26 de agosto — São Genésio, Mártir

26 de agosto — São Genésio, Mártir
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Extraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

Jesus Cristo, que mostrou sua grande misericórdia na vocação de um publicano para Apóstolo, documentou as riquezas do seu coração na conversão de Genésio, o qual, da escola do vício, do teatro, foi chamado à glória do martírio.

Era por ocasião de uma visita do Imperador Diocleciano à cidade de Roma. Os romanos nada pouparam para dar ao monarca uma recepção soleníssima. À noite, houve grande espetáculo no teatro e, conhecendo os organizadores a antipatia de Diocleciano contra a religião católica, levaram à cena uma comédia, em que um dos atores, Genésio, teve a ideia de pôr ao ridículo as cerimônias do batismo. Fazendo isto, podia contar com o aplauso da plateia, que era hostil à religião de Cristo, e disposta sempre a ouvir pilhérias irreverentes e sarcásticas a respeito, quanto mais assistir a representações, em que eram ridicularizadas as instituições cristãs.

Genésio não era de todo ignorante, quanto às cerimônias cultuais do cristianismo; pois, tempos antes, com alguns amigos, tinha recebido instruções na religião dos cristãos. Feita uma ligeira introdução, deitou-se no chão, e, fingindo-se doente, começou em alta voz a gritar: “Meus amigos, sinto sobre mim um peso insuportável; livrai-me dele por favor!” — “Que é que havemos de fazer — perguntou um dos comediantes. — Que é que havemos de fazer para aliviar-te? Queres que te passemos a plaina sobre o corpo?”

"Nada disso, — replicou Genésio. O que quero é ser cristão, e como tal morrer, para que Deus me receba em seu reino, como fez a outros que, para se salvarem, abandonaram o culto dos deuses". Foram então chamados dois comediantes, dos quais um fazia o papel de sacerdote e outro de exorcista. Estes se postaram junto do "doente" e perguntaram: "Que desejas de nós?". No mesmo momento em que fizeram esta pergunta, se realizou em Genésio uma grande mudança. E já não era mais zombaria, mas a expressão de toda sinceridade: "Quero receber a graça de Jesus Cristo, para renascer e livrar-me dos meus pecados". Seguiu-se o batismo e Genésio recebeu das mãos dos atores a veste batismal. Outros, disfarçados em soldados, prenderam-no e conduziram-no perante o Imperador, para receber a sentença. Até aí todo o mundo julgou que se tratava de uma pilhéria. Genésio, porém, desiludiu-os completamente, quando disse: "Senhor e todos aqui presentes, oficiais do exército, sábios e cidadãos desta cidade, ouvi o que vos digo: Até hoje não podia ouvir pronunciar o nome cristão, sem sentir repugnância; ódio votava aos próprios parentes meus, por terem-se aliado àquela religião. Instrui-me nas suas práticas, para com tanto maior competência poder cobri-las de mofa e escárnio. — Mas no momento em que a água lustral tocou meu corpo, declarei com toda sinceridade crer tudo que me perguntaram e vi então sobre minha cabeça uma multidão de Anjos luminosos, que fizeram, como leitura de um livro, a enumeração dos meus pecados, desde a minha infância. Em seguida, imergiram o livro nas águas duma fonte, donde saiu branco como a neve. Senhor e vós cidadãos romanos que me ouvis e que vos rides dos mistérios do cristianismo, sabei que Jesus Cristo é o Deus verdadeiro, a Luz do mundo e a Verdade. Sabei ainda que só por Ele podereis alcançar o perdão dos vossos pecados''.

O Imperador, ouvindo esta declaração, irritou-se sobremaneira, dando ordem para que Genésio fosse açoitado e entregue ao comandante da guarda imperial, Planciano, o qual por seu turno entregou o pobre ator aos algozes, que o maltrataram desapiedadamente. Em meio do sofrimento se ouviu Genésio exclamar repetidas vezes: "Outro Senhor não há no mundo, a não ser Jesus Cristo. A ele adoro e quero servir, por ele quero morrer mil vezes. Não há martírio que possa arrancar do meu coração o amor a Jesus Cristo. Um remorso, uma dor tenho: de tê-lo ofendido tantas vezes e tão tarde o haver conhecido". Por estas palavras o juiz reconheceu a inutilidade de insistir com o sentenciado e condenou-o sumariamente à morte pela espada.

Os calendários antigos de Roma e Cartago ocupam-se do martírio de São Genésio, deixando, porém, o leitor em dúvida sobre o ano em que o mesmo se deu, se em 286 ou 303.

Reflexões

Deus é admirável na conversão dos pecadores, como prova a história da vida de São Genésio, cujo coração foi tocado pela graça divina, no momento em que ia praticar grande profanação dum sacramento. Ensina-nos este fato, que nunca devemos desprezar um pecador, por mais abjeto que nos pareça. Pela graça de Deus, pôde transformar-se em grande santo. O procedimento de Genésio merecia o mais forte castigo. Fatos mais ou menos semelhantes são conhecidos, que tiveram desfecho bem diferente: castigo evidente e repentino, como a morte súbita e outros. Também nós temos bastantes motivos para enaltecer a misericórdia divina, que não nos deixou morrer no pecado, mas deu-nos tempo para fazermos penitência. Como devemos agradecer a Deus esta graça inefável! "Mil vezes — exclamava o grande penitente Agostinho, — mil vezes poderíeis ter lançado a sentença condenatória sobre mim. Não o quisestes, porque tendes amor a minha alma". O mesmo sentimento deve encher a nossa alma, para nos tornar cada vez mais dignos da misericórdia divina.

Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:

Em Ventimiglia, na Ligúria, São Secundo, Mártir, oficial da Legião tebana.

Em Bérgamo, o martírio de Santo Alexandre, da Legião tebana.

Em Nicomédia, o martírio de Santo Adriano, filho do imperador Probo. Mostrando-se em desacordo com a perseguição dos cristãos, foi morto imediatamente. Seu corpo foi depositado em Argirópolis, por seu tio Domício, bispo de Constantinopla.

Na Espanha São Vítor, que morreu mártir na perseguição dos Mouros.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii