Imaculada Conceição de Maria – Ponto I

Imaculada Conceição de Maria – Ponto I

Extraído do livro Glórias de Maria, de Santo Afonso Maria de Ligório, Bispo e Doutor da Igreja, Parte II, Seção I: Festas Principais de Maria, Discurso 1, sobre a Imaculada Conceição de Maria, ponto I

Quanto convinha a todas as três divinas Pessoas preservar Maria da culpa original

DEMASIADAMENTE grande foi o dano que o maldito pecado trouxe a Adão e a todo o gênero humano. Porque, perdendo miseravelmente a graça, perdeu ao mesmo tempo todos os demais bens de que fora enriquecido no princípio e atraiu sobre si e todos os seus descendentes o ódio de Deus, o cúmulo de todos os males. Mas, desta comum desgraça quis Deus eximir aquela Virgem bendita que ele havia destinado para Mãe do segundo Adão, Jesus Cristo, que devia reparar o dano feito pelo primeiro. Ora, vejamos quanto convinha a Deus e a todas as três Pessoas divinas preservar esta Virgem da culpa original. Veremos que ao Pai convinha preservá-la como sua Filha, ao Filho como sua Mãe, ao Espírito Santo como sua Esposa.

Ponto I

1. Maria, filha primogênita do Pai

EM primeiro lugar, convinha ao Eterno Pai fazer que Maria fosse isenta da mancha original, porque ela era sua Filha e Filha primogênita, como ela mesma o atestou: Eu sai da boca do Altíssimo, gerada antes de todas as criaturas 1. Assim aplicaram já esta passagem a Maria
os intérpretes sagrados, os Santos Padres e a própria Igreja, precisamente na festa da sua Conceição. Porque, ou seja primogênita enquanto foi predestinada juntamente com o Filho nos divinos decretos antes de todas as criaturas, como quer a escola dos escotistas; ou seja primogênita da graça, como predestinada para Mãe do Redentor depois da previsão do pecado, segundo quer a escola dos tomistas: todos contudo concordam em chamá-la a primogênita de Deus. Sendo isto assim, muito convinha que Maria não fosse nunca escrava de Lúcifer, mas só e sempre possuída do seu Criador, como de fato foi, segundo o que ela mesma disse: o Senhor me teve consigo no começo das suas obras 2. Por onde com razão chamou Dionísio, arcebispo de Alexandria, a Maria só e única Filha da vida3, para a distinguir das outras, que, nascendo em pecado, são filhas da morte.

2. Maria, medianeira de paz
Além disso, muito convinha que o Eterno Pai a criasse na sua graça, porque a destinou para ser reparadora do mundo perdido e medianeira de paz entre os homens e Deus, como assim mesmo lhe chamam os Santos Padres e especialmente São João Damasceno, que lhe diz assim: Ó Virgem bendita, vós nascestes para servir à salvação de toda a terra4. Por isso diz São Bernardo que Maria foi já figurada na arca de Noé, porque assim como por esta foram preservados os homens do dilúvio, assim por Maria nós somos salvos do naufrágio do pecado; mas com esta diferença, que por meio da arca se salvaram poucos e por meio de Maria se livrou todo o gênero humano.5 Por esta razão chama Santo Atanásio a Maria nova Eva, Mãe da vida. Nova Eva, porque a primeira foi mãe da morte e a SS. Virgem é mãe da vida.6 São Teófanes, bispo de Niceia, lhe diz: Salve, tu que dissipaste a tristeza de Eva. S. Basílio lhe chama pacificadora entre os homens e Deus e Santo Efrém a pacificadora de todo o mundo.

Ora, quem trata da paz não convém por certo que seja inimigo do ofendido, e muito menos que seja cúmplice do mesmo delito. Diz São Gregório que para aplacar o juiz não podia servir um seu inimigo; senão, em vez de o aplacar, mais o irritaria. Por isso, devendo Maria ser a medianeira de paz dos homens com Deus, era de toda a razão que não se apresentasse ela também pecadora e inimiga de Deus, mas muito amiga sua e pura de pecado.

Além disso, convinha que Deus a preservasse da culpa original, já que a destinava a esmagar a cabeça da serpente infernal, que, seduzindo os nossos primeiros pais, trouxe a morte a todos os homens, como já lhe predissera o Senhor: Porei inimizades entre ti e a mulher e entre a tua e a sua descendência: ela esmagará a tua cabeça 7. Ora, se Maria devia ser a mulher forte, posta no mundo para vencer a Lúcifer, não convinha por certo que ela fosse primeiro vencida por ele e feita sua escrava; mas antes era razão que ela fosse isenta de toda a mácula e de toda a sujeição ao inimigo. Intentou o soberbo, como havia infectado já com o seu veneno todo o gênero humano, infectar também a puríssima alma desta Virgem.

Mas, para sempre seja louvada a bondade divina, que a preveniu para este fim com tanta graça, que, ficando ela livre de todo o reato de culpa, pôde assim abater e confundir a sua soberba, como diz Santo Agostinho ou quem quer que seja o autor do comentário do Gênesis. Eis as suas palavras: Como o diabo é a cabeça do pecado original, a esta esmagou Maria, porque nenhuma sujeição do pecado teve entrada na alma da Virgem, e por isso foi isenta de toda a mancha.8 E mais claramente São Boaventura: Era conveniente que a Bem-aventurada Virgem Maria, por quem nos é tirado o opróbrio, vencesse o diabo de tal maneira, que nem sequer por pouco tempo lhe estivesse sujeita.9

3. Maria, destinada a ser Mãe do Salvador
Mas sobretudo convinha principalmente ao Eterno Pai tornar a esta sua Filha isenta do pecado de Adão, porque a destinava a ser Mãe do seu Unigênito. Tu, ó Maria, lhe diz São Bernardino de Sena, foste predestinada na mente de Deus, antes de toda a criatura, para fazeres homem o próprio Deus.10 Portanto, se não por outro motivo, ao menos por honra do Filho, que era Deus, pedia a razão que o Pai a criasse pura de toda a mancha. Diz o angélico Santo Tomás que todas as coisas que são ordenadas a Deus devem ser santas e puras de toda a imundície.11

Por isso, Davi, desenhando o Templo de Jerusalém com aquela magnificência que convinha ao Senhor, dizia: Porque não se prepara habitação para um homem, mas para Deus12. Ora, quanto mais devemos razoavelmente crer que o supremo Criador, destinando Maria a ser a Mãe do seu mesmo Filho, a devia adornar na alma das prendas mais belas, para que fosse digna habitação de Deus? Assim o afirma o beato Dionísio Cartusiano.13 E a própria santa Igreja disto nos dá a segurança, atestando que Deus preparou o corpo e a alma da Virgem para ser digna habitação na terra do seu Unigênito."14

É sabido que a primeira glória dos filhos é nascerem de pais nobres15. Por isso é que mais se sofre no mundo a desonra de ser falto de bens e de letras do que de ser vil de nascimento; porquanto o pobre pode fazer-se rico com a sua indústria, o ignorante pode fazer-se douto com o estudo, mas o que nasce vil dificilmente pode chegar a ser nobre, e se porventura chegasse, sempre poderia lançar-se-lhe em rosto a sua antiga mácula originária. Como podemos, pois, pensar que Deus, podendo fazer nascer o seu Filho duma mãe nobre, preservando-a da culpa, haja querido fazê-lo nascer duma mãe infectada do pecado, permitindo que Lúcifer pudesse sempre lançar-lhe em rosto o opróbrio de ter nascido duma mãe escrava sua e inimiga de Deus? Não, o Senhor tal não permitiu; antes proveu à honra do seu Filho, fazendo que a sua Mãe fosse sempre imaculada, para que fosse uma Mãe qual convinha a tal Filho. Assim no-lo atesta a Igreja grega: Deus, por uma providência singular, fez que a SS. Virgem desde o primeiro instante da sua existência fosse tão omnimodamente pura, quanto lhe convinha para que fosse digna Mãe de Cristo.16

4. Maria devia ser preservada da mácula
É axioma comum entre os teólogos que nunca foi concedido a criatura alguma nenhum dom de que não tenha sido enriquecida também a Bem-aventurada Virgem. Eis como fala S. Bernardo: O que se sabe ter sido concedido a alguns dos homens não é certamente lícito suspeitar que tenha sido negado a Virgem tão excelsa;17 e São Tomás de Vilanova: Jamais foi concedido a algum santo coisa alguma que com mais vantagem não brilhe em Maria desde o princípio da sua vida.18

E, sendo verdade que entre a Mãe de Deus e os servos de Deus há uma distância infinita, segundo o célebre dito de São João Damasceno19, certamente se deve supor, como ensina Santo Tomás, que Deus tenha concedido privilégios de graça em todo o gênero maiores à Mãe do que aos servos20. Ora, isto suposto, argumenta Santo Anselmo, o grande defensor de Maria Imaculada, dizendo: Não podia acaso a divina sabedoria preparar para seu Filho uma morada pura, preservando-a de toda a mácula comum ao gênero humano?21 Deus tinha já podido - continua S. Anselmo - conservar ilesos os anjos do céu na ruína de tantos, e não pôde depois preservar a Mãe do seu Filho e a Rainha dos anjos da queda comum a todos os homens?22 Pôde Deus, acrescento eu, dar a graça a uma Eva de vir ao mundo imaculada, e não pôde dá-la depois a Maria?

Ah, não. Deus bem o pôde fazer e fez. Porquanto convinha por todas as razões, como diz o mesmo Santo Anselmo, que aquela Virgem que Deus dispunha dar para Mãe ao seu Filho único fosse adornada duma tal pureza, que não só se avantajasse à de todos os homens e de todos os anjos, mas que fosse a maior que se pode imaginar depois de Deus.23 E mais claramente São João Damasceno: Tendo preservado a alma da Virgem juntamente com o corpo, como convinha àquela que havia de receber a Deus no seu seio, porque, sendo ele mesmo santo, descansa nos santos.24

De modo que bem pôde dizer o Padre Eterno a esta Filha amada: Filha, tu és entre todas as outras minhas filhas como lírio entre os espinhos25, sendo que elas são todas manchadas pelo pecado, e tu foste sempre imaculada e sempre amiga.

Notas
  1. Eclo. 24, 5
  2. Pr. 8, 22
  3. Epist. Contr. Paul. Samos.
  4. Or. 1, de Nat. V.
  5. Serm. de B. Virg.
  6. Or. de S. Deip.
  7. Gn. 3, 15
  8. In cit. loc. Gen
  9. In. 3, dist. 3, art. 2, quest.2
  10. Serm. 51, c. 4
  11. 1 p., q. 36, art. 1
  12. 1Cr. 29, 1
  13. L. 2 de laud. Virg., art. 2
  14. Or. ad. ant. Salve Regina
  15. Pr. 17, 6
  16. In Men., die 25 Martii
  17. Ep. 174
  18. Serm. 2, de Ass.
  19. Or. 1, de Ass.
  20. 3 p., q. 27, art. 2
  21. Serm. de Conc.
  22. Loc. cit.
  23. Dict. lib de Conc.
  24. Lib. 4, de fid. ort., c. 15
  25. Ct. 2, 2
Imaculada Conceição de Maria – Ponto I — Santo Afonso Maria de Ligório, C.Ss.R., Doutor da Igreja