31 de maio — Santa Ângela Mérici, Virgem
31 de maio — Santa Ângela Mérici, VirgemExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Santa Ângela Mérici é contemporânea do tristemente célebre revolucionário Martinho Lutero. Numa época, em que os homens obcecados pelo orgulho e vaidade, negaram obediência à Sé Apostólica e pregaram a rebelião contra a Igreja de Cristo, a divina Providência escolheu pobres donzelas, que pela "estultícia da sua pregação" (I Coríntios 1, 21) envergonhassem a sabedoria humana, pela sua obediência desarmassem a licenciosidade, e pela sua dedicação curassem os males causados pela tal chamada "Reforma". Entre aquelas escolhidas ocupa Ângela Mérici um lugar saliente.
Natural de Desenzano, na alta Itália, nasceu em 1470, filha de pais honestíssimos, porém, pobres. Sua educação era, como não podia ser outra, numa família exemplar e temente a Deus, esmeradíssima, baseada sob o fundamento da lei cristã. Órfã muito cedo, Ângela e sua irmã foram confiadas aos cuidados de um tio, em Salò.
Apesar de poderem fazer sem constrangimento algum seus exercícios religiosos, seu amor à solidão levou as duas irmãs meninas a um ato de grande imprudência. Sem nada dizer, um dia abandonaram a casa do tio para se retirarem a uma gruta, distante duas horas de Salò. Após longas pesquisas, o tio descobriu o paradeiro das suas sobrinhas, que, arrependidíssimas voltaram para casa. Lá viveram como num santo recolhimento, completamente separadas do mundo, conhecidas por todos pelo apelido de "as duas rolinhas de Salò". Pouco durou a íntima união das irmãs, que se dedicavam a mais terna amizade. Deus exigiu de Ângela o sacrifício da separação, pela morte de sua amiga e irmã. A dor era tamanha, que dia e noite passava no cemitério, junto ao túmulo que encerrava os restos mortais da irmã. Na idade de treze anos, recebeu Ângela a primeira Comunhão e, para poder unir-se mais vezes ao seu divino Salvador, entrou na Ordem Terceira de São Francisco de Assis. Jesus era o seu amor, seu supremo Bem, seu Tudo.
Pela morte de seu tio, Ângela resolveu voltar à sua terra, Desenzano, com o intuito de dedicar-se à instrução religiosa da mocidade feminina. Numa visão, com que Deus a distinguiu, foi-lhe apresentada uma multidão de donzelas, rodeadas de luz celeste, trazendo coroas na cabeça e lírios nas mãos, e acompanhadas por luminosos Anjos, subindo uma escada, cuja extremidade terminava no céu. Ao mesmo tempo ouviu uma voz, dizendo: "Ângela, não deixarás a terra, enquanto não tiveres fundado uma União de Donzelas, igual àquela que acabas de admirar". Deus abençoou seu apostolado. As famílias confiaram-lhe a educação de suas filhas e sua fama se divulgou tão rapidamente, que de Bréscia vieram pedidos para fundar ali escolas.
No espírito de Ângela a ideia de fundar uma Ordem, com o fim da educação da mocidade feminina, tomou forma cada vez mais concreta. Para alcançar a assistência divina, numa obra de tanto alcance, Ângela fez uma romaria à Jerusalém. Na viagem perdeu a vista. Levada por outros, passou por todos os Santos Lugares, sem podê-los ver, a não ser pelos olhos da fé. Na volta, o navio perdeu o rumo e aportou na ilha de Cândia. Ali havia, perto do porto, um crucifixo milagroso. Ângela para lá se dirigiu e pediu a Nosso Senhor que lhe desse a vista. Sua oração foi ouvida e ela levantou-se curada. Para demonstrar sua gratidão, fez uma outra peregrinação à Roma, na ocasião do Jubileu (1525). O Papa Clemente VII recebeu-a em audiência, examinou os seus projetos e abençoou a obra, que parecia-lhe ter sido imposta pela Divina Providência. Após curta permanência em Cremona, voltou para Bréscia, onde então lançou os fundamentos da sua nova Ordem. De toda parte vieram petições de admissão na Congregação, que em 1535 contava já 27 irmãs. São estas as fundadoras da instituição das Ursulinas. O fim primitivo da mesma não era a vida contemplativa, mas o trabalho no seio das famílias: a instrução religiosa, a assistência aos pobres e enfermos e a vigilância pela conservação dos bons costumes. A primeira regra, escrita por Ângela, teve a aprovação do Cardeal Bispo de Bréscia e do Papa Paulo III. Mais tarde a Pia Instituição das Ursulinas tomou a feição de Ordem religiosa, com clausura e votos. Seu fim ficou sendo o mesmo: a educação da mocidade feminina.
Santa Ângela morreu no dia 27 de janeiro de 1540. Tendo Deus glorificado por muitos milagres o túmulo de sua serva, São Carlos Borromeu já iniciou o processo de sua beatificação, o qual, porém, ficou retardado pela morte do Bispo e outras circunstâncias. Ângela foi beatificada pelo Papa Clemente XIII em 1768 e o Papa Pio VII inseriu-a no catálogo das Santas da Igreja, no ano de 1807.
Reflexões
Santa Ângela Mérici se dedicou ao apostolado da instrução religiosa. Não pode haver missão mais nobre senão aquela de Jesus Cristo: "Eu vim para pregar aos pobres o Evangelho". Felizes daqueles que sentem em si a mesma vocação, porque, trabalhando pelos interesses mais caros de Jesus, dele receberão uma recompensa extraordinária. Desta missão participam os pais, a quem cabe por obrigação dar a seus filhos a necessária instrução religiosa. Desta missão participam os catequistas que, sob as vistas do vigário da freguesia, ensinam à mocidade a doutrina. Homens de grande reputação dedicaram-se ao ensino do catecismo, por exemplo, Gerson, o cardeal Bellarmino, Santo Inácio, São Francisco Xavier, São Francisco de Sales, Dom Bosco. Todos eles imitaram o exemplo de Jesus, que chamou as crianças, dizendo que delas é o reino do céu, e assevera que todo aquele que recebe uma criança em seu nome, é a Ele que recebe. Em cada criança devemos ver a Jesus. Por isso devemos amar as crianças e fazer-lhes todo o bem possível. O maior benefício que se lhes pode fazer é instruí-las na religião. Os meninos de hoje serão os homens do futuro. Triste é o espetáculo que presenciamos, da ignorância religiosa. Para que a sociedade se regenere no espírito da fé, para que a família, a escola, voltem aos princípios cristãos, é preciso que nos dediquemos à instrução religiosa.
Quando fordes convidados para ajudar aulas de catecismo, não vos recuseis, pelo contrário, considerai como grande honra poder trabalhar na obra de Cristo. Se não vos for possível trabalhar como catequistas, auxiliai com a vossa esmola e oração.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩