30 de outubro — São Marcelo († 298)

30 de outubro — São Marcelo († 298)
, ,

Extraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

Corria o ano de 289. Com grande pompa e majestoso esplendor, celebrava-se o aniversário natalício do imperador Maximiano Hérculio.

Parte saliente do programa festivo faziam as solenidades religiosas, em homenagem às divindades nacionais.

Marcelo, oficial da Legião Trajana, concebeu um aborrecimento tão profundo destas superstições ímpias que, diante da legião, declarou em voz alta: "De hoje em diante deixo de ser legionário do vosso império. É um crime adorar ídolos feitos de pau e pedra, uma insânia prestar homenagem a deuses surdos e mudos". Dizendo isto, depôs as armas e distintivos da patente.

Os soldados prenderam-no e relataram ao comandante Fortunato o que tinha ocorrido. Marcelo foi recolhido à prisão, para logo depois das solenidades ser levado à presença do comandante. Perguntado por Fortunato que motivo o tinha levado a infringir as leis da disciplina, Marcelo respondeu francamente, que eram incompatíveis as cerimônias supersticiosas do culto pagão com o juramento de fidelidade que tinha feito a Jesus Cristo. Fortunato achou o caso bastante grave para ser relatado ao Imperador Maximiano e ao César Constâncio. Este, porém, era favorável aos cristãos e achava-se na Espanha.

Marcelo foi mandado para a África e entregue à jurisdição do prefeito Aurélio Agrícola.

Na carta que Fortunato havia dirigido a Agrícola, lia-se o seguinte tópico:

"Marcelo, soldado do Imperador, atreveu-se a confessar publicamente a religião cristã e diante de muitas testemunhas injuriar o Imperador e nossos deuses. Entregamos à vossa jurisdição, para que o julgueis conforme o achardes conveniente".

Após a leitura desta carta, Agrícola perguntou a Marcelo:

— É verdade que fizeste e falaste o que esta carta acusa?

— É verdade, respondeu Marcelo.

— Eras oficial do exército e tomaste parte na guerra?

— Sim, era oficial do exército: não o quero mais ser, porque este serviço é incompatível com o serviço de Deus.

Sem mais delongas, Agrícola condenou Marcelo à morte pela espada.

Sendo conduzido ao lugar do suplício, Marcelo disse a Agrícola:

— Que Deus te pague o mal pelo bem!

Marcelo morreu em 298 e as relíquias acham-se-lhe na igreja principal da cidade de Leão, na Espanha.

Logo após o julgamento de São Marcelo se deu um fato que muito irritou a Agrícola e encheu de consolação a Marcelo: Cassiano, o secretário judiciário, ao ouvir a sentença de morte, negou-se terminantemente a registrá-la no protocolo. Indignado, levantou-se, atirando ao chão com o estilete e a tabuinha. Agrícola, não podendo conter a cólera, em termos ásperos exigiu que cumprisse o dever. Cassiano respondeu-lhe:

— Nada levo ao protocolo, porque a sentença que deste é injusta.

Não passou um mês e Cassiano recebeu a palma do martírio.

REFLEXÕES

São Marcelo abandonou a carreira militar, por se ter visto obrigado a acompanhar certas praxes idólatras. É provável que tenhas repugnância da idolatria e te aches com força de fazer os mesmos sacrifícios que os mártires fizeram, diante da exigência dos tiranos pagãos. Mas há outros ídolos, cuja presença talvez não sintas e não a sentindo, lhes prestas as tuas homenagens. Ídolos são as paixões não dominadas. Um ídolo é a sensualidade, de que tantos e tantos se declaram escravos. Um ídolo é a ambição, que se coloca no lugar que a Deus devia ser reservado. Ídolo é a soberba, o orgulho, que não se sujeita à autoridade e que só desprezo tem para com o próximo. Ídolos são o ódio, a ira, a preguiça e a gula, pois todos se põem em lugar de Deus. Pode o pecador afirmar que é melhor que o pagão, adorador de falsas divindades por ignorância, quando ele, o pecador, tem ou devia ter conhecimento de Deus e de sua santa lei?

Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:

Em Leão, o martírio de Cláudio, Lupércio e Vitório, mortos na perseguição diocleciana.

Em Paris, o mártir São Lucano.

Em Alexandria, a mártir Santa Eutrópia.

Em Palma, na ilha de Maiorca, Santo Afonso Rodrigues, Irmão leigo da Companhia de Jesus, canonizado por Leão XIII. 1617.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii