28 de abril — São Dídimo e Santa Teodora, Mártires

28 de abril — São Dídimo e Santa Teodora, Mártires
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Extraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

Eutrácio, prefeito imperial de Alexandria, citou perante seu tribunal de juiz a Teodora, de quem ouvira dizer que era cristã. "Que profissão tendes?", perguntou Eutrácio. E "Sou cristã", foi a resposta. "Quero saber se sois liberta ou escrava?" — A resposta foi a mesma: "Sou cristã; Cristo, que do Céu veio para esta terra, libertou-me; além disto, sou filha de quem nome tem." Do governador da cidade o prefeito soube que Teodora era filha de família importante do lugar. Dirigindo-se novamente à jovem, o prefeito perguntou-lhe: "Se sois de origem nobre, por que não vos casais?" — Teodora: "Não me caso para agradar mais a Jesus Cristo, pela que sua Encarnação me salvou da morte eterna. Dele espero que, ficando-lhe eu fiel no seu serviço, conservar-me-á no estado da virgindade, sem mancha que a deslustre." — "Os imperadores exigem das donzelas, que se empreguem no serviço das divindades, ou se entreguem ao culto a deusa Vênus." — Teodora: "Pelo que vejo, ignorais que Deus julga o homem pela intenção que move os seus atos. Se eu ficar firme na minha resolução de conservar pura minha alma, culpa nenhuma terei, embora me queiram violentar." — O prefeito: "Vossa nobreza, bem como vossa formosura inspiraram-me compaixão. Se, porém, permanecerdes na vossa desobediência, de nada vos servirá esta minha compaixão. Juro pelos deuses: ou vos decidireis a prestar homenagens às nossas divindades, ou sereis a vergonha da vossa família e objeto de desprezo de gente honesta e limpa." Quanto mais o prefeito insistisse com suas sugestões e ameaças, tanto mais resistência lhe fez Teodora. Finalmente disse-lhe esta: "Que culpa terei eu de vossa crueldade se quiserdes cortar-me as mãos, os pés e a cabeça. A responsabilidade do crime será toda e inteira de quem o praticar. Pelo voto da virgindade estou unida a Deus; meu corpo e minha alma lhe pertencem. Bem Ele saberá defender minha fé e minha virtude." — O prefeito: "Lembrai-vos da vossa nobre procedência e não desonreis vossa família, manchando-lhe o nome com a nódoa indelével da vergonha." — Teodora: "Jesus Cristo é a única fonte da honra verdadeira. Dele a minha alma recebe sua formosura; Ele é poderoso para livrar a pomba das garras da feroz ave de rapina." — O prefeito: "Estás obcecada! Que loucura a vossa de pordes vossa confiança num homem crucificado! Que razão podereis ter em supor e esperar que uma vez vós estando no lugar das desonras, ele venha para defender vossa castidade?" — Teodora: "Pois eu creio, e creio firmemente que Jesus Cristo, que sofreu sob Pôncio Pilatos, me livrará das mãos daqueles que me juraram a minha perdição, e virá em defesa da minha virtude. Julgai vós mesmo, se dele me posso separar." — O prefeito: "Encurtemos as razões; para que ter paciência ainda com uma pertinaz como vós sois. Se permanecerdes na vossa teimosia, não terei mais outra consideração com vossa pessoa senão a que teria para a última escrava." — Teodora: "Minha alma está entregue ao poder de Deus." — O prefeito: "Apliquem-lhe umas bofetadas, para vermos se se decide a largar suas tolices e prestar honras aos deuses." Teodora: "Por Jesus Cristo, que é meu protetor, nunca queimarei incenso aos demônios, nunca os adorarei." O prefeito: "Vós me obrigastes a tratar-vos desta maneira; levareis a vossa contumácia a provocar-me a outras violências?" — Teodora: "Contumácia nenhuma; o bom senso me faz adorar o Deus vivo. O que vós considerais vergonha, para mim é uma fonte de honra eterna." — O prefeito: "Basta, estou no fim da minha paciência; que entrem em execução os decretos imperiais. Seria faltar à obediência que devo ao imperador, se quisesse deixar impune por mais um minuto vossa rebeldia." — Teodora: "Receais cair em desagrado dum homem. Como, então, podereis imputar-me como um crime se temo desagradar ao Supremo Senhor do céu e da terra?" — O prefeito: "Ainda vos atreveis a desprezar as ordens do imperador e abusar da minha paciência? Dou-vos mais três dias para deliberardes o que me pretendeis fazer. Passado este prazo e não querendo sujeitar-vos, serás levada para a casa da desonra. Assim estabeleceremos um exemplo para que todos saibam que impunemente não se opõe às ordens imperiais." — Teodora: "Não mudarei de resolução. Deus saberá defender-me. Fazei, pois, o que vos aprouver. Como me concedeis três dias de prazo, peço-vos que seja respeitada a minha honra enquanto não tiverdes lavrado a vossa sentença." — O prefeito: "É um pedido justo que fazeis. Ordeno, pois, que Teodora seja posta sob guarda durante estes três dias e que ninguém se atreva a molestá-la. Ordeno que ela tenha um tratamento digno de sua posição."

Decorrido o prazo de três dias, Teodora foi novamente conduzida ao tribunal do prefeito. Como nem este, nem Teodora retirassem uma só palavra do que antes haviam falado, o prefeito condenou a donzela à pena que lhe ameaçara e ordenou que imediatamente fosse levada para a casa da desonra. Antes de nela pôr os pés, Teodora levantou os olhos ao céu e disse: "Deus onipotente, pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, vinde em auxílio de vossa serva e livrai-a do lugar da vergonha. Vós, que libertastes do cárcere a São Pedro, sem que lhe fosse feita uma injúria, dignais-vos de tomar a vós a defesa de minha castidade, para que todos conheçam que sou vossa."

Rodeada de muita gente, parecia Teodora a ovelha no meio dos lobos. Olhares cobiçosos, profanadores, impertinentes e sacrilégios não a deixaram em dúvida do que a esperaria no meio em que se achava transportada de um momento para outro. Mas Jesus, seu divino Esposo, a quem confiara sua virtude, tomou a defesa de sua esposa, servindo-se dum jovem cristão de nome Dídimo, que em Alexandria vivia. Sabendo ele da triste sorte de Teodora, cheio de entusiasmo pela causa de Deus, resolveu salvar a donzela, custasse o que custasse. Embora não fosse soldado, de soldado se vestiu e foi para o lugar onde se achava Teodora. Esta, ao vê-lo, deixou-se tomar de um grande medo, julgando ter chegado o momento de sua humilhação. Este medo chegou ao auge quando o jovem se aproximou da mártir. "Não temas, minha irmã em Jesus Cristo; não sou o que julgas eu ser. Sou teu irmão em Jesus Cristo. Disfarcei-me para livrar-te e tirar-te deste lugar. Troquemos as vestes. Eu vestirei as tuas para envergares o uniforme. Assim tu sairás e eu ficarei em meu lugar." Teodora aceitou o conselho, vestiu-se de soldado e, sem ser conhecida, saiu agradecendo a Deus por essa salvação extraordinária.

Não passou muito tempo, que um homem atrevido entrou no quarto onde todos julgavam que Teodora estivesse. Grande foi sua surpresa, não encontrando esta, como esperava, mas um jovem. Dídimo contou-lhe o que tinha acontecido e o caso tornou-se público, chegando aos ouvidos do prefeito. Dídimo foi citado perante a autoridade e sujeito a um minucioso inquérito. Intimado a fazer declarações sobre o paradeiro de Teodora, disse: "Não sei onde ela se acha. Sei que é uma santa serva de Deus e que foi Jesus Cristo que tomou a si a defesa de sua virtude." — O prefeito: "Qual é teu estado?" — Dídimo: "Sou cristão e livre por Jesus Cristo." — O prefeito: "Este homem merece duplo castigo por seu atrevimento." — Dídimo: "Eu te peço: cumpri fielmente as ordens de teu senhor." — O prefeito: "Pelos deuses, hás de sofrer o que mereces, se não os adorares. A obediência é o único meio de alcançares o perdão do crime que cometeste." — Dídimo: "Já tens a prova de eu não temer o martírio. Duas coisas me propus e realizei: defendi a honra de uma donzela e dei publicamente honra a Deus, a quem adoro. Sejam quais forem os martírios que decretares contra mim, com a graça de Deus espero podê-los vencer. A morte mais dolorosa não me fará sacrificar aos deuses." — O prefeito: "Ordeno, pois, que te seja cortada a cabeça e teu corpo queimado." — Dídimo: "Bendito seja Deus, pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que fez conforme desejei: salvou Teodora e concedeu-me uma dupla coroa."

De acordo com a ordem do prefeito, Dídimo foi decapitado e seu corpo foi reduzido à cinza.

Santo Ambrósio, relatando a vida de Santa Teodora, diz que Teodora, tendo conhecimento da condenação de Dídimo, compareceu no lugar do suplício e se ofereceu para morrer em lugar dele.

"Foste fiador de minha virtude, disse-lhe Teodora, mas não da minha vida. Enquanto minha virgindade estava em perigo de ser profanada, consenti o teu sacrifício. Como se trata, porém, da vida, a vida eu posso dá-la, e justo é que a dê, porque por minha causa foi que te condenaram à morte. Minha fuga determinou tua morte. Não fugi para não morrer, mas para salvar minha honra. Esta está a salvo. Meu corpo pode morrer por Jesus. Se me roubares a coroa do martírio, não vejo em ti meu salvador, pois me enganaste."

De fato, receberam os dois o que tanto almejavam: a coroa do martírio. Ambos foram decapitados em Alexandria, no ano de 304, quando Diocleciano era imperador.

Reflexões

É admirável como Deus deu à Santa Teodora um defensor de sua honra quando tudo já parecia perdido. A castidade é uma virtude preciosíssima, que devemos conservar e defender a todo transe, e certos podemos estar de que Deus estará ao nosso lado. Aquele que salvou os três jovens no meio das chamas da fornalha, aquele mesmo tomará a defesa de quem a Ele recorrer em grande perigo de perder sua inocência. Com esta proteção não poderá contar quem voluntaria e temerariamente se expuser ao perigo.

"Quem não evitar o perigo, sendo-lhe isto possível, mais tenta a Deus do que nele espera" (Santo Agostinho).

"Quem procura o perigo, prova que o quer. Quem ama o perigo, perecerá" (Eclesiástico 3, 27)

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312