29 de novembro — São Saturnino († século III)

29 de novembro — São Saturnino († século III)
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Extraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

Este santo sacerdote e mártir, e mais 48 cristãos, morreram de morte crudelíssima em testemunho da fé, e esse martírio prova-nos com que pontualidade os cristãos da Igreja primitiva observavam a lei da santificação do domingo.

Um decreto imperial tinha, sob pena de morte, proibido aos cristãos reuniões, com o fim de assim impossibilitar a celebração da santa Missa e a leitura dos livros bíblicos. Diocleciano e seu companheiro no poder, julgavam com esta medida fazer desaparecer o cristianismo. Alguns fraquearam, e a maioria, porém, dos cristãos seguiu firme e resolutamente suas convicções religiosas, na observação dos mandamentos da lei de Deus e da Igreja.

Assim aconteceu que, na cidade de Abitina, na África setentrional, fossem descobertos e levados à prisão o sacerdote Saturnino, com 48 cristãos, que, a despeito da proibição imperial, num domingo se tinham reunido, para celebrar e ouvir a santa Missa. No caminho para Cartago, onde iam ser julgados, entoaram salmos e cânticos de louvor a Deus. Levados à presença do juiz, a única resposta a todas as perguntas vexativas foi: "É esta a lei de Deus, que nos manda que santifiquemos o dia do Senhor".

Todos foram sujeitos aos mais bárbaros tormentos. Saturnino, o pastor do pequeno rebanho, foi estendido sobre o cavalete, sendo-lhe as articulações desconjuntadas, as carnes rasgadas com ganchos de ferro, à maneira de ficarem descobertos os ossos. No meio da tortura se ouvia o mártir exclamar: "Jesus, salvai-me! Jesus! Tende piedade de mim! Graças vos dou, ó meu Deus! Mandai que cortem a cabeça! Jesus Cristo, compadecei-vos de mim! Jesus Cristo, não me abandoneis!" Entre jaculatórias e invocações do nome de Jesus, morreu este herói da fé.

O exemplo de Saturnino foi seguido pelos companheiros. Todos tiveram uma morte cruel. O Senador Dativo, ancião venerável, vendo-se em frente dos algozes, disse: "Nós somos cristãos. Reunimo-nos para adorar a Deus. Jesus Cristo, ajudai-me! Tende piedade de mim! Salvai minha alma e dai-me perseverança".

O admirável herói Télica, colocado no ecúleo, cheio de dedicação e confiança, exclamou: "Graças vos dou, Deus do universo! De longe já me saúda o vosso reino! Senhor Jesus Cristo, somos vossos, a vós queremos servir! Sois vós a nossa esperança, a esperança dos cristãos! Deus santíssimo, Deus sublime, Deus poderoso! Seja bendito o vosso nome, ó! Deus todo-poderoso!"

O leitor Emérito defendeu a santificação do domingo e sofreu o martírio, como os demais. Perguntado pelo juiz se possuía ainda escritos, respondeu: "Sim, tenho-os. Tenho-os, não em casa, mas em meu coração." Durante a tortura, elevou a voz, dizendo: "Jesus Cristo, a vós imploro, a vós bendigo. Salvai-me, meu Jesus! Vede meu sofrimento. É por vosso nome que estou sofrendo. Daqui a pouco, tudo está terminado. Sofro, quero sofrer — de boa vontade. Jesus, valei-me. Em vós ponho minha esperança, não serei confundido".

Que fé! Que heroísmo! Semelhante ao Apóstolo, guardava a lei de Deus, não escrita com tinta, mas no coração, com letras inapagáveis.

Como estes, os demais cristãos confessaram valorosamente a fé, declarando na presença do juiz que eram cristãos e como cristãos queriam viver e morrer. "Somos cristãos; para nós não há outra lei. Devemos cumprir o mandamento de Deus, por isso nos reunimos no domingo, celebrando a nossa religião" — foi a declaração da jovem Vitória. O menino Hilariano, desprezando as promessas e ameaças do juiz, fez a profissão de fé: "Sou cristão e quero sê-lo. Faze comigo o que quiseres: sou e serei cristão".

Que exemplo para nós! Que exemplo para cristãos católicos, que por qualquer motivo se dispensam da audição da Missa dominical! Uma leve indisposição, um pouco de sol, uma chuvinha, uma visita em casa, fá-los perder a Missa, quando há tempo de sobra e boa disposição para divertimentos, passeios e visitas. É mau sinal para um católico, quando começa a falhar à Missa nos domingos, não tendo para isto motivo, que tal justifique. Onde não há fé, onde falta o espírito de sacrifício, de oração e penitência, faltará a bênção de Deus na vida e na morte. Se quereis uma boa e santa morte, cuidai de santificar o dia do Senhor.

REFLEXÕES

“Não posso curvar-me diante de deuses que me têm medo" — dizia São Saturnino. Não se compreende a insânia dos pagãos que, ao verem os milagres operados pelos mártires, não se convenciam da nulidade das falsas divindades. Como é feliz o cristão, que conhece a Deus, esse Deus todo-poderoso, eterno, onisciente, sapientíssimo, presente em toda a parte, justo, santo, fiel e misericordioso! "Senhor, nosso Deus, quão admirável é vosso nome, e vossa magnificência está acima dos céus." — "Misericordioso e benigno é o Senhor, paciente, de grande misericórdia e fiel." — "O céu é vosso, e vossa é a terra; o orbe terrestre e o que está nele, vós o fundastes." (Salmos 8, 2; 85, 15; 88, 12). Destas verdades se deixaram penetrar os santos mártires, e poder nenhum na terra era capaz de fazê-los declinar dessa convicção. Dobrar o joelho diante de um ídolo e prestar-lhe homenagens divinas parecia-lhes a mais perfeita loucura, o maior absurdo. A meditação dos atributos de Deus alimentava e fortalecia-lhes o espírito de tal maneira, que, sabendo-se filhos, amigos e herdeiros de Deus, antes se dispunham a sofrer os maiores ultrajes, os mais atrozes sofrimentos, do que se separar da religião e macular a alma com o pecado da apostasia. Lembra-te muitas vezes de Deus, das suas perfeições, da tua vocação final, e verás que os vícios deixarão de empolgar teu coração. Dia a dia te tornarás mais semelhante àquele para quem foste criado.

Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:

Em Roma, na Via Salária, o martírio do ancião Saturnino e do diácono Sisínio, no tempo do imperador Maximiano.
Em Todi, a memória de Santa Iluminada. Sec. 4.
Em Ancira, o martírio de São Filomeno, no tempo do imperador Aureliano. 274.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii