26 de janeiro — São Policarpo, Bispo e Mártir
26 de janeiro — São Policarpo, Bispo e MártirExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
São Policarpo, converteu-se ao cristianismo no ano de 80, e teve a grande dita de ter sido discípulo do grande Apóstolo São João Evangelista, de quem recebeu o espírito e a doutrina de Jesus Cristo. Em 96 recebeu a sagração episcopal e foi-lhe confiada a diocese de Esmirna. É possível que São João Evangelista, no livro Apocalipse, tenha-se referido a Policarpo quando escreveu: “Eu sei tua tribulação e pobreza, porém, és rico”, e mais adiante: “Sê fiel até a morte e te darei a coroa da vida” (Apocalipse 2, 9). O santo, Bispo-mártir de Antioquia, Inácio, alegrou-se muito com a visita de Policarpo, e escreveu duas epístolas importantes, uma a Policarpo e outra aos fiéis de Esmirna, em que lhes dá sábios ensinamentos sobre a Santa Doutrina.
Policarpo administrou sua diocese como um verdadeiro Apóstolo, com firmeza e caridade, pela palavra e pelo exemplo. De sua autoria existe uma epístola preciosíssima aos Filipenses, cheia dos mais belos ensinamentos e sábios conselhos. No tempo de São Jerônimo, esta epístola costumava ser lida publicamente nas igrejas. Muitos infiéis se converteram ao cristianismo, e para os fiéis, Policarpo era verdadeiro Pastor. Já avançado em idade, fez uma viagem a Roma, para tratar com o Papa Aniceto sobre a célebre questão da Páscoa. Em Roma encontrou muitos cristãos, que se tinham deixado enganar pelos dois hereges Valentim e Marcion, e os conduziu ao caminho da verdade. De volta para a Ásia, encontrou em sua diocese o decreto de perseguição, publicado pelo imperador Marco Aurélio. Foi o princípio de horrores para a jovem Igreja. O governador de Esmirna preludiou a perseguição, pela condenação de doze cristãos, que foram atirados às feras. Policarpo, vendo seu rebanho em perigo, redobrou seus esforços para conservá-lo na fé e confortá-lo na hora da tribulação. Os cristãos, inquietavam-se muito, por causa da sorte do seu venerável Bispo. Para salvar-lhe a vida, levaram-no a um sítio fora da cidade, onde o esconderam aos olhos dos fiscais do governo. Três dias antes da sua prisão teve a revelação do seu martírio. Em sonhos viu seu travesseiro rodeado de fogo, e disse aos seus amigos: “Meus irmãos, sei que serei condenado à morte pelo fogo. Deus seja bendito, porque se digna de dar-me a coroa do martírio”. Três dias depois cumpriu-se o que tinha dito.
A polícia do governador descobriu seu esconderijo, e Policarpo, embora lhe fosse efetuar a fuga, entregou-se à autoridade. No caminho para a cidade encontrou-se com Herodes, juiz de paz e com Nicetas, pai do mesmo. Estes homens, sem dúvida bem-intencionados, insistiram com ele para que conservasse a sua vida, e obedecesse à lei do imperador. Depois de muito discutir, o Bispo disse-lhes: “Não farei o que me aconselhais. Nem espada, nem fogo ou qualquer outra tortura me fará renunciar a Cristo”.
Apresentado ao governador, este lhe perguntou se era Policarpo e ordenou-lhe que abjurasse sua religião e injuriasse a Cristo. Policarpo respondeu: “Sim, sou Policarpo. Oitenta e seis anos são que completo no serviço de Jesus Cristo, e Ele nunca me fez mal algum; como poderia injuriá-lo?” O governador, porém, continuou a insistir com muito empenho e disse: “Tenho as feras à minha disposição; se não obedeceres, serás atirado a elas!” Policarpo: “Deixa-as vir! Eu persisto no meu intento e não o mudarei!” O governador: “Se não tens medo das feras, temos ainda o fogo; este te porá manso!” Policarpo: “Ameaças com um fogo que arde por algum tempo para depois se apagar e nada sabes daquele fogo eterno, que é preparado para os ímpios. Não percas tempo! Manda vir as feras ou faça o que quiseres. Eu sou cristão e não abandonarei a Cristo”. Em dizer isto, seu rosto resplandecia de satisfação, tanto que todos se admiravam. sem poder compreender como um homem tão avançado em idade pudesse apresentar tamanho heroísmo.
O governador mandou apregoar em alta voz: “Policarpo é cristão, como ele mesmo confessou”. Os judeus e pagãos presentes unanimemente exigiram sua sentença de morte e pediram que fosse queimado vivo. Em poucos minutos foi preparada a fogueira. Alguns queriam que o Santo fosse amarrado numa estaca, para impossibilitar a fuga. Policarpo, porém, tranquilizou-os, dizendo: “Aquele que me dá a graça de sofrer a pena do fogo, há de me dar força para que fique imóvel no meio das labaredas”. Ataram-lhe então as mãos nas costas e puseram fogo.
Antes que o fogo chegasse a queimar-lhe o corpo venerável, o ancião elevou seus olhos ao céu, e disse: “Deus todo-poderoso, Pai de Jesus Cristo, vosso amado Filho Unigênito, por quem recebemos a graça de vos conhecer; Deus dos Anjos e das Potestades celestiais, Deus de todas as criaturas e de todo o povo dos justos, que vivem em vossa presença: graça vos dou, que conservastes a minha vida até esta hora para ser associado aos vossos mártires e participar do cálice de amargura do vosso ungido, e na virtude do Espírito Santo ser ressuscitado para a vida eterna. Aceitai propício, em união àquele sacrifício que preparastes para Vós, este meu holocausto e a mim mesmo, para que se cumprisse, o que me revelastes, Vós que sois Deus verdadeiro. Eu vos louvo em todas as coisas: eu vos bendigo; eu vos glorifico pelo eterno Sumo Pontífice, Jesus Cristo, vosso dileto Filho, que convosco e o Espírito Santo é louvado e honrado por todos os séculos. Amém”.
Apenas tinha o Santo terminado a sua oração, quando subiram as labaredas com todo o vigor. Deus, porém, quis manifestar o seu poder e provar que não lhe faltavam os meios de proteger seu servo no meio do fogo. As chamas subiram de todos os lados, mas — ó maravilha! — elas formaram um grande arco ao redor do Santo, sem que lhe queimassem um só cabelo. Ao mesmo tempo espalhou-se um cheiro suavíssimo, como se fossem queimados doces perfumes. Pavor se apoderou dos inimigos. Mas, como quisessem ver morto o servo de Cristo, recebeu o algoz a ordem de matá-lo com a espada. Assim terminou o curso glorioso do grande Bispo, que segundo a afirmação dos judeus e pagãos, tinha sido o primeiro mestre dos cristãos e o inimigo mais implacável dos deuses. Os judeus quiseram por todo o transe evitar que o corpo do mártir fosse entregue aos cristãos. Para este fim, mandaram dizer ao procônsul: “Se entregares aos cristãos o corpo de Policarpo, eles abandonarão o Crucificado, para prestar honras divinas a este”. “Eles não sabiam” — assim se exprimem os cristãos que escreveram as atas do martírio — “que nós não podemos abandonar a Jesus Cristo, para adorar um outro. É verdade, que veneramos os mártires, mas só porque são discípulos e imitadores de Jesus Cristo e deram ao seu Rei as provas mais claras de seu amor”. Para terminar a contenda entre judeus e cristãos, o capitão romano mandou lançar o corpo do mártir ao fogo. Diz ainda o protocolo: “Nós tiramos das cinzas seus ossos, para nós mais preciosos que ouro e pedrarias, e depositamo-los num lugar conveniente, onde esperamos poder, com a graça de Deus, reuni-los para festejar o dia de seu aniversário, isto é, o dia do seu martírio”, que foi o dia 26 de janeiro de 168. O túmulo de São Policarpo acha-se numa capela em Esmirna.
Reflexões
1. “Durante oitenta e seis anos servi a Cristo, e nenhum mal Ele me fez; como então poderia negá-lo agora e ultrajá-lo?” Palavras de ouro, digna de um Apóstolo! A palavra de São Policarpo deve ser também teu lema. Nunca Deus te fez mal algum; pelo contrário: é teu maior benfeitor. Podes, com São Policarpo, também afirmar, que a gratidão te obriga a santificar seu nome e fugir do pecado, que é um ultraje a Deus?
2. Policarpo conheceu ainda os Apóstolos e deles aprendeu a doutrina de Cristo, e no espírito apostólico pastoreou seu rebanho.
Sua vida nos prova, que já naquele tempo, as relíquias dos Santos eram muito honradas e os cristãos lhes tinham muita devoção. Esta devoção era tão extraordinária, que chamou a atenção dos próprios judeus, que chegaram a recear que, os cristãos, pela veneração que demonstraram a Policarpo, o pudessem pôr no lugar de Cristo. Grandes honras os cristãos deram às relíquias de Santo Inácio de Antioquia, que deixara a vida entre os dentes dos leões. Muito honrados foram os restos mortais de Santa Sinforosa e seus filhos, dos Santos Justino, Fótino, Epipódio, Alexandre e Sinforiano, que sofreram o martírio no 2º século. A doutrina da veneração das Santas Relíquias é tão antiga como a própria Igreja. Uma doutrina contrária a este culto foi, no século IV, anatematizada como heresia.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩