26 de abril — Santo Adalberto, Bispo e Mártir
26 de abril — Santo Adalberto, Bispo e MártirExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Adalberto, filho de pais ilustres, nasceu em 956, na Boêmia. Os planos ambiciosos que os pais tiveram para o seu filho foram atravessados pela Divina Providência. O menino adoeceu gravemente, o que levou a mãe a fazer o voto de entregar seu filhinho ao serviço de Deus, se se restabelecesse da doença. Adalberto de fato recuperou a saúde e seus pais, fiéis ao que prometeram, proporcionaram-lhe os meios para que fizesse os estudos necessários ao sacerdócio.
Adalberto recebeu o sacramento da Ordem em 983. Infelizmente, sua vida não se achava de acordo com a santidade de seu estado. O amor à liberdade arrastou-o ao caminho dos prazeres do mundo, fazendo-o esquecer-se totalmente das práticas da virtude e de piedade. Uma proteção especial de Deus preservou-o de quedas mais desastrosas.
A morte inesperada do seu Bispo e as circunstâncias que a acompanharam, abriram-lhe os olhos e mostraram-lhe o caminho da salvação. Thetarado ou Diethmar I de Praga, Bispo de grandes virtudes, vendo-se nas ânsias da morte, fora acometido de um temor tal dos juízos de Deus, que o fez exclamar: "Ai de mim, infeliz vítima da morte, que me transporta às portas do inferno, onde o verme não morre e o fogo não se extingue". Dizendo estas palavras, expirara. Adalberto, tendo sido testemunha desta cena, impressionou-se sobremodo e tomou a resolução de abandonar imediatamente a vida tíbia que levava e trabalhar decididamente na sua santificação.
Em cumprimento deste seu propósito, fez uma confissão geral e entregou-se seriamente aos exercícios de piedade e às práticas da virtude e de penitência.
Tão séria e radical tinha sido sua conversão, que o clero, na incumbência da eleição de um sucessor do falecido Bispo, propôs Adalberto para tão elevado cargo. Adalberto foi eleito Bispo de Praga e, desde aquele dia, nunca mais pessoa alguma o viu rir. Perguntado uma vez pelo motivo desta sua seriedade, disse: "Coisa fácil é levar a mitra e o báculo; mas terrível e pavorosa lembrança é aquela, de, como Bispo, dever prestar conta ao juiz dos vivos e dos mortos".
Uma vez Bispo, procurou imitar o exemplo de Bispos santos da Igreja. Dividiu seu tempo, de tal maneira, que todo ele pertencia ou às práticas de piedade, ou ao culto divino e ao estudo, ou às obrigações do seu cargo. Embora dispusesse de grandes emolumentos, só o necessário empregava em seu próprio favor, sendo a maior parte aplicada às necessidades de sacerdotes indigentes, ao resgate de pobres prisioneiros e aos pobres de sua diocese. Estes eram seus filhos prediletos e por eles era havido e venerado como pai.
Em certa ocasião, uma pobre mulher pediu-lhe uma esmola, quando se achava em caminho para sua casa. "Vem amanhã, filha, em minha casa, pois nada tenho comigo para que lho possa dar". Mal tinha proferido estas palavras, quando, arrependido de sua resposta negativa, chamou a mulher e lhe deu seu manto, dizendo: "Toma isto, porque não sei, se amanhã estarei vivo".
Seus diocesanos mal recompensaram o zelo e a dedicação de seu Pastor. Em vez de aceitar seus sábios e santos conselhos, entregaram-se cada vez mais aos vícios e, com isto, satisfeitos, cobriram de vitupérios e ultrajes o santo Bispo. Adalberto, considerando inútil envidar novos esforços para regenerar aquele povo, resolveu abandonar sua diocese. Fez uma viagem a Roma, com o propósito de visitar também os Santos Lugares da Palestina. A conselho dos religiosos do Monte Cassino, desistiu deste plano e ficou em Roma, onde, durante o espaço de dois anos, vivendo sob a regra de São Bento, no convento de São Bonifácio, se dedicou exclusivamente aos exercícios da vida religiosa.
Entretanto, seus diocesanos, tendo caído em si, com palavras de arrependimento e promessas para o futuro, pediram a seu Bispo que retomasse o governo de sua diocese, a que Adalberto com grande prazer acedeu. Sua entrada em Praga foi soleníssima e tudo prometeu melhor êxito.
Quando, porém, o Bispo recomeçou sua atividade apostólica, verberando os abusos e vícios que por toda parte predominavam; quando tratou seriamente de conduzir seu rebanho ao caminho do dever e da virtude, encontrou novamente a maior resistência. Adalberto sacudiu então o pó das sandálias e voltou para Roma, desta vez com a firme resolução de não mais voltar e terminar seus dias entre as paredes do convento.
O Imperador Otão III, à frente de um grande exército, achava-se em caminho a Roma, para ser solenemente coroado pelo Papa. Em Ravena alcançou-o a notícia da morte do Papa João XV e o pedido dos Romanos, de dar à Igreja um digno chefe. Otão propôs para esta dignidade seu capelão, o qual foi recebido em Roma com grande entusiasmo e, reconhecido Papa, tomou o nome de Gregório V. Otão depois fez sua entrada na capital da Cristandade e realizou-se a cerimônia da coroação.
Nesta ocasião, o Arcebispo de Mogúncia insistiu muito com o Papa, para que Adalberto fosse restituído ao seu Bispado, não sendo justificável que uma diocese ficasse sem seu Pastor. Esta reclamação, apoiada pelo imperador, foi por Gregório prontamente atendida e Adalberto recebeu ordem para voltar a Praga, com a concessão, porém, de poder-se dirigir a qualquer outra parte, para pregar o Evangelho de Cristo, caso não fosse bem recebido pelos seus diocesanos.
Antes de voltar para Praga, quis Adalberto, por prudência, saber a opinião do seu íntimo amigo Boleslau, duque da Polônia. Boleslau aconselhou-o que, em vez de pessoalmente, por intermédio de emissários, estudasse o espírito dos Praguenses, e deles saber se aceitariam de bom grado seu Bispo, prontos a se sujeitarem às suas ordens. Seguiram os emissários. A recepção que tiveram foi de tal maneira injuriosa, que Adalberto não mais pensou em voltar para sua diocese.
Os Prussianos eram ainda pagãos e era desejo de Boleslau, que Adalberto se dedicasse à conversão dos mesmos. Acompanhado de alguns sacerdotes, Adalberto atravessou a Polônia e chegou à terra dos Prussianos.
Com muito fervor, os missionários se entregaram à obra da catequese. Seu trabalho foi coroado de brilhante êxito, principalmente na cidade de Danzig, cujos habitantes, em sua maioria, se converteram ao cristianismo.
Tanta glória para Cristo não podia deixar indiferente o inferno, que se levantou com toda sua fúria. Os sacerdotes das divindades nacionais expulsaram os missionários, atirando-lhes as maiores injúrias. Adalberto, em vista desta guerra atroz, resolveu abandonar temporariamente seu campo de ação. Quando se achava já fora da zona interessada, os perseguidores ainda o alcançaram, traiçoeiramente o surpreenderam e o mataram com sete lançadas. Depois, cortaram-lhe a cabeça e levaram-na em triunfo para casa. Sabendo que Boleslau tinha muita veneração pelo mártir, vieram-lhe oferecer o corpo do mesmo, exigindo um resgate de tanto ouro e prata, quanto fosse o peso do cadáver.
Boleslau mandou depositar o corpo do Mártir no convento de Tremezno. Mais tarde, foi ele transladado para a Catedral de Gnesen. Muitos milagres que Deus operou por intermédio do seu Servo, provaram a santidade do mesmo.
Adalberto morreu aos 25 de abril de 997.
Reflexões
A agonia da morte de um Bispo, que Santo Adalberto assistiu, fez com que mudasse inteiramente seu modo de viver. Quem não deseja ter uma morte tranquila e santa? O próprio Balaão a desejou, quando disse: "Que minha alma tenha a morte do justo" (Números 23, 10). De nada lhe valeu este desejo, porque continuou a viver impiamente. Engana-se aquele que, na vida, andando com os pecadores, espera ter uma morte santa. A morte é geralmente o eco da vida. A conversão sincera do pecador na hora da morte é um milagre da divina misericórdia. "Não vos enganeis" — escreveu São Paulo aos Gálatas —, de Deus não se zomba. Porque aquilo que o homem semear, isso também colherá. Porquanto quem semeia na sua carne, da carne também colherá corrupção; mas quem semeia no Espírito, do Espírito segará a vida eterna" (Gálatas 6, 7-8). Que outra coisa quer dizer estas palavras, senão: da maneira que viveu o homem, assim morrerá. Daí é fácil deduzires, que caminho preferes trilhar?
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩