28 de março — São Guntrano

28 de março — São Guntrano
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Extraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

Guntrano, filho de Clotário I, neto de Clóvis I e de Santa Clotilde, nasceu em 525, e em 561 foi coroado rei de Orléans e Borgonha. Em sua mocidade teve a desventura de incorrer em faltas graves e cometer alguns crimes. Na idade madura, porém, arrependeu-se destes desvarios e com lágrimas de penitência apagou seus pecados. Contra sua vontade teve de pegar em armas para castigar seus dois irmãos irrequietos e repelir pretensões arrogantes dos Lombardos. O modo como se aproveitou da sua superioridade, revela bastante seu amor à justiça, à paz e à caridade. Em vez de despojar seus irmãos, pois para isto o direito de guerra o teria autorizado, deixou-lhes as suas cidades e mais tarde, quando eles morreram, declarou-se publicamente protetor de seus filhos, que mais de uma vez estiveram em perigo de vida. A única ambição do Santo era ser para seus súditos bom monarca, e dos ensinamentos da santa religião tirava, como de fontes puríssimas, os princípios de uma boa administração. Não era homem de duas consciências, sendo uma de cristão, outra de político. Sua política era bem compatível com o Santo Evangelho e fazia questão de que nunca fosse de maneira contrária. Durante seu governo, país e povo atravessaram uma época de grande felicidade e prosperidade.

Guntrano tinha em grande respeito os Bispos, cujos conselhos muitas vezes pedia. Durante seu governo foram construídas diversas igrejas e fundados muitos conventos. Mostrou admirável dedicação e espírito de sacrifício, quando a peste e a fome, quais anjos vingadores, fizeram marcha devastadora através do país, dizimando a população. Não só procurou todos os meios de aliviar a triste sorte dos seus súditos, mas ele mesmo, como representante da nação, ofereceu-se à divina justiça como holocausto, e entre lágrimas e penitências pediu a Deus que sustasse a sua justa ira provocada pelos seus pecados.

Dos governadores e funcionários públicos exigia fiel comprimento dos deveres e com todo o rigor castigava os abusos que cometiam na sua administração. Aos soldados dava instruções sábias para refrear as paixões.

Ofensas dirigidas a sua própria pessoa, perdoava com muita facilidade. Dois assassinos, assalariados pela rainha Fredegunda, tinham tentado contra sua vida. Um deles foi condenado à morte, ao outro, porém, o rei perdoou, porque tinha se refugiado numa Igreja.

Guntrano morreu em 28 de março de 593, tendo alcançado a idade de 69 anos. Seu corpo foi depositado em Chalon-sur-Saône na Igreja de São Marcelo. São Gregório de Tours afirma ter sido testemunha de vários milagres que foram observados no seu túmulo. A sepultura do santo rei foi no século XVII profanada pelos Calvinistas.

Reflexões

São Guntrano se opunha a toda sorte de injustiça que tão frequentemente é cometida na aquisição de bens terrenos. Oxalá que, pelo menos, todos os católicos tenham a mesma delicadeza de consciência nesta matéria! Nosso século traz o estigma do materialismo, da especulação, da ganância, da sede devoradora de riqueza, de bem-estar, de luxo. Para realizar o ideal da riqueza há uma falta de escrúpulo que espanta. O sétimo mandamento, no interesse de ver garantida a propriedade do próximo, proíbe o furto em todas as suas modalidades. Furto é vender como boa, uma mercadoria falsificada ou deteriorada. Furto é empregar medida e pesos falsos. Furtar é exigir o ordenado completo por um serviço não prestado. Furtar é abusar da confiança dos patrões, traindo-os em seus interesses. Furta quem se finge pobre, para desta maneira obter auxílios. Furta quem com relaxamento desempenha um cargo que lhe foi confiado, quer seja público, quer particular. Furta quem conscientemente põe em circulação moeda falsa ou desvalorizada. Furta quem contrai débitos com a intenção de não os saldar. É furto e, ao mesmo tempo, um crime que brada ao céu, não pagar o salário aos operários, especular a ignorância e inexperiência do próximo. Ladrões de grande vulto são os usurários como os há em todos os ramos do comércio. A avareza transforma em jaula de feras a sociedade humana, que devia ser a família de Cristo. A avareza é um dos melhores contribuintes da condenação eterna: “Não sabeis vós, que os injustos não serão herdeiros do Reino dos Céus? Não vos iludais… os ladrões, os avarentos não terão parte no Reino de Deus” (I Coríntios 6, 9-10).

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312