29 de janeiro — São Francisco de Sales, Bispo, Confessor e Doutor da Igreja
29 de janeiro — São Francisco de Sales, Bispo, Confessor e Doutor da IgrejaExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
São Francisco, o grande apóstolo do seu tempo, modelo perfeito de santidade, protótipo de Bispo e sacerdote, nasceu em 1567, no castelo de Sales, próximo a Annecy, na Savoia. Seus pais eram de alta nobreza e muito religiosos. Antes do nascimento de seu filho já o tinham consagrado a Deus. Sua mãe, Francisca, pedira a Deus que antes a privasse do prazer de ser mãe, do que permitir que desse à luz uma criança que tivesse a infelicidade de ser um inimigo do seu Criador.
A condessa velou com o máximo cuidado sobre a educação de seu filho, que, apesar do seu nascimento prematuro e sua constituição fraquíssima, se desenvolveu admiravelmente.
O menino ia com ela à igreja, e pela palavra e exemplo, implantou no coração de seu filhinho profundo respeito à casa de Deus, amor à oração e ao culto divino. Frequentemente fazia-lhe uma leitura da vida dos Santos, condimentando-a com instruções adequadas. Francisco devia acompanhá-la até nas visitas que fazia aos pobres e doentes, e era ele quem dava as esmolas aos necessitados.
Com uma docilidade admirável o menino aceitou as medidas educativas de sua mãe. De tenra idade ainda, já era amigo da oração, sincero no seu falar e agir, e compassivo com os que sofrem.
Tendo chegado o tempo do menino entregar-se aos estudos, houve divergência entre os pais. A mãe, receosa de expor seu filho a perigos espirituais, opinava dever administrar-lhe o ensino em casa, e para este fim tratar professores particulares, o conde era de opinião, que Francisco devia fazer seus estudos num colégio, no meio de companheiros de sua idade. Bem sabia ele que o estímulo muito favorece o progresso nas ciências. Tendo seis anos, Francisco frequentou o colégio de Rocheville, e mais tarde matriculou-se em Annecy. Os professores ficaram admirados com o talento privilegiado do seu aluno. No meio dos seus trabalhos escolares, Francisco não se esquecia das suas práticas religiosas. Oração e leitura espiritual eram suas companheiras inseparáveis.
Bastante preparado nas matérias propedêuticas, era da vontade do pai, que o jovem estudante seguisse para Paris, com o fim de completar seus estudos. Prevendo a separação de seu filho, a condessa redobrou seus esforços para confirmá-lo na prática das virtudes. Mais do que nunca recomendou-lhe o amor de Deus, a oração, a fuga do pecado e das más ocasiões. Muitas vezes dizia-lhe: “Meu filho, prefiro ver-te morto a saber um dia que cometeste um pecado mortal”.
Em companhia de um sacerdote, a quem o cuidado paternal o tinha confiado, dirigiu-se Francisco à Capital. Algum tempo estudou retórica e filosofia no Colégio dos Jesuítas. Mais tarde frequentou a academia, onde praticou os exercícios de equitação, esgrima e dança, exercícios estes que fazia, não por inclinação, mas para obedecer à vontade do pai. Além disto dedicou-se ao estudo das línguas orientais e da teologia. Terminados seus cursos em Paris, o pai mandou-o para Pádua, onde devia ainda, estudar direito civil e eclesiástico.
Em todos os lugares Francisco se distinguiu vantajosamente entre os seus companheiros, e para todos era modelo de virtude. Para se conservar no meio de tantos perigos, o jovem estudante recebia semanalmente a Santa Comunhão, e em Paris, na igreja de Santo Estêvão, fez, em honra de Nossa Senhora, o voto de castidade perpétua. Este mesmo voto mais tarde ele o renovou no santuário de Loreto, e guardou-o fielmente até o fim de sua vida. Sem que o soubesse, encontrou-se numa ocasião na casa de uma pecadora. Quando, porém, percebeu quais eram as intenções da mulher, cuspiu-lhe na cara e fugiu.
Não com tanta facilidade pôde se desvencilhar das tentações, com que o demônio o atormentava. A paz que até então o acompanhara, deu lugar à tristeza, a uma aridez quase insuportável. Por fim martirizou-o a ideia de estar abandonado por Deus, de não haver a possibilidade de salvar sua alma. Suas orações, mortificações e práticas de piedade se lhe afiguravam meros sintomas de hipocrisia e de valor ilusório. Estes tormentos influenciaram desfavoravelmente a saúde. Com o apetite perdeu a boa disposição, o sono, e o bom humor. Por entre lágrimas e suspiros, queixou-se a Deus de sua triste sorte. As seguintes palavras são uma expressão notável do que sua alma torturada sentia: “Ó meu Deus, teria eu então perdido a vossa graça, depois de ter tantas vezes experimentado o vosso amor, a vossa misericórdia? Santa Maria! Mãe de Deus! Seria eu excluído da glória celestial? Não permitais, isto vos peço, que seja condenado a vos amaldiçoar e blasfemar no inferno!” Passou também esta tempestade e Deus dignou-se de livrar seu servo da pesada cruz, que o oprimia. Um dia Francisco entrou numa igreja, onde avistou uma imagem de Nossa Senhora. Debaixo da imagem leu a oração de São Bernardo: “Lembrai-vos, ó puríssima Virgem Maria, que nunca se ouviu dizer que algum daqueles que tenha recorrido à Vossa proteção, implorado a Vossa assistência e reclamado o Vosso socorro, fosse por Vós desamparado”. Estas palavras foram um bálsamo para seu coração. Prostrado de joelhos, recitou com muito fervor a mesma oração, renovou seu voto de castidade e acrescentou a seguinte declaração: “Ó minha Senhora e Rainha, sede minha intercessora junto de vosso Filho, perante o qual não me atrevo a comparecer. Queridíssima Mãe, se tiver a infelicidade de não amar a Deus no outro mundo, alcançai-me a graça de amá-lo tanto mais enquanto aqui estou!” Feita esta oração, Francisco entregou-se sossegadamente à Divina Providência, e desde daquele dia, cessaram as insídias e perturbações diabólicas, e tornou a voltar-lhe a paz e tranquilidade, e com ela a saúde do corpo. Grato a Maria Santíssima, o Santo devotou-lhe ainda mais amor e não cessou de proclamar sua grandeza, seu poder e misericórdia.
Para seguir a vontade do pai, Francisco, terminados seus estudos, havia de voltar para sua terra, assumir o cargo de senador de Chambéry e unir-se em casamento com uma fidalga da casa de Savoia. Francisco manifestou então o desejo de se ordenar, resolução para a qual solicitou o consentimento dos pais. Ele conseguiu-o com muita dificuldade e depois de longa resistência. O bispo Cláudio, de Genebra, administrou-lhe o sacramento da Ordem, e do Papa recebeu a nomeação de preboste da igreja de Genebra. Incumbido pelo prelado da pregação de missões nas regiões do bispado, onde a heresia calvinista conseguira tomar pé, o neo-presbítero dedicou-se a esta obra com todo o ardor. É incalculável quantos sacrifícios, perigos, perseguições ligaram-se a esta difícil missão. Os hereges, vendo-se atacados com vigor e derrubados os seus argumentos, votaram ódio ao missionário e planejaram sua morte. Deus, porém, protegeu seu ministro, e este levou a obra da conversão dos hereges para dentro da cidade de Genebra. Corajosamente dirigiu-se a Teodoro de Beza, o chefe do Calvinismo, convidando-o para abjurar seu erro. Beza convenceu-se da verdade da Igreja Católica, mas não se animou a voltar para a casa paterna. Melhor resultado teve em outros lugares. Setenta e dois mil calvinistas abandonaram a seita e voltaram para o seio da Igreja Católica.
Pela morte do bispo Cláudio, a administração da diocese passou para Francisco. A nova dignidade fez ressaltar ainda mais as virtudes do jovem Prelado. Impelido por um zelo verdadeiramente apostólico, Francisco visitou a pé toda a diocese, visto que o Conselho da cidade tinha-lhe cortado todas as subvenções. Aos fiéis exortava à perseverança e à prática do bem; aos hereges, com paciência e mansidão, mostrava seus erros, e em toda a parte estabeleceu o culto da Igreja Católica. Mais de uma vez convidou os mais eminentes oradores do Calvinismo para uma discussão pública; porém nenhum deles teve a coragem de medir-se com o Bispo católico, conhecendo-lhe a força de argumentação.
Nas horas vagas compôs belíssimos livros de assunto religioso, que têm sido e até hoje são muito apreciados.
Fundou a Congregação feminina da Visitação de Nossa Senhora, que obteve a aprovação apostólica, e achou a mais benévola aceitação entre o povo católico.
Durante vinte anos tinha dirigido os destinos de sua diocese, e grandes foram os merecimentos de sua hábil e prudente administração, quando Deus houve por bem chamar seu fiel servo à eterna recompensa. Negócios urgentes requereram a presença do Bispo em Lyon, durante os dias de Natal, quando lhe sobreveio uma grave doença. A repetidas torturas seguiu uma congestão que lhe privou do uso dos seus membros, exceto a língua. Entre os primeiros que o visitaram, achavam-se os Padres Jesuítas, aos quais disse: “Estais me vendo num estado, em que nada preciso, a não ser a misericórdia divina. Peço-vos que me alcanceis pelas vossas orações”. Perguntado por um deles se estaria pronto a sujeitar-se à vontade de Deus, se ele determinasse sua morte, respondeu: “É bom esperar no Senhor: Para mim aquela hora é como qualquer outra. Deus é o Senhor. Que Ele de mim faça o que bem lhe parecer. Nunca tive vontade diferente da sua”. Dito isto, fez a profissão da fé, na presença de muitas pessoas, para assim testemunhar que sempre viveu na fé católica e nela queria morrer. Os Santos Sacramentos recebeu-os com muita devoção. Durante os dias da doença permaneceu em contínua oração. Frequentes vezes rezava os seguintes versos dos Salmos: “Meu coração e minha carne, se alegraram no Senhor. Por toda a eternidade hei de cantar as misericórdias do Senhor. Quando comparecerei diante da vossa face? Ó meu Deus, meu desejo a Vós se dirige, e meus suspiros Vós os conheceis. Meu Deus e meu tudo, meu desejo vai às colinas eternas. Purificai-me, Senhor, dos meus pecados; tirai de mim a minha culpa e purificai-me cada vez mais. Senhor, se faço falta ao vosso povo, não recuso o trabalho. Sou um servo inútil, de quem nem Deus, nem o povo têm necessidade”.
Entrando em agonia, perdeu a fala. Os circunstantes, de joelhos, rezaram a Ladainha de Todos os Santos. Quando chegou a invocação: “Santos inocentes, rogai por ele”, Francisco exalou sua bela alma. Era o dia 28 de dezembro de 1622. O Santo tinha chegado à idade de 55 anos.
O coração do Santo Bispo foi solenemente transportado para o convento da Visitação em Lyon; seu corpo achou seu descanso no convento da mesma Congregação em Annecy. Os milagres com que Deus glorificou o túmulo do seu servo, são numerosos. O próprio Papa Alexandre VII, que em 1665 inseriu Francisco no catálogo dos Santos, por intercessão do mesmo ficou livre de um mal incurável. A bula da canonização enumera, entre os milagres provados e documentados, a cura de um cego de nascimento, de quatro paralíticos e a ressurreição de dois mortos.
Reflexões
1. São Francisco de Sales era de índole irascível e intratável. A ira é um vício muito comum também entre os cristãos. Muitos daqueles que se irritam por qualquer coisa e se excedem em palavras ásperas ou mesmo blasfemas, e conhecendo seu defeito, em vez de o combater, como fez São Francisco, se desculpam, dizendo: “este é meu gênio, não está em mim conter-me; sou muito nervoso etc”. São desculpas do egoísmo, da preguiça e do comodismo. A ira é um dos defeitos mais perigosos e causador de muitos pecados. Se notares em ti uma inclinação para esta paixão, não te desculpes com teu gênio, mas trata de modificá-lo, embora te custe muito. Observa o conselho de Santo Agostinho, que diz: “Se a ira te tentar, resiste-lhe fortemente e não te deixes arrastar a imprudências e excessos no falar e castigar. Acalma-te primeiro, para então depois falar e castigar. A ira deve obedecer à tua vontade e não vice-versa”. “Cada um de vós, — diz São Tiago — seja pronto para ouvir; porém, tardo no falar e tardo para se irar. Porque a ira do homem não cumpre a justiça de Deus” (1, 19).
2. São Francisco de Sales é o padroeiro da Boa Imprensa. A Imprensa é uma potência para o bem e para o mal. É uma das mais belas conquistas do gênio humano. Infelizmente o inimigo do homem, o espírito das trevas apoderou-se deste belo invento, fazendo dele uma arma horrível para ferir de morte as almas remidas pelo sangue de Cristo. Cidade, país não há, onde a majestade das trevas não tenha ministros, seus adeptos e apóstolos que, servindo-se da imprensa, infiltram nas almas o veneno da impiedade, da incredulidade, da superstição, da imoralidade. A má imprensa é o polvo, que adstringe a humanidade, num amplexo asfixiador. Cooperador da má imprensa, missionário desta empresa satânica é todo aquele que a favorece e suborna, pela leitura, pela compra, pela colaboração e pelo auxílio material. Houve quem dissesse que São Paulo se voltasse ao mundo, se dedicaria à missão da Boa Imprensa. Como católico, deves combater a má imprensa e em hipótese alguma concorrer para que tome maior incremento; pelo contrário, deves ser amigo e apóstolo da Boa Imprensa. A má imprensa representa a causa de Lúcifer; a Boa Imprensa é a defensora da causa de Cristo.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩