30 de março — São João Clímaco, Abade
30 de março — São João Clímaco, AbadeExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
São João Clímaco nasceu, em 525, na Palestina. Tendo recebido ótima educação, dedicou-se ao estudo das ciências com tão bom resultado, que mestres e companheiros o honraram com o cognome de escolástico, título de distinção enorme, que era dado só a homens de grande saber. Com a idade de 16 anos apenas, retirou-se para a solidão, perto do Monte Sinai. Desde os dias dos Santos Antão e Hilarião, o número de eremitas era considerável. João, receando não poder se entregar à vida religiosa no meio de muitos monges, escolheu um lugar solitário, onde viveu sob a direção do venerável ancião Martírio. Observando rigorosamente o silêncio, evitou os escolhos da vã loquacidade. A obediência garantiu-lhe grande tesouro de merecimentos e tão consideráveis foram os progressos que fez nesta virtude, que parecia não ter vontade própria. Pela sujeição da sua vontade à do seu mestre, evitou os perigos que ameaçam àqueles que preferem seguir as inspirações do amor-próprio.
Quatro anos passou João no noviciado, antes de fazer os santos votos e, quando afinal foi marcada a data em que se ofereceria a Deus, preparou-se pela oração e pelo jejum, para o tão solene ato. O Martírio morreu em 560, e João retirou-se para o deserto de Tola, que se estende aos pés do Monte Sinai. Sua cela distava da Igreja dos monges três léguas. Todos os sábados e domingos, ia ao convento para assistir à Santa Missa e receber a Santa Comunhão com os religiosos.
Por mais que quisesse esconder-se do mundo e fugir do contato com os homens, não lhe foi possível atingir este ideal, assim aconteceu que teve de atender o pedido de um jovem, chamado Moisés, para que o aceitasse como noviço.
São João possuía o dom de conhecer e curar doenças da alma. Um monge de nome Isaac via-se atormentado por tentações contra a pureza e a luta contra a carne levou-o quase ao desespero. Neste estado lastimável, refugiou-se à solidão de João, pedindo ao santo eremita socorro e consolo. “Meu filho, disse-lhe Clímaco, o seu remédio está na oração, vamos rezar”. Prostraram-se no chão e, desde aquele momento, ficou o monge livre da tentação.
A fama da santidade e o alto grau de perfeição que Clímaco possuía não impediram que lhe surgissem inimigos, nas fileiras dos próprios monges. A humildade e paciência, porém, do Santo, desarmaram as acusações caluniosas dos seus desafetos.
Em 600, foi João eleito abade de todos os monges do Monte Sinai e da redondeza. Dos 70 anos de idade que contava, 50 anos tinha passado no deserto. Sua administração coincidiu com uma terrível seca e grande fome. Vendo a miséria que reinava, João entregou-se à oração e Deus o recompensou, mandando chuva abundante e fertilizadora. Ao mesmo tempo, recebeu Clímaco uma carta de São Gregório Magno, em que o grande Papa se recomendava às orações do santo abade, e com a carta mandou-lhe uma avultada quantia destinada ao hospital que existia perto de Sinai.
A pedido do abade João de Raithu, superior de um convento situado perto do Mar Vermelho, João compôs a pequena regra para a vida religiosa. Este livro contém os princípios da perfeição evangélica e é intitulado Klímax, que quer dizer "escada". Daí o cognome, que a hagiografia deu ao autor da obra: João Clímaco. Uma outra obra que João escreveu, é um resumo de instruções para o Superior. Dos superiores, ele exige, em primeiro lugar, a pureza de corpo e alma, depois, o trabalho incessante na santificação da própria alma, firmeza e coragem, unidas à grande caridade e indulgência para com as fraquezas humanas. Depois de ter dirigido o convento de Sinai quatro anos, João Clímaco pediu demissão do cargo para poder preparar-se tranquilamente para a morte. Deixando em seu lugar o abade Gregório, voltou para o deserto de Tola, onde morreu em 30 de março de 605. João Clímaco faleceu com 80 anos. Poucos dias depois, seguiu-o Gregório, conforme o pedido que tinha feito a Deus.
Reflexões
1. Grande virtude admiramos na vida de São João Clímaco, que, com o maior cuidado, refreou a língua, empregando-a só para louvar a Deus e edificar o próximo — virtude preciosa, que raras vezes é encontrada! São muito poucas as pessoas que sabem dominar a língua. Nas conversações, os homens não têm outro assunto, a não ser: negócios, vida alheia, futilidades ou coisas piores ainda. Conversações religiosas são, por assim dizer, banidas da sociedade e quanto bem não fariam no seio da família! As festas da Igreja, o ano eclesiástico, um auxílio em grande perigo, os trabalhos, as dificuldades da vida e tantas outras ocasiões se oferecem para o pai e a mãe, delas se aproveitando, poderiam falar aos filhos de Deus, da Divina Providência, da Sabedoria divina, de sua Justiça e Misericórdia!
Do seio da família, como também da sociedade católica e honesta, devem ser banidas as conversações contra o bom nome do próximo e as palavras de ódio e vingança. Na família católica, orientada pelo espírito de Cristo, não se conhece a intriga, a calúnia e a maledicência; da religião só se fala com respeito e amor: não são admitidas conversações equívocas, pilhérias de mau gosto, que, além de não edificarem, escandalizam. Os pais devem dar sempre bom exemplo aos filhos e, de sua boca, estes nunca devem ouvir uma palavra sequer contra a fé, a caridade e a moral. É este o meio infalível de se fazerem merecedores da estima e consideração de todos. A casa, o lar onde são respeitadas a justiça, a caridade e a verdade, é abençoado por Deus. “Senhor, quem morará em vossos tabernáculos? Quem permanecerá no vosso santo monte? Aquele que fala a verdade, cuja língua abomina a calúnia, que não faz mal ao próximo e não maldiz” (Samos 14).
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩