28 de janeiro — São Raimundo de Peñafort, Sacerdote
28 de janeiro — São Raimundo de Peñafort, SacerdoteExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Raimundo viu a luz do mundo no ano de 1175, no castelo de Peñafort, na Catalunha. De descendência nobre, estava em parentesco com os reis de Aragão. De tenra idade ainda, revelava grande interesse pela oração e pelo estudo. Tão prodigiosos foram os seus progressos no estudo das ciências, que, tendo apenas vinte anos de idade, lhe foi oferecida a cadeira de artes livres em Barcelona. De todas as partes vinham estudantes em grande número, para ouvir suas preleções. Uns anos depois, dedicou-se ao estudo do direito civil e eclesiástico em Bolonha e terminou este curso com tão grande brilhantismo, que foi nomeado professor destas matérias.
A fama do seu grande saber espalhou-se por toda a Itália. Berengário, bispo de Barcelona, convidou-o para voltar à sua diocese. Possuindo toda a confiança do seu prelado, foi por ele nomeado vigário-geral.
Com 45 anos de idade entrou na Ordem de São Domingos, distinguindo-se nela tanto pela beleza das suas virtudes, como pela sua ciência. Chamado a Roma pelo Papa Gregório IX, foi confessor do mesmo por muitos anos. Vendo que no palácio papal os pobres não eram tratados e servidos com muita atenção, impôs a seu penitente se interessar pessoalmente por esta parte do seu rebanho. Por ordem do Papa, Raimundo editou uma obra importantíssima do direito eclesiástico, conhecida sob o nome de “Decretais de Gregório IX”.
Para recompensá-lo de tantos trabalhos e merecimentos, Gregório IX nomeou-o arcebispo de Tarragona, distinção esta de que se julgou tão indigno, que pediu exoneração do cargo. Uma doença gravíssima levou-o quase à beira do túmulo. Com licença dos seus superiores, voltou para sua terra. Raimundo escreveu a regra da nova Ordem de Nossa Senhora das Mercês da Redenção dos Cativos, cujo primeiro geral foi São Pedro Nolasco.
Morto o Geral da Ordem de São Domingos, Frei Jordão, os religiosos deram seus votos a Raimundo, para ser seu novo superior. Dois anos ocupou este cargo, quando pediu exoneração, para poder se dedicar mais à obra de sua santificação. As virtudes que mais o assinalaram e, em que para todos foi perfeito modelo, foram a santa obediência, humildade incomparável, pureza angélica, devoção terna à Maria Santíssima e amor quase ilimitado aos pobres e necessitados.
Muitos e grandes milagres obrou Deus por meio do seu servo, dos quais o mais conhecido é o seguinte: Jaime I, rei de Aragão, era penitente de Raimundo. Numa viagem que ia fazer à ilha de Maiorca, desejava ter seu confessor como companheiro. No mesmo trajeto ia com o rei uma mulher, com que o monarca tinha relações ilícitas. Raimundo muito pediu, que despedisse aquela pessoa, no que o rei prometeu que o atendesse, mas a mulher ficou. Chegados a Maiorca, Raimundo fez a sua permanência na corte depender do afastamento da concubina da casa real; no caso contrário, ele voltaria para Barcelona. Jaime ordenou a todos os proprietários de barcas e navios que, sob pena de perder a vida, nenhum deles se atrevesse a transportar o frade para a Espanha. Raimundo, ignorando a ordem do rei, dirigiu-se ao porto, para embarcar num daqueles navios que iam para o continente, mas nenhum dos marinheiros quis admiti-lo. Adiantou-se então o santo homem até um rochedo, que estava mais para dentro do mar, tomou sua capa, estendeu-a sobre a água, tomou seu bastão, fez o Sinal da Cruz e pôs-se sobre a capa, como se entrasse numa barca. Chamou um companheiro, para que fosse com ele. Este, porém, não teve ânimo de segui-lo e, estupefato, presenciou aquele singular embarque. Raimundo pôs então seu bastão no meio, levantou uma parte da capa à modo de vela, uniu-a com a extremidade do bordão e começou a navegar. Em seis horas fez a viagem até Barcelona, percorrendo uma distância de 160 milhas. Chegado a Barcelona, saltou em terra, tirou a capa, que estava bem enxuta e foi para seu convento. O rei, sabendo o que tinha acontecido, caiu em si e deixou aquela mulher.
Raimundo, pressentindo a morte, para ela preparou-se com muito cuidado, redobrando suas orações e penitências. Durante sua última doença, recebeu a visita dos reis de Castela e Aragão, que imploraram sua bênção. Com quase cem anos de idade, Raimundo entregou seu espírito a Deus, no ano de 1275.
Reflexões
1. São Raimundo, na qualidade de confessor e porque assim pensou que fosse seu dever, admoestou ao Papa e ao rei, por causa de seus pecados. Dever do confessor é, em certas condições, admoestar os penitentes, sob pena de com eles se perder. O penitente, por sua vez, é obrigado a aceitar as admoestações e conselhos de seu pai espiritual. Ai daqueles que lhe votam desprezo, ou escarnecem dos avisos que lhes foram dados em nome de Deus! Procurar confessores que nada dizem e que não repreendem e admoestam, é sinal inequívoco de falta de arrependimento e verdadeira penitência. O mesmo deve-se afirmar de outros que, vivendo em pecados e vícios, correm de um confessor a outro, porque devem recear que lhes seja negada a absolvição por um confessor que chega a conhecê-los mais profundamente. Quem assim procede, é um infeliz. Um confessor, que nos diz a verdade; um confessor que nos admoesta e nos diz o que não nos agrada, é um grande amigo. “Prefiro ser ferido por quem me quer, a ser beijado por quem me odeia”, diz o Espírito Santo (Provérbios 27, 5-6).
2. São Raimundo negou-se peremptoriamente a permanecer na companhia do rei, que não quis abandonar a má vida. O Santo se preocupava com o escândalo que proviria de sua permanência, que implicaria numa aparente aprovação do mau procedimento do monarca. Quais são os teus princípios neste particular? Que pensas das más companhias? A convivência com os maus corrompe os bons. Maus costumes e exemplos têm um quê de contagioso. Por isso é necessário se afastar do seu ambiente. Os maus, vendo a complacência dos bons, firmam-se ainda mais no pecado e perdem por completo o temor de Deus. Acontece, que, Deus castigando, estende o efeito do castigo também aos bons. Assim foram as famílias egípcias castigadas por causa da contumácia de Faraó. Prudente é, pois, imitando o exemplo de São Raimundo, fugir da convivência com os pecadores.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩