27 de janeiro — São João Crisóstomo, Bispo, Confessor e Doutor da Igreja

27 de janeiro — São João Crisóstomo, Bispo, Confessor e Doutor da Igreja
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Extraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

Crisóstomo, descendente de família distinta, nasceu no ano 344, em Antioquia, na Síria. Seu pai, Segundo, que era comandante das tropas imperiais do Oriente, morreu cedo, deixando a educação do filhinho aos cuidados de sua excelente esposa, Antusa. Mestres de fama mundial, como Libânio, e Andragácio, introduziram o menino talentoso nos arcanos da ciência e Diodoro de Tarso foi seu instrutor em matéria de religião. O Bispo Melécio batizou-o em 369, conferindo-lhe na mesma ocasião as Ordens Menores. Já neste tempo Crisóstomo manifestou grande inclinação para a vida de asceta, e se não fosse a resistência enérgica de sua mãe, teria-se associado aos eremitas do deserto.

Quando em 373, sendo já bastante conhecido seu talento e santidade, o povo exigia sua elevação à dignidade episcopal, então João fugiu para junto dum monge, em cuja companhia viveu quatro anos, e depois para uma gruta, onde ficou dois anos, dedicando-se exclusivamente às práticas da vida religiosa, com suas austeridades, e aos estudos dos Sagrados Livros.

Como sua saúde se abalasse com a rudeza da vida no deserto, voltou para Antioquia, onde se ordenou em 386. Em Antioquia desenvolveu logo uma atividade muito grande, como escritor e orador sacro.

Sua estada em Antioquia coincidiu com uma grave revolta que houve, contra o imperador, por causa de impostos. O povo despedaçou estátuas do imperador, de seu irmão, de dois filhos e da falecida imperatriz Flavila, e deixou-se arrastar para outros atos de vandalismo. Era para temer uma terrível represália da parte do imperador Teodósio I, cujo gênio irascível era bastante conhecido. O bispo Flaviano dirigiu-se para Constantinopla, para aplacar a ira do monarca. Em Antioquia reinava o pavor. Muitas famílias tinham fugido, os membros do senado estavam na prisão, e o povo tremia, na expectativa de medidas ainda mais rigorosas. Foi a época em que a arte retórica de Crisóstomo celebrou seus mais belos triunfos. Dia por dia via-se as multidões do povo desesperado ao redor do seu púlpito, ávidos de ouvir suas práticas e ensinamentos que as consolavam. A palavra sugestiva de João Crisóstomo conteve as massas e levava-as por onde quisesse. O entusiasmo dos seus ouvintes chegou ao auge, quando lhes transmitiu a notícia do perdão e anistia, que o imperador tinha concedido à cidade, em atenção ao pedido do Bispo e à petição que o mesmo tinha apresentado, em nome de Crisóstomo e da população arrependida.

A fama da grande eloquência de Crisóstomo tinha-se espalhado em todo o Oriente e quando, em 397, morreu o patriarca de Constantinopla, Nectário, o imperador Arcádio, filho de Teodósio I, chamou Crisóstomo para ocupar o seu lugar. Foi preciso toda a habilidade e prudência da parte do imperador, para conseguir o consentimento do seu candidato. Sua nomeação para Constantinopla causou grande descontentamento em Alexandria, cujo patriarca, Teófilo, levantou enérgico protesto contra a decisão imperial. Não obstante, impôs as mãos ao novo Patriarca.

Da vida simples e pacata de Antioquia viu-se Crisóstomo transportado para a cidade da riqueza, do luxo, a grande metrópole, a sede da alta política, com suas intrigas e paixões, para Constantinopla, a rainha do Oriente que, com os seus palácios magníficos e Igrejas majestosas, dominava dois continentes. O novo Patriarca teve um acolhimento simpático da parte do clero, da aristocracia e da população inteira. Antes de tomar efetivamente as rédeas do governo de sua diocese, Crisóstomo procurou conhecer bem o terreno em que pisava. Em condições tão diferentes das de Antioquia, diferente se lhe afigurou sua nova atividade. O clero de Constantinopla era um clero, em sua maioria, pouco compenetrado da sublimidade de sua missão. Ambicioso, avarento e político, pouco tinha conservado o espírito de Cristo, que é o espírito de humildade, de caridade e de sacrifício. Em frente de tais circunstâncias, Crisóstomo compreendeu, que sua atividade não mais se limitaria à pregação da palavra de Deus, mas haveria de encetar a obra da reforma em base larga e inevitável: seria a luta e talvez a perseguição.

Fiel ao seu costume, pregava suas homílias dominicais e explicava a Sagrada Escritura. A majestosa “Hagia Sophia”, aquele grandioso monumento da fé católica em Constantinopla, enchia-se de fiéis de todas as classes, para ouvir a palavra arrebatadora e apostólica do novo Antístite.

Mais importante, mais penosa e desagradável impunha-se-lhe a obra da reforma. Esta começou em casa. Seu antecessor, Nectário, de espírito pouco evangélico, tinha feito do palácio episcopal um reduto do luxo, com todas as suas futilidades e comodidades. João Crisóstomo estabeleceu nele a vida evangélica, com toda simplicidade e decência. O segundo passo na reforma interessou a vida do clero e das religiosas, as quais em grande parte conviviam com os sacerdotes, o que mereceu a crítica do povo e a censura e proibição do Patriarca. O zeloso pastor verberou outrossim os excessos da moda, principalmente o luto “chique” das viúvas, e procurou implantar no povo a simplicidade dos costumes e o espírito da fé. As obras da caridade, a administração dos bens eclesiásticos, a elevação do clero na roça, a contrapropaganda contra os arianos residentes na cidade e enfileirados no exército, eram coisas mui importantes, a que o Patriarca dedicou todas as suas energias. Todas estas reformas criaram-lhe muita inimizade, mormente entre o clero. Era inevitável o choque.

O primeiro veio-lhe da parte de Eutrópio, eunuco e grande protegido do imperador Arcádio. Eutrópio, na sua sede insaciável de ouro, e para poder apoderar-se das suas vítimas, tinha abrogado o direito de asilo. Crisóstomo protestou contra esta arbitrariedade, tendo pouco tempo depois a grande satisfação de ver o mesmo Eutrópio invocar em seu favor o direito do asilo, quando numa revolta militar viu sua vida em perigo.

O segundo inimigo, com que Crisóstomo teve de terçar armas, foi a própria imperatriz Eudóxia, que depois do afastamento de Eutrópio, governava o imperador. Dum despotismo intolerável, era Eudóxia ainda muito avarenta, e nesta paixão que a dominava, cometeu clamorosas injustiças. Todos conheciam o modo de pensar de João Crisóstomo. Como não faltassem elementos vis, cujo maior interesse era semear cizânia e incitar os espíritos um contra o outro, puseram no ouvido da imperatriz muitas coisas, que a inimistaram contra o Patriarca. Disseram-lhe que, numa prática contra as modas escandalosas, João Crisóstomo tinha se referido ao mau exemplo de Eudóxia; em outra ocasião a tinha apelidado de Jezabel, para apostrofar sua crueldade e ambição. As relações entre a família imperial, em particular de Eudóxia e o Patriarca, não eram nada menos que cordiais. O rompimento, porém, se realizou, quando João Crisóstomo deu agasalho (aliás, com a necessária cautela) a monges que o Patriarca Teófilo de Alexandria tinha expulso de sua diocese, por suspeitar de sua ortodoxia. Eudóxia alcançou de Arcádio, que convocasse um concílio em Constantinopla, perante o qual Teófilo havia de justificar suas medidas tomadas contra os monges em questão. Clandestinamente, porém, mandou convidar a Teófilo, para que viesse com a maior brevidade e declarasse vaga a sede patriarcal de Constantinopla.

Teófilo chegou a Constantinopla, em companhia de vários bispos, desafetos de João Crisóstomo, não, porém, como acusado, mas como acusador e juiz. O concílio se realizou em Calcedônia, estando presentes 36 bispos. João Crisóstomo, sendo citado perante aquele tribunal, exigiu por sua vez a exclusão de 4 bispos, notadamente seus inimigos. O concílio reconheceu nesta exigência um ato de insubordinação da parte do acusado e declarou-o deposto de sua dignidade de Patriarca. Característico em todo este processo foi, que nem de leve se tocou na questão dos monges expulsos de Alexandria e aceitos em Constantinopla; mas tanto mais se tratou de supostas ofensas, que João Crisóstomo teria dirigido ao imperador e à imperatriz. O Santo não se opôs à injustiça que acabaram de lhe fazer e entregou-se ao agente executivo, que o devia levar ao exílio. No caminho ao Bósforo o povo lhe fez delirantes manifestações, tomando assim sua saída da capital o caráter dum extraordinário triunfo. Na noite que seguiu sua partida, a população de Constantinopla foi atemorizada por um forte terremoto. A própria imperatriz, fortemente impressionada com este fenômeno, pediu ao imperador revogação do edito contra João Crisóstomo. A atitude do povo contra o imperador foi tão ameaçadora, que João Crisóstomo pôde voltar, sem esperar nova determinação dos bispos.

De pouca duração, porém, era a paz. No mesmo ano inaugurou-se perto da Igreja um monumento, que apresentava uma estátua de Eudóxia. Por esta ocasião a aglomeração do povo foi tamanha, que provocou desordens e impossibilitou a celebração dos atos litúrgicos no templo. O Patriarca pediu providências ao prefeito, reclamando contra os abusos que se praticavam. A reclamação foi interpretada maliciosamente, como se o Patriarca tivesse declarado contra a existência do monumento. Mal Eudóxia teve conhecimento disto, quando se dirigiu de novo a Teófilo, pedindo sua intervenção. Este, dispensando triunfos pessoais em Constantinopla, limitou-se a citar as determinações ainda em vigor do Concílio de Calcedônia. Embora este concílio nenhum valor tivesse, o imperador proibiu ao Patriarca o uso de ordens e mandou fechar o palácio episcopal.

Não obstante, João Crisóstomo entrou pela Páscoa na Catedral, para admitir o batismo aos catecúmenos, que ele mesmo tinha preparado. Força armada penetrou no templo e dispersou a multidão dos fiéis. Chegou o dia de Pentecostes, e com ele o decreto imperial que condenava o Patriarca ao exílio. João Crisóstomo, despedindo-se dos seus fiéis e dedicados amigos, abandonou secretamente a capital, para evitar um segundo levantamento do povo. Sua saída de Constantinopla desta vez foi definitiva.

Escoltado por soldados da força pública, começou para João Crisóstomo sua viagem ao exílio, sem saber para onde o levariam. Algum tempo ficou em Niceia, onde desenvolveu uma atividade considerável na conversão de pagãos. Comunicaram-lhe que Cucusa era seu destino, e para lá havia de dirigir seus passos. A viagem foi penosíssima e chegou a ser um verdadeiro martírio para o pobre exilado. Chegando a Cesareia na Capadócia, os próprios bispos negaram-lhe agasalho, e monges fanatizados atacaram sua casa. Não havia quem o quisesse receber em sua casa, de modo que é verdade o que João queixa numa carta, dizendo que sofre mais que os criminosos nas minas e nas prisões. Finalmente, após uma viagem de 70 dias, cheia de peripécias, e perigos, chegou a Cucusa, na Armênia. Apesar de ser o “lugar mais ermo do mundo” (expressão de João Crisóstomo), sua permanência lá não lhe foi tão desconfortada, como podia supor que fosse. Tendo sempre comunicação com seus amigos de Constantinopla, estes arranjaram-lhe bons amigos e benfeitores também no exílio. Até de Antioquia recebia cartas e mesmo visitas. Não lhe faltaram sofrimentos e grandes provações. Sua saúde ressentiu-se muito, com o clima áspero e excêntrico de Cucusa. Bandos isáuricos devastaram diversas vezes aquela região e obrigaram os habitantes a se refugiar nas grutas e montanhas. Fugindo destes inimigos, João Crisóstomo procurou abrigo num castelo fortificado em Arabisso.

Os amigos do Santo em Constantinopla passaram por um grande vexame, e tornou-se bem crítica sua situação. Logo depois da saída de João Crisóstomo, houve dois grandes incêndios, que destruíram a grande catedral, algumas casas contíguas e o palácio do Senado. Os inimigos do Patriarca inculparam os seus partidários de terem causado estes desastres, e abriram forte campanha contra eles. Ambas as partes apelaram para o Papa Inocêncio I. A sentença do Sumo Pontífice desagradou profundamente aos adversários de João Crisóstomo, pois Inocêncio I declarou-se em favor deste contra o Concílio de Calcedônia, e fez a proposta, de apresentar a questão a um outro concílio, o qual, porém, não se realizou, devido à má vontade de Arcádio.

Vendo as comunicações que havia entre João Crisóstomo e Constantinopla e Antioquia, o imperador ordenou sua transferência para Pítio, na margem oriental do Mar Negro. O organismo do Santo, já tão depauperado e extenuado, não mais resistiu às fadigas desta viagem. Quase sem forças chegou a Comana, onde pernoitou na Igreja de São Basílio. Em sonho ouviu o Santo dizer-lhe as seguintes palavras: “Tenha ânimo, irmão, o dia de amanhã nos unirá”. No dia seguinte, 14 de setembro de 407, entrou no eterno descanso. Suas últimas palavras foram: “Louvado seja Deus por tudo. Amém”.

O cisma terminou só com a morte de Arcádio, Eudóxia e Teófilo. Teodósio II, filho e sucessor de Arcádio, cumpriu a ordem do Papa, de restabelecer a honra do Patriarca injustamente exilado. A transladação do corpo de São João Crisóstomo para Constantinopla revestiu-se de uma pompa, como igual à cidade não tinha visto ainda. As relíquias de São João Crisóstomo acham-se hoje em Roma, na Igreja do Vaticano.

Reflexões

1. São João Crisóstomo repreendia e castigava os defeitos, as faltas e vícios que reinavam entre os cristãos, embora seu rigor lhe importasse inimizades e perseguições. Era a caridade ao próximo que o levava a profligar o pecado e implantar bons costumes no seio da família cristã. Quem é superior, deve empenhar sua autoridade, para que sejam eliminados pecados, abusos e vícios. O superior que finge não ver seus súditos pecarem, quando facilmente os poderia corrigir, faz-se cúmplice do pecado dos mesmos. O amor ao próximo, o amor-próprio, a responsabilidade perante Deus impõe ao superior o dever de fazer com que seus súditos não se entreguem ao pecado e ao vício.

2. “Eu temo só o pecado”, dizia São João Crisóstomo. Na verdade, outro mal maior que o pecado não há e não pode haver. São João Crisóstomo preferia ser perseguido, caluniado e maltratado a cometer um pecado. Só tinha medo, e horror do pecado, que é uma ofensa a Deus. Como é diferente a opinião do mundo! O pecado para ele não é nada, quando muito, apenas uma fraqueza. Qual é a qualificação que dás ao pecado? “O pecado, sem dúvida, é o causador de todos os males. Do pecado vêm as guerras, as epidemias, perseguições e todos os sofrimentos”, dizia São João Crisóstomo. Como ele, devemos também nós ter medo, só de uma coisa — do pecado.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312