26 de setembro — Os Mártires do Canadá e da América
26 de setembro — Os Mártires do Canadá e da AméricaExtraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
SÃO JOÃO DE BRÉBEUF
( 1593 – 1649)
Os novos Santos da Companhia de Jesus derramaram o sangue em meio dos selvagens Peles Vermelhas, que ocuparam as imensas florestas nas regiões dos lagos, no Canadá e no atual Estado de Nova York. Nada os atraía àquela vida, pior que a morte, a não ser o íntimo, o intenso amor ao Mestre Crucificado; nada lá acharam, senão um labor obscuro, a solidão, as torturas, o martírio. Mas era esta a mais gloriosa e a mais ambicionada coroa de seu trabalho, a mais brilhante recompensa à energia e dedicação empenhadas para a salvação dos Índios.
A Companhia de Jesus não foi jamais avara do sangue de seus Filhos; mas estes oito novos Santos juntaram um novo esplendor ao seu diadema, no último ano jubilar e missionário, em que se festejou com entusiasmo a glória do Apóstolo que, desapegado de si mesmo e das alegrias terrenas, avança e dilata em meio dos pagãos de toda a espécie, o doce reino de Jesus.
O Padre João de Brébeuf faleceu na Missão dos Hurões de Santo Inácio, em 16 de março de 1649, em meio dos tormentos mais terríveis que soube inventar a fúria dos Iroqueses. Numa admirável aparição em que, abraçando-o, o chamou de “vaso de eleição”, destinado a ter a glória de seu nome e a participar de todas as dores de seus mais caros Apóstolos, o Salvador lhe tinha prometido que acharia no martírio a coroa de suas fadigas e esperanças.
Por seu lado, o homem de Deus, mais de doze anos antes de morrer, tinha feito o pedido, que repetia todos os dias, quando apertava nas mãos o Corpo de Jesus, de o fazer sofrer quanto pudesse, para glorificá-lo e mostrar-lhe o seu amor, "de modo tal — acrescentava — que não me será mais lícito fugir da ocasião de derramar meu sangue por Ti; e quando receber o golpe de morte, quero ser obrigado a recebê-lo de Tuas mãos, com toda a alegria de minha alma”.
Só quem conhece o antigo Canadá pode fazer-se uma ideia do trabalho que foi ganhar para Deus 7.000 almas, e do sacrifício que havia em deixá-las na Missão dos Hurões. Estes selvagens, de que muitos estavam para tornar-se não só fervorosos cristãos, mas também mártires pela fé, tinham-no cumulado de ultrajes e de maus tratos. O próprio demônio, sob a forma mais horrenda, o tinha assaltado, mas ele se contentava a responder: “Pode fazer de mim o que Deus lhe permite” — Esta simples palavra era bastante para pô-lo em fuga. As ignomínias não lhe pareciam humilhações porque nada fazendo de si próprio, não o atingiam, e quanto menos se via considerado e estimado, tanto mais alegria seu coração experimentava.
Na madrugada do último dia da sua vida, quando um bando de Iroqueses inesperadamente atacou a Missão de Santo Inácio, ele, cheio de alegria por ver próximo o momento do seu holocausto, mas cheio também de amargura e compaixão dos pobres prisioneiros, destinados às mesmas torturas, disse-lhes: “Meus Filhos, nas mais duras aflições elevemos os olhos ao céu! Lembremo-nos de que Deus é testemunha dos nossos sofrimentos e em breve será a nossa doce recompensa” — “Rogai a Deus por nós — respondiam eles — o nosso espírito estará no céu, enquanto os nossos corpos sofrem aqui na terra”.
Começou então o suplício do glorioso mártir que não tem igual na história dos mártires. Como prelúdio, arrancaram-lhe as unhas, e todo já ensanguentado, amarraram-no a um poste, que ele — afirmam-no as testemunhas daquela cena horrível, — abraçou como objeto de grande estimação. Depois queimaram-lhe o pescoço, o peito e as costas com machadinhas incandescentes, fizeram-lhe uma cintura de cortiça embebida em piche e resina a que aplicaram fogo. Outros vinham com facas e ganchos em brasa, atravessavam-lhe as carnes, cortavam pedaços e avidamente os devoravam diante dos seus olhos. Ainda outros, depois de lhe terem tostado a testa, trouxeram água quente para lavá-la, parodiando as cerimônias do Batismo.
O que os exasperava e levava seu furor ao auge do delírio, foi a calma com que sofreu tudo isto durante três horas, sem uma queixa, só rezando, ora implorando a Deus, ora animando a fé dos seus companheiros, ora exortando os próprios canibais para que não se esquecessem de Deus, da salvação da sua própria alma e que pensassem nas penas eternas.
Vendo que não conseguiam fazê-lo calar, cortaram-lhe os beiços e a língua, mutilaram-lhe os queixos, meteram-lhe na boca tições ardentes e, finalmente, no desespero de não lhe poder arrancar um só gemido, abriram-lhe o peito, tiraram para fora o coração, beberam-lhe o sangue, julgando que com isso bebessem uma parte da sua alma e da sua coragem.
João de Brébeuf nasceu em 25 de março de 1593 em Condé-sur-Vire, de família nobre, dedicada à Igreja e à fé. Entrou na Companhia de Jesus em 8 de novembro de 1607, partiu para as missões dos Peles Vermelhas em 1625. Morreu com 50 anos de idade.
SÃO GABRIEL LALEMANT
( 1610 – 1649)
Nasceu em Paris em 19 de outubro de 1610, fez-se jesuíta, e em companhia do Pe. de Brébeuf trabalhou nas missões dos Hurões, onde 15 horas depois do seu companheiro e mestre, quando tinha apenas 39 anos de idade e 16 anos de vida de missionário, sofreu, como este, o martírio. O Pe. Lalemant era de compleição fina e delicada, mas de um fervor angélico. No seu longo e doloroso martírio demonstrou uma fortaleza admirabilíssima, condigna do voto que fizera a Deus de dedicar sua vida à obra da conversão dos Hurões.
Preso juntamente com o Pe. de Brébeuf, foi testemunha ocular das torturas de que foi vítima seu grande mestre. Quando este estava já agonizando, o jovem mártir se ajoelhou aos pés do seu companheiro, beijou reverentemente suas chagas e pediu-lhe que alcançasse junto de Deus a graça da perseverança. O Pe. de Brébeuf já não podia mais falar, mas uma doce inclinação da cabeça era a resposta à prece do seu jovem companheiro, que assim confortado se entregou aos algozes.
Sem dar um gemido, coração e espírito fixos em Deus, passou pelos mesmos tormentos que vira seu mestre passar e, quando depois se recolheram seus restos mortais, — escreve o Pe. Ragueneau, — não se achou parte de seu corpo que não trouxesse sinais de queimadura, nem os olhos que os bárbaros lhe tinham arrancado, substituindo-os por carvões em brasa.
A família do Pe. Gabriel, ao receber a notícia da morte gloriosa do seu parente, exultou de alegria. A mãe do herói cristão, que tinha dado a Deus quatro filhos e a todos educado no santo temor de Deus e no amor à cruz, cantou o ‘Te Deum laudamus” em ação de graças e pouco depois tomou o hábito de Santa Clara.
SANTO ANTÔNIO DANIEL
( 1601 – 1648)
É este o terceiro da gloriosa plêiade dos mártires canadenses. Antônio Daniel, morto aos 47 anos de idade, depois de ter trabalhado 15 anos pela conversão dos Hurões, era um dos missionários prontos a tudo fazer e a tudo sofrer, e que conquistava os corações dos bárbaros com sua invencível caridade e bondade. O Pe. Le Jeune o apresenta de volta de uma laboriosa viagem apostólica, acompanhado de três pequenos selvagens, destinados a serem futuros catequistas de sua nação, de rosto sorridente, mas desfeito, sem calçado, o remo na mão, todo esfarrapado, o breviário pendurado no pescoço. Mas em sua santa alegria fez cantar o “Te Deum”, para agradecer a Deus as ricas bênçãos que fizera chover sobre a pequena cristandade. Quanto às fadigas da viagem, ele dizia-se satisfeitíssimo por ter batizado um pobre Pele Vermelha que se achava próximo da morte.
Terminado seu retiro espiritual em 2 de julho de 1648, não se deu ao bem merecido descanso, mas voltou imediatamente à Missão de São José, onde consagrou as últimas horas da sua vida à salvação eterna dos pobres pecadores, e à conversão dos pagãos.
Em 4 de julho, a Missão foi assaltada pelos Hurões. O Pe. Daniel estava terminando a Santa Missa. Vendo o perigo que a missão corria, foi às pressas batizar um catecúmeno velho e doente, que não podia vir à capela. Num instante esta se encheu de pagãos fugitivos e apavorados, que pediam para si a mesma graça. O Pe. Daniel batizou a todos a modo de aspersão, visto não haver tempo naquele momento urgente para administrar as cerimônias usuais do Batismo.
“Minha vida, dizia ele aos neobatizados, nada vale enquanto tiver uma alma para salvar-se. Ainda hoje nos veremos no céu”.
Dito isto, foi de encontro ao inimigo. Os guerreiros bárbaros hesitaram um instante em pôr-lhe as mãos. Mas a um sinal dado, alvejaram-no com suas setas, das quais uma lhe atravessou o peito, enquanto pronunciava o nome de Jesus. Os canibais apoderaram-se do seu corpo, mutilaram-no horrivelmente, lavaram as mãos e o rosto no seu sangue, incendiaram a capela e atiraram com o cadáver ao fogo.
Pouco depois apareceu, rodeado de uma luz claríssima, ao Padre Chaumonot.
SÃO CARLOS GARNIER
( 1605 – 1649)
O Padre Carlos Garnier morreu na Missão de São João sob as flechadas e machadadas dos Iroqueses. Treze anos tinha ele trabalhado no meio das tribos selvagens do Canadá, entre sofrimentos inauditos, professando ele altamente que um missionário nunca poderá sofrer demais quando é para salvar uma única alma. Doentes que achava abandonados, levava-os sobre os seus ombros, uma ou duas léguas, à Missão, onde os tratava e os preparava para o santo Batismo. Fazia dez e mais léguas sob um calor causticante, muitas vezes com perigo de morte, para assistir a um pobre moribundo ou a um prisioneiro de guerra condenado a ser queimado vivo. Noites inteiras passava ele perdido em caminhos soterrados pela neve, sofrendo o horrível frio do inverno, sem que seu zelo apostólico afrouxasse.
Para auxiliá-lo em seus mistérios apostólicos, invocava muitas vezes os Santos Anjos, que não raras vezes visivelmente lhe apareciam e foram vistos também pelos pagãos. Além de ser mui piedoso, o Pe. Garnier era homem de austera penitência. Jejum, mortificações, ásperos cilícios eram os meios de que se servia para se santificar a si próprio e para atrair as bênçãos do céu sobre sua grei. Em 7 de dezembro de 1649, a Missão de São João foi surpreendida pelos Iroqueses e tomada de assalto. Duas setas cravaram-se no coração do missionário, que ainda recebeu uma forte machadada na cabeça. Tudo isso aconteceu, quando o Pe. Garnier estava ocupado nos preparativos da Festa da Imaculada Conceição, a que desde menino tributava especial devoção e em cuja homenagem tinha guardado sua inocência batismal.
Nascido em Paris em 25 de maio de 1606, de família distintíssima, entrou na Companhia de Jesus em 1624.
SÃO NATALE CHABANEL
( 1613 – 1649)
O Padre Natale Chabanel morreu pela mão de um apóstata índio Hurão, em 8 de dezembro de 1649, na idade de 36 anos. Dois dias antes tinha recebido ordem de se afastar dos seus caros selvagens e tinha-se posto a caminho imediatamente.
Mas Deus não permitiu que pela presteza de sua obediência fosse perder a coroa do martírio.
Achando-se ele durante a viagem num bosque só com o índio apóstata, este o agrediu inopinadamente, matou-o e atirou com o cadáver ao rio. Mais tarde, o próprio assassino confessou seu crime, ou antes dele se gabava, dizendo haver morto um missionário, cuja pregação trazia-lhe desgraça.
Lê-se com profunda comoção a história do Pe. Chabanel, pois, chamado à Missão, na qual trabalhou seis anos, quis Deus que este tempo todo fosse de continuada provação. Por mais esforços que envidasse, não conseguiu aprender a língua dos índios, embora não lhe faltasse inteligência e talento; além disso, todo o seu interior se revoltava contra a vida e os costumes dos selvagens, dos quais experimentava uma repugnância invencível. Por muito tempo sentia-se abandonado por Deus, imerso no maior desânimo e profunda tristeza, sem que lhe tivesse sido possível sair deste lastimável estado. Que não caiu no desespero, era devido à sua própria firmeza, como a uma graça especial de Deus. Neste estado de desolação, vinham-lhe pensamentos tentadores: quanto não poderia trabalhar na França com muito mais resultado e com alegria espiritual. Mas bem longe de formular o pedido de poder voltar para a Europa, fez o voto de continuar sua vida desolada até a morte. É para se admirar, pois, de que Deus o tivesse achado digno da coroa do martírio?
O Pe. Natale Chabanel era natural de França, da diocese de Mende, e entrou na Companhia de Jesus em 9 de fevereiro de 1630.
SANTO ISAAC JOGUES
( 1607 – 1646)
Filho de família distinta de Orléans, Jogues nasceu em 10 de janeiro de 1607 e entrou na Companhia de Jesus em 1624. Doze anos depois, seus Superiores mandaram-no para as Missões do Canadá, não atendendo seu anterior pedido de poder trabalhar na Etiópia. Três vezes penetrou em território dos Iroqueses, que corresponde ao Estado de Nova York, e sofreu torturas inomináveis dos selvagens bárbaros, quando alguns dos seus companheiros foram mortos pelos mesmos. Um convite insistente dos holandeses para se aproveitar da hospitalidade da colônia Rensselaerswyck, Jogues não o aceitou. Em 1643 interrompeu seu trabalho missionário e fez uma viagem à Europa. Em 1645 o vemos de novo entre os Peles Vermelhas e fundar a “Missão dos Mártires”. Os Iroqueses, desta vez, pareciam mais pacíficos. Foi preciso dirigir a Roma um requerimento para obter licença de celebrar a Santa Missa com os dedos mutilados, como o Pe. Jogues os tinha. O Papa, lendo a petição, exclamou: “Seria injusto não permitir a um mártir de Cristo beber o sangue de Cristo”, e concedeu-lhe o privilégio. Por diversas vezes tentou pôr-se em contato com os selvagens, mas sem o menor resultado. Na terceira viagem que fez àquela missão, um grupo de ferozes Mohawks o assaltaram, e deram-lhe a morte a golpes de machado. Depois de mutilado horrivelmente o cadáver, atiraram-no às águas do riacho Caughnawaga. O chefe dos bandidos logo depois foi preso pelos Algonquins, que o condenaram à morte pelo fogo. Por uma graça extraordinária, talvez fruto da intercessão do santo mártir, converteu-se e foi batizado pelo Pe. Le Jeune, que lhe deu o nome de Isaac. Suportou com coragem as torturas, invocando o nome de Jesus e bendizendo a Deus. Embora o Pe. Jogues não tenha colhido muitos frutos do seu trabalho entre os Peles Vermelhas, é ele o fundador da Missão e por ela derramou seu sangue. À sua intercessão são atribuídos vários milagres. A flor mais bela que brotou daquela terra embebida do sangue do mártir é o lírio da tribo dos Iroqueses, a serva de Deus Catharina Takwitha.
SÃO RENATO GOUPIL
( 1607 – 1642)
Renato Goupil, fiel companheiro de sofrimento e de cativeiro do Pe. Jogues, morreu assassinado em 29 de setembro de 1642. O Padre Jogues chamava-o “mártir da obediência, da fé e da cruz”. Poucos dias antes da sua morte tinha feito votos de religioso, mas havia muito que, de coração, pertencia a Deus, e praticava as mais heroicas virtudes, procurando em tudo cumprir a santíssima vontade de Deus. Quando se falava em ir aos Hurões, seu coração, prevendo os perigos, exultava de alegria no antegozo de um cruel martírio, que poderia sofrer por Jesus Cristo e que de fato sofreu. Apenas caído nas mãos dos Iroqueses, os bárbaros arrancaram-lhe as unhas, trituraram em seguida com os dentes as pontas dos dedos e aplicaram-lhe o fogo dos seus cachimbos acesos. Levaram-no de aldeia em aldeia, onde a população, armada de cacetes e varinhas de ferro o fazia passar por uma chuva de golpes. Estava o pobre Irmão desfigurado e seu corpo parecia uma só chaga.
Por mais de um mês e meio depois deste cruel martírio, teve de sofrer os mais indignos ultrajes da parte dos selvagens, como a nudez, fome, sede, ardor do sol, a gangrena nas feridas, a mordedura dos insetos. Renato, em meio destas torturas, não cessava de bendizer a Deus e de animar-se pelo exemplo do seu divino Mestre, até que um dia dois selvagens lhe racharam a cabeça por ter feito o Sinal da Cruz sobre a testa de uma criança.
Goupil, natural de Angers, bem jovem, seguiu para o Canadá como companheiro apenas dos Padres. Morreu com 35 anos.
SÃO JOÃO DE LA LANDE
( 1604 – 1646)
João de La Lande acompanhou o Padre Jogues na sua terceira expedição em território dos Iroqueses. Surpreendido e feito prisioneiro com o Padre, sofreu com ele toda a sorte de crueldades e foi morto um dia depois dele por um golpe de machado na cabeça em 19 de outubro de 1646.
Como Renato Goupil, tinha deixado a sua terra para prestar aos missionários, e na pessoa deles a Deus, o tributo de seus serviços, da sua energia e do seu sangue.
Com exceção de São João de Brébeuf e de São Gabriel Lalemant, não existem relíquias dos oito mártires do Canadá; e estas foram transportadas para Quebec, onde se acham expostas em ricos relicários à devoção dos fiéis. Tanto mais viva ficou a memória desses heróis, que deram ao mundo cristão o exemplo eficaz de uma vida intemerata sacrificada, e cuja intercessão é invocada pela Cristandade. Admirável tem sido o grande número de graças espirituais e temporais obtidas por meio dessa intercessão.
São em particular dignas de menção curas obtidas com a aplicação de relíquias do Pe. Brébeuf.
Para conservar e perpetuar a memória dos Santos Mártires canadenses, construiu-se uma bela igreja no país, que foi o campo dos seus trabalhos apostólicos, em Penetanguishene (Ontário), do antigo território dos Hurões.
Também na colina, que foi teatro do martírio do Pe. Jogues e dos seus dois companheiros, que hoje leva o nome de “montanha da oração”, perto da localidade chamada Auriesville (Nova York), se eleva um modesto oratório, dedicado a Nossa Senhora dos Mártires, muito procurado na estação do verão por grandes e numerosas romarias, muitas vezes guiadas por bispos e cardeais.
O antigo ódio existente entre os povos dos Hurões e Iroqueses fez com que estes, mais fortes e mais bárbaros, decidissem o extermínio dos outros. Os Hurões, acossados e perseguidos, desanimados e desesperados, incendiaram suas próprias aldeias e refugiaram-se na residência dos Padres em Santa Maria, onde foram batizados 2.700 Peles Vermelhas de sua tribo. Como a própria Missão não lhes pudesse garantir toda a segurança, uma parte uniu-se com os próprios Iroqueses, e com eles fundaram um pequeno núcleo cristão; os outros se retiraram para as regiões do Lago Superior.
A pedido dos cristãos Hurões, os Padres abandonaram sua querida residência de Santa Maria e estabeleceram-se na Ilha dos Cristãos. O fervor dos cristãos era extraordinário. Mas os invernos terríveis, fome, epidemias e novas perseguições dos Iroqueses obrigaram-nos a abandonar também este último reduto. Foram então cada um para o seu lado, uns para Quebec, outros para a Ilha de Orléans, e outros lugares. Nunca mais se reuniram para formar uma nação. Hoje ainda existe uma paróquia católica fervorosíssima dos Hurões, a paróquia da Santíssima Virgem de Loreto.
Reflexões
Não se lê a vida e o martírio dos missionários canadenses sem a comoção da alma. Martírios como estes só os encontramos iguais nas missões da China e do Japão. Ao ler estas páginas, espontânea nos vem a pergunta: por que estes homens, inteligentes, preparados, abandonaram sua terra civilizada que lhes oferecia todo o conforto e se transportaram para as regiões inóspitas de um país pouco conhecido, habitado por selvagens, baldos de toda a cultura, pagãos e de sentimentos ferozes? A resposta temos na vocação missionária, que desperta e cultiva no coração do missionário dois sentimentos: o de um amor ardentíssimo a Jesus Crucificado e outro de um zelo sem limites pela salvação das almas. A vida do missionário é a prática exatíssima do mandamento de Nosso Senhor: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Os nossos missionários mártires eram possuidores destas virtudes em grau heroico, como mostra sua conduta no meio de tantas e tão atrozes torturas, cuja descrição nos causa pavor. Cristo quer de nós, que sejamos missionários de coração e alma, para que em verdade e de convicção possamos rezar: “venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade na terra e no céu”. Sejamos missionários de oração e de caridade. Peçamos a Deus que faça em nós crescer o amor a Jesus e às almas.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii ↩