30 de janeiro — Santa Martina de Roma, Virgem e Mártir

30 de janeiro — Santa Martina de Roma, Virgem e Mártir
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Extraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

Esta célebre Santa, uma das padroeiras de Roma, teve sua origem de uma das mais nobres famílias da cidade dos Césares. Seu pai, três vezes eleito cônsul, era um homem distintíssimo, possuidor das mais belas virtudes e favorecido pela fortuna.

Martina recebeu uma educação esmerada, baseada nos princípios do Cristianismo, mas teve a infelicidade de perder bem cedo seus pais. Inflamada de amor a Jesus Cristo, deu todos os seus bens aos pobres, fez voto de castidade e em atenção à sua vida santa e exemplar, foi recebida entre as diaconisas, honra com que só pessoas de muita probidade eram distinguidas.

Tinha o imperador Alexandre Severo (222-235) concebido a ideia de exterminar os Galileus (assim alcunhava aos cristãos). Conhecendo a formosura, nobreza e bondade de Martina, tudo fez para afastá-la da religião cristã e chegou até a oferecer-lhe a dignidade de imperatriz, caso se decidisse sacrificar a Apolo. Martina respondeu: “O meu sacrifício pertence a Deus imaculado; a Ele sacrificarei, para que confunda e aniquile a Apolo e, este deixe de perder almas”. Alexandre Severo, interpretando esta resposta em seu favor, organizou uma grande festa no templo de Apolo, para onde levou Martina, na presença dos sacerdotes e de muito povo. Os olhos de todos estavam dirigidos a ela, e no meio do grande silêncio que reinava, Martina fez o Sinal da Cruz, elevou olhos e braços ao céu e disse em alta voz: “Ó Deus e meu Senhor! Ouvi esta minha súplica e fazei com que se despedace este ídolo cego e mudo, para que todos, imperador e povo, conheçam, que só Vós sois o único Deus verdadeiro, e que não é licito adorar senão a Vós!” No mesmo instante a cidade inteira foi sacudida por um forte terremoto, a imagem de Apolo caiu do lugar; parte do templo ruiu por terra, sepultando os sacerdotes e o povo nos seus escombros.

O imperador, sobremodo enfurecido pelo êxito desastrado do sacrifício, ordenou que Martina fosse esbofeteada, flagelada e suas carnes dilaceradas com torqueses. Os algozes cumpriram a ordem, mas com muitas dificuldades. Cansados tiveram de desistir da tortura, porque um Anjo de Deus defendia a donzela que, no meio dos tormentos, entoava cânticos de louvor a Jesus Cristo e convidava os algozes a se converterem à religião de Jesus. Deus abençoou suas palavras: oito algozes caíram de joelhos, pediram perdão à Mártir e confessaram alto a fé em Jesus Cristo. O imperador, ainda mais enraivecido com este incidente, mandou levá-los todos ao cárcere, torturar barbaramente os oito algozes, os quais, por uma graça especial divina, ficando fiéis à sua fé, receberam a palma do martírio, pela decapitação.

No dia seguinte a “feiticeira” foi citada ao palácio do imperador, que a recebeu com estas palavras:

“Basta de embustes. Diga-me, para que eu saiba com quem estou tratando: Sacrificas aos deuses ou preferes aderir ao feiticeiro, a Cristo?” Com santa indignação respondeu Martina: “Não admito que insultes a meu Deus! Se queres aplicar-me novas torturas, aqui estou; não as temo; pois sei que Deus me dá força”. A resposta do imperador foi a condenação da Mártir a suplícios crudelíssimos e desumanos. Martina, no meio de suas dores, glorificou a Deus e suas feridas exalaram um suave perfume. Grande foi o espanto de Alexandre Severo ao ouvir, no dia seguinte, a notícia de que Martina que se achava no cárcere, estava perfeitamente curada das suas feridas e não só isto: Os guardas viram, durante toda a noite, o cárcere iluminado por uma luz maravilhosa e seus ouvidos foram extasiados por cânticos celestiais.

O furor do imperador chegou ao seu auge. Não mais senhor de sua paixão, condenou Martina às feras no anfiteatro, e fez timbre de achar-se entre os espectadores.

Novo milagre. Martina, de uma beleza sobrenatural encantadora, ajoelhada na “arena”, calma se achava à espera do leão. Este, o indômito rei do Saara, possante e belo em sua força, se anuncia com um rugido aterrador e em dois saltos se acha ao lado da vítima. Como, porém, domado por uma força invisível, arroja-se aos pés de Martina, manso como um cordeiro. De repente se levanta, e num salto medonho ganha a barreira, entrando no recinto dos espectadores, matando alguns deles. O pânico foi indescritível. O imperador, longe de se convencer da intervenção divina na defesa da mártir, atribuiu o fato extraordinário às forças mágicas de Martina, as quais, segundo sua opinião, teriam sua sede no cabelo da Santa. Deu ordem imediata para que Martina fosse privada da sua rica cabeleira e, assim profanada, ser fechada no templo de Júpiter. Nos dois dias seguintes Alexandre Severo, acompanhado de sacerdotes e muito povo, dirigiu-se ao templo. Não entrou, porém, porque teve a impressão de ouvir vozes masculinas e julgou que fossem dos deuses, que se tinham reunido para converter Martina. Aberto o templo no terceiro dia, ao imperador apresentou-se um espetáculo estranho: Achavam-se derrubadas ao chão todas as imagens dos deuses. À sua pergunta onde estava a estátua de Júpiter, Martina respondeu sorrindo: “Tendo ele que dar satisfação a Cristo, porque não salvou estes doze ídolos? Meu Deus entregou-o aos demônios, que dele fizeram o que vedes”.

Fulo de raiva por este escárnio, Severo ordenou que se despejasse banha fervente sobre o corpo de Martina e a entregasse às chamas. Veio, porém, uma grande chuva apagar a fogueira. Restava então só a morte pela espada. Martina aceitou esta sentença, com toda submissão e gratidão para com Deus. Espontaneamente ofereceu sua cabeça ao algoz, que a fez entrar nas eternas núpcias do Senhor Jesus.

Os cristãos apoderaram-se clandestinamente do corpo da Santa, e sepultaram-no com todas as honras. As relíquias de Santa Martina acham-se hoje na Igreja do mesmo nome, a qual se ergue perto do arco do triunfo de Severo.

Reflexões

Que vida encantadora, a de Santa Martina! Eis uma cristã de verdade, uma discípula de Jesus, dedicadíssima, uma filha da Igreja, exemplaríssima. Que firmeza de princípios, que constância na prática da religião, que intrepidez na defesa da sua fé! Mulher forte, que confundiu os próprios juízes. Na luta gigantesca que sustentou contra o paganismo, contra os princípios e as superstições do século, sem transigir em coisa alguma, seu martírio foi um verdadeiro triunfo. Pode ser que Deus de ti não exija nunca o sacrifício de confessar e defender a fé em circunstâncias tão graves e difíceis como exigiu de Santa Martina. É provável que não se dê ocasião de, como Santa Martina, tiveres que escolher entre a morte ou a apostasia. O que Deus, porém, de ti exige, é uma vida de acordo com os ensinamentos da religião. Não precisas defender a fé perante juízes pagãos, mas deves à tua família, à sociedade o exemplo de católico praticante. Não é preciso que faças milagres, mas ninguém te dispensa da prática das virtudes da humildade, da caridade, da mansidão e paciência também nas coisas adversas. É preciso que tua fé esteja viva. Uma fé morta, sem as obras, nada vale. Sendo viva a tua fé, outra será a tua vida, outra será a tua oração, outra será tua conduta na família e na sociedade. Sendo viva tua fé, serás um cristão verdadeiro, um “alter Christus”, um outro Cristo.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312