29 de fevereiro — São Leandro, Bispo de Sevilha
29 de fevereiro — São Leandro, Bispo de SevilhaExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Nasceu em Cartagena este grande Bispo da Espanha, defensor impertérrito dos interesses da Igreja. Como ele, foram canonizados seus irmãos Fulgêncio, Isidoro e sua irmã Florentina. Já na sua mocidade gozava Leandro fama de grande sábio. Este renome ainda cresceu com sua entrada na Ordem de São Bento, em Hispalis. Cumpridor consciencioso de todos os seus deveres, em pouco tempo Leandro se tornou modelo de religioso perfeito. Morto o Bispo de Sevilha, foi ele eleito sucessor. Reinava naquele tempo Leovigildo, fautor e protetor da seita ariana e inimigo figadal dos católicos. Foi sempre a maior diligência de São Leandro de, como Bispo, confirmar na fé os católicos e chamar os hereges ao aprisco do Bom Pastor.
Grande consolação trouxe-lhe a conversão do príncipe real mais velho, Hermenegildo, que mais tarde, em testemunho da fé, sofreu o martírio. Os resultados estupendos que teve, na sua propaganda entre os hereges, mereceram-lhe o ódio profundo dos arianos, os quais, se não lhe tiraram a vida, foi por uma proteção divina visível. Conseguiram do rei, amigo e fautor da seita, que Leandro e o seu irmão Fulgêncio fossem desterrados do reino. Assim, tiraram ao Bispo a possibilidade de trabalhar pessoalmente na sua diocese. Do seu desterro, porém, dirigia pastorais aos seus diocesanos, escrevia contra os arianos, desfazendo suas doutrinas errôneas e refutando suas sofísticas objeções.
Decorrido algum tempo, Leandro foi repatriado. O rei, vendo os milagres estupendos, que se realizavam no túmulo de seu filho Hermenegildo, arrependeu-se do que tinha feito e, estando para entregar sua alma de Deus, recomendou ao segundo filho, Recaredo I, respeito e obediência ao santo Bispo Leandro. Fez mais: Pediu a este, pessoalmente, que se interessasse por seus filhos e os instruísse nas verdades da religião. São Gregório Magno escreve que Leovigildo, apesar de ter reconhecido a verdade da Religião Católica, não se atreveu, nem na hora da morte, a fazer profissão desta mesma fé, receando provocar assim uma sublevação dos arianos. Recaredo I converteu-se ao cristianismo e fez valer sua influência, no sentido de reconduzir também seus súditos à Igreja-Mãe. A pedido de Leandro, o Papa Gregório Magno convocou um Concílio, no qual se fez representar pelo Bispo de Sevilha. Os trabalhos deste Concílio foram coroados de brilhante êxito. Numerosos súditos, leigos e clérigos, seguiram o exemplo do Soberano, e entraram no grêmio da Igreja Católica.
Reconhecendo e aplaudindo o zelo apostólico de Leandro, a história conferiu-lhe mui merecidamente o título de “Apóstolo dos Godos”, sendo principalmente devido aos seus esforços, que estes povos foram arrebatados aos erros do heresiarca Ário. Gregório Magno, numa carta autógrafa a Leandro, deu expansão ao seu grande contentamento, por causa do fato inesperado da conversão do povo, mas principalmente do rei. A este fez ver a necessidade da concordância que deve haver entre as regras da religião e da vida prática. Grande era a veneração que São Gregório dedicava a São Leandro. Testemunho desta veneração as numerosas cartas que lhe dirigiu, e nas quais, se recomendava às orações do santo Bispo. O Papa, sabendo que Leandro sofria de gota, escreveu-lhe o seguinte: “Como soube, Vossa Excelência é bastante martirizado pela gota. É o mesmo mal que me acompanha. Que havemos de fazer nas nossas dores senão lembrarmo-nos dos nossos pecados e agradecer ao bom Deus? Pelas dores na carne seremos purificados dos pecados cometidos pela carne. Cuidemos, pois, que não aconteça passarmos deste sofrimento a outros tormentos ainda maiores”.
Esta carta foi um consolo para Leandro, nos seus sofrimentos. Sentindo-se melhor, entregou-se de novo aos seus trabalhos apostólicos, ensinando os ignorantes, visitando os doentes, consolando e socorrendo os necessitados. Aos ricos recomendava a prática da caridade, e aos pobres exortava para que tivessem paciência com a sorte que Deus lhes dera.
Interesse particular dispensava aos convertidos; estes, por sua vez, amavam-no como a seu pai.
Se antes da conversão lhe tinham amargurado a vida, pela sua rebeldia e ódio, agora lhe prestavam filial respeito e obediência. Leandro pregava quase diariamente. Homem de oração, implantava nos corações de outros, particularmente nos dos religiosos, o amor à oração. Numa carta a sua irmã Florentina encontram-se os mais belos e sábios ensinamentos sobre este assunto, como também sobre o desprezo do mundo.
Após uma vida cheia de trabalhos, fadigas, dores e merecimentos, Deus chamou seu fiel servo ao eterno descanso. Leandro, contava 80 anos, quando, em 596, se despediu deste mundo. Seu corpo foi enterrado na Igreja das Santas Justina e Rufina.
Reflexões
1. Leandro, Santo que era, amigo de Deus e zelador das almas, sofreu muita perseguição e injustiça na sua vida. O mesmo acontece a pessoas tementes a Deus e religiosas de verdade, e não são raras as queixas que ouvimos de pessoas bem-intencionadas e piedosas, contra a Divina Providência, que parece castigar os bons, quando os maus nadam em felicidade e gozo. São João Crisóstomo, fazendo suas considerações sobre o rico do Evangelho e o pobre Lázaro, que comia as migalhas que caíam da mesa do nababo, escreve: “Não é fácil encontrar-se um homem, por mais justo que seja, que não tenha suas imperfeições e faltas leves. Dificilmente haverá um ímpio que não possua uma boa qualidade e não pratique um ou outro bem. Deus, justo que é, não pode deixar impune a injustiça e o pecado, como incompatível seria com sua santidade deixar sem recompensa o bem feito por quem quer que seja. Eis porque os bons recebem seus castigos já neste mundo, sendo-lhes reservadas as recompensas para a vida eterna. Os maus terão seu galardão aqui na terra, porque seu estado de pecado impossibilita recompensas eternas”. Assim disse Abraão ao rico que, queixoso a ele se dirigiu: “Filho, lembra-te que recebeste bens na tua vida, e que Lázaro não teve senão males; agora, pois, este é consolado e tu és atormentado.” (Lucas 16, 25).
— É assim que a justiça divina procede. Por isso não nos queixemos da nossa sorte, quando Deus, em sua Providência, nos manda sofrimentos de toda a espécie. O que aqui nos falta, tê-lo-emos em abundância na glória celeste.
2. Tudo vem de Deus: alegria, dor, contentamento, pesar; e tudo nos deve servir de meio de santificação. Nossa missão outra não pode ser, senão glorificar o nome de Deus. Tendo cumprido este nosso dever, a nossa morte será cheia de consolo e satisfação, como foi a de São Leandro. Servir a Deus, trabalhar sem desfalecimento, levar a cruz com paciência são as condições de uma morte santa e tranquila. “Que outra coisa faremos, quando Deus nos mandar uma cruz, senão lembrar-nos dos nossos pecados e agradecer ao nosso bom Pai, que se digna de nos purificar pela dor, quando pelo gozo da carne transgredimos sua lei?” (São Gregório).
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩