31 de março — São Guido, Abade
31 de março — São Guido, AbadeExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
São Guido nasceu em Casamare, perto de Ravena, de pais piedosos. A boa educação que recebera, desenvolveu ainda mais sua já grande inclinação à virtude e vida religiosa. Tendo terminado os estudos, dirigiu-se a Roma, onde recebeu a tonsura e mais tarde as Ordens Maiores. Seguindo seu desejo, retirou-se à solidão, onde se confiou à direção espiritual de um santo eremita, chamado Martinho. Os progressos que o jovem eremita fazia, na perfeição evangélica, mereceram os maiores elogios do mestre, o qual, decorridos três anos, o mandou para o mosteiro de Pomposa. Também no convento, Guido foi modelo de perfeito religioso, o que determinou a comunidade a elevá-lo à dignidade de abade, cargo que ocupou por 48 anos, a contento de todos. Uma das suas maiores satisfações foi ver o seu pai e irmão entre os religiosos confiados à sua direção. As contrariedades não lhe abatiam o espírito e seus trabalhos e ocupações obedeciam a uma ordem fixa, que era observada pontualmente. Festas e divertimentos profanos não o atraíam. No comer e beber, observava temperança tal, que, sem exagero, se podia falar que praticava contínuo jejum. A regra da casa era por ele conscienciosamente observada. Não perdia ocasião de manter no convento o bom espírito e de proporcionar aos seus filhos os meios de santificação. A convite do Santo, vinha São Pedro Damião, de tempo em tempo, pregar aos religiosos retiros e dirigir outros exercícios espirituais.
Pouco antes da sua morte, dirigiu-se à solidão para dedicar-se mais sossegadamente à preparação para a morte. Quando Henrique III, em 1046, foi a Roma receber a coroa imperial, pediu a Guido que o acompanhasse, na qualidade de conselheiro particular. Guido não pôde subtrair-se a esta incumbência, mas, ao retirar-se do convento, deu aos monges a entender que não o veriam mais. Na viagem de Parma a Borgo, São Guido adoeceu gravemente e morreu. Por ocasião de sua morte, um homem cego, de Parma, recuperou a vista, depois de ter invocado a intercessão do santo abade. Em vista deste e de outros milagres que foram observados, os parmenses não quiseram restituir ao convento o corpo de seu superior. Os religiosos apelaram para a autoridade do imperador. Henrique, depois de coroado em Roma, levou consigo as relíquias de São Guido e depositou-as na Catedral de Spira, a qual era de São João Evangelista, como se chamava, e que ficou sendo conhecida sob o título de São Guido ou Wido.
Reflexões
1. São Guido era amigo da ordem e da pontualidade, tendo para tudo as horas e os minutos marcados. A ordem é de muita importância na vida doméstica, como na vida religiosa e São Paulo recomendou-a aos Coríntios, dizendo: "Fazei tudo com ordem". Deus também é amigo da ordem e aborrece a desordem. Na grande obra da criação, no universo, em todos os reinos da natureza, há a maior ordem. Havia ordem no culto do templo; Deus mesmo tinha ordenado as cerimônias e sacrifícios, que obedeciam a um regulamento minucioso. Jesus Cristo tinha a sua vida bem em ordem, o que se vê claramente por estas suas palavras: "Minha hora ainda não chegou". — "É esta a vossa hora e o poder das trevas". — É muito recomendável que tua vida também obedeça a uma ordem fixa. A ordem na vida é de vantagem extraordinária para tudo. Uma casa onde não reina ordem, onde hoje se levanta e deita cedo, amanhã tarde; onde hoje se trabalha, amanhã não; onde não tem hora para as refeições, muito menos para as devoções, uma tal casa se assemelha muito ao cárcere dos condenados, de que a Bíblia afirma que nele não há ordem nenhuma, mas muita desordem e desassossego" (Jó 10, 22).
2. Outro ponto em que São Guido nos pode servir de exemplo é sua pontualidade da oração quotidiana. Ele não dispensava a oração, houvesse o que houvesse. Muitos cristãos da oração só se lembram em último lugar, quando o mandamento de Jesus Cristo é que rezemos sempre. Para tudo se tem tempo, menos para a oração; de tudo se trata, menos da oração, sendo ela a primeira coisa que se dispensa. Não é a oração mais necessária que o alimento? Há alguma coisa na vida que nos seja tão necessária e indispensável como a oração? Observa o conselho que Santo Agostinho nos dá: "Marca as horas certas para os negócios de tua alma! Destina um tempo determinado para aquele que te deu o tempo, isto é, Nosso Senhor". "Se és capaz de passar o tempo todo, ocupando-te em coisas inúteis, porque não dedicas uma horazinha também aos interesses da alma?" — São João Crisóstomo.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩