29 de outubro — São Narciso, Bispo
29 de outubro — São Narciso, BispoExtraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Poucos são os Bispos que, como São Narciso, tiveram a felicidade de presidir a diocese pelo espaço de oitenta anos. Narciso nasceu em Jerusalém pelos fins do século primeiro. Desde a mais tenra infância deu indícios, não só de rara inteligência, como também de grande amor a tudo que diz respeito ao serviço de Deus. Assim aconteceu que, tendo alcançado a idade necessária, foi apresentado como candidato ao presbiterato e recebeu as santas ordens. Como sacerdote, revelou um zelo tão extraordinário na pregação da palavra de Deus, nas visitas aos doentes e em outros empenhos sacerdotais, que, tendo morrido o bispo de Jerusalém, os fiéis o elegeram para dirigir a diocese de São Tiago.
Narciso manifestou logo grande talento de Pastor apostólico. Inimigo do espírito mundano, era o legítimo zelador dos interesses de Deus na diocese. Às ovelhas ofereceu o são alimento da doutrina verdadeira da fé, dando-lhes ao mesmo tempo o exemplo grandioso das mais eminentes virtudes. Com energia e prudência defendeu o depósito da fé contra diversas heresias que se formaram no seio da Igreja. Cresceu-lhe o prestígio, pelos fatos extraordinários que se deram, durante seu regime episcopal. Na véspera de uma festa da Páscoa, converteu Narciso água em óleo, do qual uma parte se conservou mais de um século e de que os fiéis se serviam, para curar.
A santidade do Bispo teve que passar pelo fogo da tribulação. Três indivíduos, que, por ódio ao Bispo, procuraram desacreditá-lo perante a sociedade, levantaram forte calúnia contra Narciso. Para confirmar a acusação, não recuaram diante do crime do perjúrio.
O primeiro disse: "Se o que digo não é verdade, podem queimar-me vivo". O segundo pretendeu: "Deus me castigue com a lepra, se não digo a verdade". O terceiro empenhou a vista pela veracidade de seu depoimento. Narciso, embora inocente, não se defendeu contra as infames acusações; saiu da cidade, retirou-se a um ermo, onde se dedicou às práticas da oração, leitura espiritual e meditação. Deus, porém, incumbiu-se da defesa da honra de seu servo. Os caluniadores, um por um, receberam o castigo e justamente aquele que tinham provocado no juramento. O primeiro pereceu num incêndio; o segundo foi coberto de lepra; o terceiro, vendo a triste sorte dos companheiros, confessou publicamente o crime. No seu arrependimento derramou tantas lágrimas, que a luz dos olhos se lhe extinguiu.
O paradeiro de Narciso não pôde ser descoberto. Em vista disto foram eleitos sucessivamente três Bispos. No dia em que o último morreu, chegou Narciso a Jerusalém, porque Deus lhe tinha mandado que trocasse a vida de eremita pelas ocupações episcopais. Indizível foi o júbilo com que o povo recebeu o velho bispo. Narciso, depois da volta para Jerusalém, governou ainda muitos anos, pediu a Deus que lhe indicasse um digno sucessor. Em sonhos, Deus lhe fez a comunicação de que em breve viria a Jerusalém um bispo estranho, que deveria ser-lhe auxiliar e sucessor. De fato, já no dia seguinte chegou a Jerusalém Santo Alexandre, bispo da Capadócia. Narciso recebeu-o com muita solenidade, o que não pouco surpreendeu ao recém-chegado. Alexandre, embora não quisesse aceitar o cargo de bispo auxiliar de Jerusalém, em vista da revelação que teve Narciso, deixou-se ficar e ajudou ao velho Bispo na administração da diocese. Narciso alcançou a idade de 116 anos e morreu como viveu, santamente.
REFLEXÕES
A calúnia tem sido sempre a arma dos ímpios. Os homens mais santos têm sofrido calúnias, como o mostra a vida de São Narciso. A calúnia é tanto mais perniciosa e diabólica, quanto melhor souber aparentar verdade. Quem poderia duvidar da veracidade dos depoimentos dos três homens, que, sob juramento, fizeram declarações falsas? É um aviso para nós, de que não se deve facilmente prestar ouvidos a detratores, principalmente quando se trata de pessoas honradas e reconhecidamente virtuosas. Vemos mais, que o crime da calúnia Deus pode castigar já neste mundo, como castigou os inimigos de São Narciso. Um juramento falso é um horror aos olhos de Deus. Prestar juramento, em si, não é pecado. É lícito e pode ser até meritório, em caso de verdadeira necessidade. Jurar é invocar Deus como testemunha da verdade que se afirma ou da promessa que se faz. Tomar a Deus por testemunha de uma inverdade ou de promessa falsa, é um pecado gravíssimo e chama a vingança do céu sobre o criminoso. "Quem jura e profere nomes santos, não está isento de pecado. Um homem que muito jura, acumula crimes e o castigo não se lhe afastará da casa. Se não cumprir a promessa jurada, o pecado ficará sobre ele, e, qualificando-o de ninharia, pecará duas vezes. Se jurar sem motivo, não será justificado" (Eclesiástico 23, 9).
Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:
Em Bérgamo, santa Eusébia, virgem e mártir. 307.
Em Sidônia, na Fenícia, o martírio do presbítero Zenóbio. 304.
Em Cássiope, na ilha de Corfu, São Donato. Sec. 5.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii ↩