27 de julho — São Pantaleão, Mártir

27 de julho — São Pantaleão, Mártir
, ,

Extraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

Nicomédia é a terra de São Pantaleão, um dos quatorze auxiliadores em grande necessidade. O pai era pagão. O menino recebeu ótima educação de sua mãe Êubola, cristã fervorosíssima. Infelizmente esta bem cedo lhe foi arrebatada pela morte, circunstância que muito afetou a vida do filho unigênito. O pai não poupou sacrifícios, para proporcionar-lhe os meios necessários à carreira de médico, mas exigiu também da parte dele a participação ativa no culto da idolatria.

Pantaleão conservou-se puro, no meio dum mundo corrupto, provando assim a solidez da educação que da própria mãe recebera.

Com sua inteligência e força de vontade não podia deixar de sobrepujar a todos os companheiros de estudo e distinguir-se de tal maneira, que chegou a gozar dos maiores privilégios, e pelos mestres foi vantajosamente recomendado ao Imperador Maximiano. Ao mesmo tempo Pantaleão atou relações com Hermolau, sacerdote cristão, que, por medo das perseguições, vivia com os irmãos numa casa bem retirada. Numa das conversas que teve com o mencionado sacerdote, Pantaleão falou-lhe da mãe; que era cristã. "E tu?" — perguntou com vivo interesse o sacerdote. "Eu — respondeu Pantaleão — respeito e honro a memória de minha mãe e conservo fielmente a doutrina que me ensinou; mas presentemente me vejo na necessidade de seguir a religião de meu pai e do governo, mormente agora, que tenho em vista ser nomeado médico assistente do Imperador". Hermolau contou-lhe então a história da vida de um outro médico, que superava a todos os mais em ciência e virtude; que por uma só palavra curava os doentes, dava luz aos cegos, ouvidos aos surdos, o uso dos membros aos paralíticos e chamava à vida os mortos, conduzia todos à felicidade eterna.

Pantaleão começou a interessar-se por esse médico divino, cujo nome já aprendera a balbuciar na mais tenra infância; no entretanto, não podia decidir-se a abraçar francamente a religião de Jesus Cristo.

Um fato extraordinário trouxe-lhe a luz da fé. Passando um dia pelo campo, encontrou à beira da estrada uma criança morta, vitimada por mordedura de cobra. Instintivamente recuou apavorado. Mas, recuperando a calma, disse de si para si: "Se é verdade o que Hermolau me disse de Cristo, há de ser demonstrado agora". Levantando os olhos ao céu, disse: "Ó Deus dos cristãos, se és verdadeiramente o Senhor da vida e da morte, mata esta cobra e dá a vida a esta criança". E assim aconteceu. Pantaleão apresentou-se ao sacerdote e após um retiro de sete dias, recebeu o batismo.

Depois de cristão, o maior desejo que tinha, era ver o pai na mesma religião e sem demora pôs mãos à obra, para convertê-lo, tarefa esta cuja realização só pela metade conseguiu.

Apresentou-se-lhe um doente atacado de oftalmia. Grandes quantias já tinha dispendido com os médicos, sem tirar o menor resultado. Pantaleão prometeu-lhe cura radical, contra a opinião do pai, o qual queria fazer-lhe ver a inutilidade de tratar um caso perdido. Pantaleão, porém, animou o doente, fê-lo invocar o nome de Deus único e seu Filho unigênito, Jesus Cristo, tocou-lhe os olhos com as mãos e o cego recuperou a vista. A essa evidência o pai e o cego se declararam cristãos e ambos receberam o batismo.

Pantaleão dedicou-se à sua profissão, procurando sempre dar aos doentes, não só a saúde do corpo, como também o bem-estar da alma. Deus abençoou-lhes aos esforços e, em pouco tempo, Pantaleão era o mais afamado e o mais procurado de todos os médicos. Isto certamente havia de provocar a inveja dos colegas pagãos, os quais daí em diante lhe observavam os passos. Notando que Pantaleão dispensava particulares cuidados aos cristãos encarcerados, denunciaram-no à corte imperial. O Imperador, ao receber esta notícia, não fez segredo do forte desagrado e ordenou ao médico que rendesse culto aos deuses, para assim desmentir os acusadores. Pantaleão respondeu: "Mais alto que palavras falam os fatos e a verdade é acima de tudo; quanto mais poderoso é Deus, tanto mais veneração merece. Proponho o seguinte: Mande trazer aqui um doente que esteja em estado grave; chamai os vossos médicos e sacerdotes, para que invoquem sobre ele os deuses. Eu recorrerei a meu Deus. O Deus que der a saúde ao doente, há de ser por todos adorado, como o único e verdadeiro e os outros deuses devem ser removidos". Maximiano aceitou a proposta. Veio um doente, por todos os médicos desenganado. Vieram os médicos, sacerdotes pagãos e Pantaleão. Os idólatras ofereceram os sacrifícios de costume aos deuses e em preces a eles dirigidas, pediram que curassem o doente. Em vão. Este nenhuma melhora experimentou. Pantaleão, em prece fervorosa, dirigiu-se a Jesus e em nome do mesmo, ordenou ao doente que se levantasse. O doente obedeceu imediatamente e, restabelecido, voltou para casa.

O Imperador, obcecado pelo erro e pela paixão, em vez de cumprir a palavra, exigiu de Pantaleão que também sacrificasse aos deuses. O jovem cristão, porém, resolutamente se negou a isso, e com uma constância imperturbável, sofreu toda a sorte de tormentos, que o Imperador mandou que lhe fossem aplicados. Finalmente, amarrado a um tronco de oliveira, Pantaleão recebeu o golpe de morte pela espada, no dia 27 de julho de 305. As relíquias foram transportadas para Constantinopla e depositadas numa igreja, que lhe traz o nome. Mais tarde vieram para Denis, na França. A cabeça de São Pantaleão é o tesouro precioso da cidade de Lyon.

Reflexões

Para que a Religião de Cristo ganhasse terreno e se implantasse com mais solidez nos corações dos homens, Deus deu aos Santos dos primeiros séculos o dom de fazer milagres. Milagres sempre houve na Igreja e ainda hoje são o desespero dos incrédulos, que os procuram negar e combater, não o conseguindo entretanto. É raras vezes que se observa um milagre, porque para conhecer a verdade, os homens têm a Igreja, que é a mestra por excelência e a razão que lhes foi dada para compreender as coisas. A melhor apologia, entretanto, da nossa santa religião, é a santidade de seus filhos. Devemos dar o exemplo da prática das virtudes, como a Igreja nos ensina.

Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:

Em Nicomédia o santo sacerdote Hermolau e os irmãos Hermipo e Hermócrates. Tendo passado por muitas provações, foram finalmente condenados à morte e executados quando Maximiano perseguia a Igreja.

Em Córdova os mártires Jorge, Félix, Aurélio, Natália e Liliosa, vítimas da perseguição muçulmana.

Em Auxerre, na França, o bispo Santo Etério.

Em Constantinopla a santa virgem Antusa, do tempo do Imperador Constantino V Coprônimo, que sentenciou sua expatriação por causa do culto das imagens santas. Se não fosse a intervenção da imperatriz, teria sido morta. Esta proteção era devida a uma profecia de Santa Antusa, dizendo que a imperatriz seria mãe de um filho e de uma filha.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii