26 de fevereiro — São Porfírio de Gaza, Bispo e Confessor

26 de fevereiro — São Porfírio de Gaza, Bispo e Confessor
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Extraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

São Porfírio, o vigoroso destruidor da idolatria, nasceu em Tessalônica, na Macedônia. Instruído nas ciências, tendo a idade de 25 anos, retirou-se para a solidão de Scete, onde passou cinco anos em santo recolhimento. Em seguida visitou os Santos Lugares em Jerusalém, e viveu mais cinco anos numa gruta, nas proximidades do Jordão. A insalubridade do lugar causou grande mal à sua saúde, e doente chegou a Jerusalém, onde teve a notícia da morte de seus pais. Em sua companhia se achava um jovem de nome Marcos. A este se incumbiu de receber sua herança e distribuir o dinheiro entre os pobres, o que se fez. Porfírio, não tendo reservado nada para si, viveu sempre pobre.

Nas suas visitas diárias aos Santos Lugares teve uma vez um desmaio que se transformou em visão. Apareceu-lhe Nosso Senhor na Cruz e com ele o Bom Ladrão. Jesus Cristo deu a este um sinal de ajudar Porfírio a se levantar do chão. O Bom Ladrão estendeu-lhe as mãos e disse: “Agradece a teu Salvador tua cura”. No mesmo momento, Jesus Cristo desceu da cruz e entregou-lhe a mesma, com a recomendação de guardá-la bem. Quando o Santo voltou a si, notou que estava perfeitamente curado. O sentido das palavras de Cristo, porém, ficou-lhe enigmático, até que o Bispo de Jerusalém o ordenou e lhe confiou a guarda do Santo Lenho.

Os sacerdotes da diocese de Gaza, tendo perdido seu Bispo, insistiram com Porfírio para que aceitasse a direção da diocese orfanada. Embora sua modéstia quisesse fugir dessa dignidade, à obediência teve de sujeitar-se. Existiam em Gaza muitos pagãos e um templo magnífico para o culto das divindades. Os idólatras, conhecendo já de antemão o zelo do novo Bispo, principalmente seu ódio ao culto pagão, assentaram matá-lo antes dele tomar posse do seu rebanho. Seu plano ímpio, por qualquer uma circunstância imprevista, não pôde ser efetuado. Bem se arrependeram da sua iniquidade, pois Porfírio, apesar de inimigo do paganismo, pela sua modéstia, paciência e caridade, soube ganhar os corações dos próprios pagãos. Um fato extraordinário, que se deu logo no princípio do seu governo, aumentou ainda a confiança e a veneração para com o novo Pastor. Uma seca atroz de muitos meses aniquilou as esperanças dos lavradores e o espectro de fome começou a apavorar os ânimos. Nesta expectativa desoladora, os sacerdotes de Marnas, a quem era devotado o templo, dirigiram-se a sua divindade com preces e sacrifícios para obter o alívio de uma chuva. Marnas, porém, chuva nenhuma mandou e a seca continuava a assolar a região. Porfírio, condoído com a miséria pública, ordenou um dia de jejum, organizou uma procissão de penitência a uma capela situada fora da cidade. Apenas recolhida a procissão, caiu uma chuva abundantíssima, refrigerando a terra ressecada. Muitos, vendo este espetáculo, e vendo nisto o grande poder do Deus dos cristãos, converteram-se. Outros, porém, encheram-se de inveja e forjaram novos planos malignos contra a vida do santo Bispo e a de alguns cristãos.

Entretanto, veio um edito do imperador Arcádio que ordenou o fechamento dos templos pagãos. Esta ordem foi por muitos funcionários obedecida, por outros não. Assim ficou aberto o templo de Marnas. Porfírio, desejando ardentemente a execução da ordem imperial, conseguiu em Constantinopla a autorização para derrubar o templo em Gaza.

A influência, porém, de ministros subordinados pelos sacerdotes pagãos, fez com que o imperador revogasse a autorização exarada. Não obstante, algum tempo depois, foi publicada nova ordem no mesmo sentido de fechar os templos pagãos, sob pena de os refratários perderem sua colocação, mas o templo não se fechou. A imperadora Eudóxia prometeu a Porfírio, empregar toda a sua influência junto ao imperador, para conseguir o fechamento e a destruição do templo. Porfírio, inspirado por Deus, predisse à imperatriz o advento de um filho. Logo que esta profecia se cumpriu, dirigiu-se o Bispo a Constantinopla, para administrar o Sacramento do Batismo ao príncipe herdeiro. Aconselhado pela imperatriz, Porfírio redigiu novamente seu requerimento ao imperador.

A petição foi entregue ao monarca logo depois do ato religioso, por assim dizer, pela criança recém-batizada. Arcádio achou-a depositada sobre o peito do filhinho. No momento em que a abria, a pessoa, que segurava nos braços a criancinha, disse-lhe:

“Digne-se Vossa Majestade de deferir o requerimento apresentado por seu filho”. O imperador respondeu com sorriso nos lábios: “Como poderia eu negar o primeiro pedido de meu filhinho?” — Foi imediatamente mandado para Gaza um oficial do exército, com ordem estrita de demolir o templo de Marnas. Poucos dias depois, quando Porfírio se aproximou da cidade, os cristãos, seus diocesanos, receberam-no com muita solenidade. O préstito havia de passar por um lugar por onde se achava uma imagem de Vênus, ponto predileto para reuniões de mulheres, que costumavam se encontrar lá para tratar projetos de casamentos. Mal o Bispo se achava defronte daquela estátua, quando esta, sem que pessoa lhe tivesse tocado, ruiu por terra, fazendo-se em pedaços. Este fato causou grande sensação e foi o início de muitas conversões. O templo de Marnas desapareceu e em seu lugar ergueu-se uma belíssima Igreja, dedicada a Deus vivo e verdadeiro.

O triunfo de Porfírio sobre a idolatria foi completo. Quando, em 421, Deus o chamou para o descanso eterno, o santo Bispo teve a grande satisfação de ver muito reduzido o número de pagãos em sua diocese.

Reflexões

1. Estando São Porfírio em Jerusalém, visitava diariamente os Santos Lugares, cuja história intimamente se liga à Sagrada Paixão e Morte de Nosso Senhor.

O que não te é possível na realidade, deves fazer em espírito. Deve estar bem viva em tua alma a lembrança da Paixão e Morte de teu Salvador. A meditação deste mistério da nossa religião não só fará em ti aumentar o amor e gratidão para com Jesus Cristo, como será um meio poderosíssimo de afastar-te do mal, que é o pecado, e dar-te um grande arrependimento das faltas que cometestes no passado. É a expressão da verdade, quando o Apóstolo diz, que é pelo pecado que Cristo aparece de novo crucificado. Se cada pecado grave equivale a uma nova crucificação de Jesus Cristo, quantas vezes já te fizeste culpado deste crime? “Todas às vezes que pecas gravemente, crucificas a Jesus Cristo”, diz o Cardeal Hugo. “Os pecadores — diz o mesmo Cardeal — crucificaram a Nosso Senhor, porque renovam e reproduzem a causa que levou a Cristo a sofrer e morrer na cruz”.

2. Em visão, Porfírio via Nosso Senhor no Calvário e ficou livre do mal que o torturava. Jesus recompensou desta maneira a devoção que seu servo tinha à sua Sagrada Paixão e Morte. Também tu verás teu Salvador, no dia em que virá, com grande poder, para julgar os vivos e os mortos. A visão que terás de teu Salvador, será para tua salvação eterna? Para que o seja, é preciso que o tenhas por amigo; é preciso que lhe sejas amigo; é preciso que tua vida não apresente nenhum ato que denuncie má vontade de tua parte. Se crucificares teu Senhor, cometendo pecado mortal, que esperanças poderás ter dele te aparecer como Salvador? “Temei ao Senhor, — diz o Apóstolo São João — e dai-lhe glória, porque é chegada a hora do seu juízo” (Apocalipse 14, 7).

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312