escreveu São Bernardino de Sena.32 E sendo dois os modos de remir, como ensina Santo Agostinho, um levantando o já caído, outro impedindo-o de cair, não há dúvida de que este é o modo mais nobre,33 porque se evita até aquele dano ou mancha que sempre contrai a alma pela queda que fez. Portanto, deve crer-se que Maria foi remida do dito modo mais nobre, qual convinha à Mãe de Deus, como diz São Boaventura: Deve crer-se que o Espírito Santo com novo gênero de santificação no princípio da sua conceição a remiu e por graça singular preservou do pecado original, não que nela estivesse, mas que estaria.34

O qual sermão prova ser verdadeiramente do Santo, o doutor Frassen.35 Sobre isso escreveu elegantemente o Cardeal Cusano: Os outros tiveram o Redentor que os livrou do pecado já contraído, mas a Santíssima Virgem teve o Redentor - porque era seu Filho - que a livrou de contrair o pecado.

Em suma, para concluir este ponto, diz Hugo de São Vítor que pelo fruto se conhece a árvore. Se o Cordeiro foi sempre imaculado, sempre imaculada devia ser também a Mãe.36 Por onde este mesmo doutor saudava a Maria chamando-a: Ó digna Mãe do digno Filho. Queria dizer que ninguém senão Maria era digna Mãe dum tal Filho; e ninguém senão Jesus era digno Filho duma tal Mãe. E continua a dizer: Ó digna do digno, formosa do formoso, excelsa do Altíssimo, Mãe de Deus.37 Digamos-lhe, pois, com Santo Ildefonso: Amamentai, ó Maria, o vosso Criador; amamentai aquele que vos fez e tão pura e perfeita vos fez, que merecestes que ele de vós tomasse o ser humano.38

Notas
  1. Hom. 3, sup. Miss.
  2. Tom. 2, sermo. 51, c. 1
  3. Hb. 7, 26
  4. 3 p., qu. 4, art. 6
  5. De inst. V., c. 5
  6. 1Cor. 15, 47
  7. Rev. l. I, c. 31.
  8. Lib. V, c. 13
  9. Eclo. 3, 13
  10. Serm. de Ass. B. V.
  11. Loc. cit.
  12. De laud. Virg.
  13. In depr. ad V.
  14. Serm. 3, de Nat. V.
  15. Resp. 1. noct. 2, in Nat. Mar.
  16. 3 p., q. 2, a. 2 ad 3.
  17. De Ass., Serm. 2
  18. 3 p., q. 27, art. 4
  19. De Nat. et grat. contr. Pel. t. 7, c. 36
  20. Hom. in Nat. Virg., Serm. 46
  21. Or. de Nat. Dom.
  22. Mt. 13, 55
  23. Sl. 45, 5-6
  24. SI. 92, 5
  25. Sb. 1, 4
  26. 5 p., q. 27, a. 4
  27. Te Deum
  28. In Conc. Eph. n. 6
  29. Or. in Hypap.
  30. Serm. de Ass. B.V.
  31. S. de Conc. V
  32. Serm. de Immac. Virg. Conc.
  33. S. Anton.
  34. Serm. 2, de Ass.
  35. Scot. Acad. to. 8, a. 3, sect. 3, q. 1, p. 5
  36. Coll. 3, de Verb. Inc.
  37. Serm. de Ass.
  38. Serm. de Nat. V.