27 de março — São João Damasceno, Confessor e Doutor da Igreja
27 de março — São João Damasceno, Confessor e Doutor da IgrejaExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Natural de Damasco, na Síria, era João filho de pais nobres e ricos, célebres por causa de sua grande caridade, que praticavam para com os pobres, encarcerados e eremitas. Entre os presos resgatados achava-se também um sábio sacerdote da Calábria, de nome Cosmas, que instruía ao pequeno João nas ciências profanas e divinas.
O pai de João gozava de grande estima entre os Sarracenos, que naquela época eram senhores do país. Esta estima estendia-se também ao filho. Os raros talentos e merecimentos deste fizeram com que o Califa o distinguisse com sua confiança e o nomeasse prefeito de Damasco. Esta circunstância aproveitou muito aos cristãos. Que mais poderia faltar para completar a felicidade de João? Este, porém, não se sentia bem na sua elevada posição. A palavra do Salvador, que é muito difícil a um rico entrar no reino dos céus, não o deixou sossegado. Tomou uma resolução, que ninguém esperava. Renunciou a todas as honras, distribuiu toda sua fortuna entre os pobres e institutos de caráter religioso e entrou no convento de São Sabas em Jerusalém.
Seu mestre na Ordem, um venerável ancião, deu-lhe as seguintes regras: “Não procures fazer nunca tua vontade. Aprenda morrer para ti, para chegar a um completo desapego de todas as criaturas. Oferece a Deus tuas ações, sofrimentos e orações. Não te ensoberbeças em virtude dos teus conhecimentos ou de qualquer outra coisa, mas convence-te cada vez mais, de que não és nada senão ignorância e fraqueza. Renuncia à vaidade; desconfia da tua própria opinião e não queiras desejar aparições e privilégios extraordinários do céu. Afasta da tua memória tudo que te ligou ao mundo. Observa bem o silêncio e saiba que é fácil cometer pecado, não falando, senão o bem”. João observou fielmente todos estes conselhos e dentro de pouco tempo era considerado entre seus companheiros de religião o mais perfeito. As virtudes que mais o adornavam, eram a humildade e a obediência. Do seu mestre recebeu um dia ordem de levar uns cestos ao mercado de Damasco e vendê-los por um preço muito alto. Para João significava isso uma humilhação muito grande, ele, ex-prefeito da cidade, apresentar-se no mercado a expor à venda uns cestos por um preço ridiculamente exorbitante. João obedeceu. Não teria vendido os cestos, se um de seus parentes, não os tivesse comprado pelo preço indicado, só para livrá-lo duma situação penosa.
Em atenção às suas virtudes, foi promovido ao sacerdócio. Movido dum zelo extraordinário, pôs a sua pena ao serviço da defesa da causa da religião católica. O imperador Leão Isauro tinha publicado leis muito severas contra o culto das imagens. O movimento iconoclasta tinha tomado grande incremento no império.
João escreveu três livros sobre o culto das imagens. Sua argumentação baseava-se no dogma da infalibilidade da Igreja. “Não venerais vós o monte Calvário, a pedra do santo sepulcro, os livros do santo Evangelho, o santo lenho e os vasos sagrados? Que dúvida, pois, tendes em venerar as imagens dos Santos? Ao imperador fez lembrar de que não era de sua competência escrever sobre assuntos religiosos… Ao monarca compete o governo do estado; nenhum direito, porém, lhe assiste de imiscuir-se em assuntos meramente religiosos”. João não se limitou à defesa pela palavra escrita. Percorreu a Palestina toda, para animar os fiéis e confortá-los na fé. São João Damasceno morreu no ano de 780 em Jerusalém.
Reflexões
São João Damasceno foi um valente defensor das imagens sacras. Os hereges dos nossos dias impugnam o culto das santas imagens, qualificando-o idolatria que perpetramos. Os católicos não adoram nenhuma imagem santa, mas veneram-nas. Eis os motivos por que as colocamos em nossos oratórios, em nossas igrejas e capelas: 1) As imagens são objetos de instrução religiosa. 2) Lembram-nos das pessoas dos Santos por elas representadas e das virtudes que estes praticaram. 3) Incitam-nos a imitar seu exemplo, suas virtudes, sua santidade. Os inimigos do culto das imagens santas não se opõem geralmente à exposição de quadros livres e obscenos, e toleram estátuas indecentes nos jardins públicos e nas fachadas dos palácios. Os inimigos do culto das imagens são conhecidamente propagandistas do mau cinema onde são exibidas as imagens mais vergonhosas. As santas imagens edificam, fazem bem a alma. Imagens impudicas corrompem e pervertem. “Um pai de família” — disse São Carlos Borromeu por ocasião dum sínodo diocesano —, deve retirar de sua casa tudo que não concorda com os costumes de uma família cristã. Imagens feias e obscenas têm só um destino: o fogo”. É melhor que queimem imagens, do que almas imortais por elas desvirtuadas, venham um dia a sofrer as penas do inferno.
Notas
- Na edição em questão, esta meditação é proposta para 6 de maio, mas aqui a propomos de acordo com o calendário romano, que talvez seja diferente do calendário espanhol que o autor seguia. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩