30 de dezembro — Santo Estúrmio, Abade
30 de dezembro — Santo Estúrmio, AbadeExtraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Santo Estúrmio, bávaro de origem, nasceu em 712, filho de pais nobres e piedosos, que bastante cedo o confiaram aos cuidados de São Bonifácio, Apóstolo da Germânia, para que, junto com os outros meninos, fosse educado cristãmente. Estúrmio entrou, pois, no convento de Fritzlar, onde, sob a sábia direção de Wigberto, fez rápidos progressos na vida religiosa, como também nas ciências. Como o zeloso educando mostrasse desejo de ser sacerdote, para o estado sacerdotal se preparou e foram-lhe conferidas as santas ordens. Imediatamente se pôs à disposição do grande missionário São Bonifácio, que lhe indicou o campo de ação. De palavra fácil que era, Estúrmio atraia a si cristãos e pagãos, que o ouviam com sumo agrado. Já naquele tempo possuía Estúrmio o dom de operar milagres, o que muitíssimo contribuiu para que a doutrina de Cristo conquistasse os corações, e o número de conversões crescesse dia a dia. Três anos passaram-se nesta atividade missionária e Estúrmio sentiu a necessidade de retirar-se para a solidão, onde pudesse dedicar-se melhor ao serviço de Deus e santificação da alma. São Bonifácio enviou-lhe dois companheiros e deu-lhes instruções especiais sobre a vida monástica, que iam encetar e sobre o lugar que deviam escolher para residência. Depois de muito procurar, encontraram um sítio apropriado, perto de Fulda, de que lhes fez doação o príncipe Carlomano. Lá construíram um convento, que em 744 foi inaugurado, contando a comunidade sete monges. São Bonifácio esteve presente no ato da inauguração, instalou Estúrmio nas atribuições de abade, introduziu a Regra de São Bento, que foi observada em todo o rigor. Quatro anos depois, Estúrmio visitou os conventos mais célebres da Itália. Muitas observações pôde fazer da vida religiosa, como era praticada em outra parte e muita coisa útil introduziu depois no mosteiro.
A comunidade cresceu em poucos anos. As vocações apareciam em grande número, apesar da austeridade e do rigor que reinava no Mosteiro de Estúrmio. Este convento era um oásis de paz e ordem, lugar para onde de preferência São Bonifácio se retirava, para descansar corporal e espiritualmente dos labores de missionário e bispo.
Depois da morte deste grande Apóstolo, Estúrmio concebeu o plano de dedicar-se à conversão dos pagãos que moravam nas imediações de Fulda e consolidar a religião entre os cristãos já existentes. Esta ideia provocou forte descontentamento entre os monges, que malevolamente lhe imputaram intenção ambiciosa, como se quisesse fundar um bispado independente. Neste sentido deram parte ao santo Arcebispo Lulo de Mogúncia. Conseguiram, por meio de intrigas e calúnias, que Estúrmio, por ordem do Rei Pepino, tivesse de internar-se num convento na França. O santo suportou a humilhação sem se queixar. No convento de Fulda, porém, entrou grande perturbação, que tomou proporções assustadoras, quando São Lulo deu aos monges um Superior da sua arquidiocese. Os monges queixaram-se a Pepino e com licença deste elegeram um dos discípulos de Estúrmio, de nome Pressoldo. Com a eleição deste, voltou a paz, e Pressoldo empenhou-se pela volta de Estúrmio. Sem que Pepino tivesse sido solicitado por alguém, teve uma conferência com o exilado e permitiu-lhe que voltasse para o convento que fundara. A recepção que teve, foi soleníssima. A comunidade veio-lhe ao encontro processionalmente e Pressoldo entregou-lhe as insígnias da dignidade de Abade. Recolocado em todos os direitos do cargo, Estúrmio cuidou em primeiro lugar da reforma da disciplina monástica, que foi obra coroada do mais brilhante êxito. Em pouco tempo a comunidade de sacerdotes atingiu o número de 400 e a fama do convento de Fulda espalhou-se pela Europa toda.
Em 767, Estúrmio foi comissionado por Carlos Magno para negociar a paz com Tassilão III, duque da Baviera. Depois foi destinado para a Missão entre os Saxões. Com alguns monges de escolha, o Santo pôs mãos a esta obra dificílima e perigosa. É escusado dizer que sofreu muito, entre aqueles bárbaros. Sempre pôde registrar a conversão de um número considerável de pagãos ao cristianismo. Uma grave doença obrigou-o a retirar-se para o convento de Fulda. Winter, médico assistente do Rei, acompanhava-o. Fosse ou não descuido daquele facultativo, fato é que o remédio que receitara ao enfermo, acelerou a morte do mesmo. Estúrmio, conhecendo o estado, fez a comunidade reunir-se e exortou-os para que conservassem sempre a paz e a harmonia entre si; pediu perdão aos adversários e abençoou a todos, recomendando-se-lhes às orações. Estúrmio morreu aos 17 de dezembro de 779, na idade de 64 anos. O Martirológio Romano enumera-lhe o nome entre os Santos de 30 de dezembro, e dá-lhe o título de Apóstolo dos Saxões. Inocêncio II, por ocasião do Segundo Concílio de Latrão, canonizou-o.
Reflexões
Na vida de Santo Estúrmio lemos uma página desedificante, que trata de indisciplina no meio de uma comunidade religiosa. O estado religioso é o estado de perfeição, o que não quer dizer que seus membros sejam sempre santos. O estado religioso, mais que o estado leigo, proporciona aos adeptos os meios de santificação. No convento não existem os perigos do pecado como no mundo, as ocasiões de pecar não se oferecem como aos cristãos, que vivem por aí fora. A Regra, a disciplina, a vigilância dos superiores, a convivência com pessoas que comungam as mesmas ideias, o bom exemplo destas e sobretudo os votos de pobreza, castidade e obediência são meios poderosíssimos para alcançar a perfeição. Aqueles que muito receberam, contas rigorosas darão a Deus. Grande é por isso a responsabilidade do religioso, da religiosa, se não corresponder às graças que Deus lhe deu em abundância. Não é o hábito que faz o monge. A natureza humana é a mesma, quer no convento, quer fora dele. Quem não declara guerra às más paixões; quem transige com o príncipe das trevas; quem não aceita o combate contra a tríplice concupiscência, que em todos nós existe; a dos olhos, a da carne e a soberba, afasta-se do caminho da santidade e perde-se, quer tenha dado nome a uma Ordem ou Congregação, quer viva no mundo. Reza por todos os estados da Igreja, para que Deus os conserve na graça e para que seus membros não se afastem das normas da disciplina religiosa e cristã.
Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:
Em Alexandria, o martírio dos Santos Mansueto, Severo, Appiáno, Donato e Honório, com muitos outros companheiros.
Em Tessalônica a mártir Santa Anísia. 303.
Em Áquila o bispo São Raniero. Sec. 12.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii ↩