25 de fevereiro — São Tarásio
25 de fevereiro — São TarásioExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
São Tarásio, natural de Constantinopla, foi um dos Patriarcas mais célebres da Igreja Oriental. Seu pai, nobre patrício, e bom cristão, teve todo o empenho de proporcionar-lhe uma boa educação. O filho satisfez perfeitamente aos desejos e esperanças de seu progenitor, tanto que, uma vez conhecido na sociedade, era objeto de admiração de todos, por causa do seu saber e do seu belo caráter. Abriam-se ao seu futuro as perspectivas mais risonhas e prometedoras. Convidado pelo imperador Constantino VI e sua mãe Irene, ocupou o cargo de cônsul e mais tarde de secretário do Estado. Os atrativos do mundo, o brilho de posições elevadas não conseguiram, entretanto, ofuscar-lhe a vista. A vida na corte, tão cheia de seduções e escolhos para a virtude, em nada modificou seus sentimentos de piedade e a sobriedade de seu caráter. A todos e em todas as emergências dava o exemplo de cristão reto.
Havia no Oriente uma seita que combatia o culto das imagens, chamada a dos iconoclastas. Paulo III, Patriarca de Constantinopla, embora merecedor dos maiores elogios, como Prelado virtuosíssimo e caridoso que era, teve a fraqueza de não se opor à perniciosa seita, com a energia que as circunstâncias exigiam, tanto que a opinião de muitos católicos o acoimava como fautor da mesma. Uma doença grave, que Deus lhe mandou, abriu-lhe os olhos. Muito arrependido do erro que cometera, renunciou seu cargo e retirou-se para a solidão, a fim de fazer penitência. Tão firme ficou no seu propósito, que amigos íntimos não o puderam demover seu intento. Uma visita da própria Imperatriz Irene e suas insistências para que voltasse ao seu cargo, não tiveram melhor resultado.
Paulo tomou o hábito de monge e propôs Tarásio para seu sucessor. A indicação não podia ser mais acertada, apesar de Tarásio se opor com toda a energia. Paulo morreu pouco depois e Tarásio recebeu a sagração patriarcal na festa do Natal de 748. Uma das condições principais, sob as quais Tarásio tinha aceitado o cargo de Patriarca, foi a convocação de um concílio que decidisse a questão do culto das imagens. O concílio se realizou em Niceia, na Bitínia, e o resultado foi a anatematização da heresia dos iconoclastas.
Tarásio, na compreensão nítida de sua alta missão de Bispo e Patriarca, praticou as virtudes cristãs, procurando, ao mesmo tempo, implantá-las na alma do povo. A todos dava o exemplo da caridade prática, convidando a pobreza para com ele partilhar as refeições em seu palácio. Esta sua praxe não teve a aprovação de todos, e houve quem o censurasse por isso, querendo fazê-lo ver que a caridade, assim compreendida e efetuada, não condizia com a dignidade que representava como Patriarca. “Minha ambição única — respondia Tarásio — é imitar Nosso Senhor Jesus Cristo, que veio para servir aos outros e não para ser servido”.
Para que o povo tivesse sempre mestres que o instruíssem na religião e o defendessem contra as heresias, Tarásio fundou alguns conventos e tudo fez para que nada faltasse ao seu rebanho, que a Divina Providência aos seus cuidados confiara.
Tanto zelo, tanta dedicação não podia subsistir, sem que o inferno contra eles se enfurecesse. Não só iconoclastas, como também maus católicos, moveram uma campanha atroz contra o Prelado. À campanha aberta preferiram a encoberta, e muitos meses não passaram sem que Tarásio se visse emaranhado nas malhas da calúnia de toda a espécie.
O Bispo opôs à vil campanha as armas da fé em Deus, da paciência e da caridade.
O imperador, tomado de amores ilícitos por uma dama da corte, forjando uma vil acusação contra sua esposa, requereu do Patriarca o divórcio, para contrair matrimônio com Teódota, era esse o nome da adúltera. Tarásio opôs-se ao alvitre do monarca, pediu que desistisse do seu ímpio projeto e ameaçou com os efeitos da vingança divina. Constantino, cego de paixão, não tomando em consideração as advertências e conselhos do Patriarca, exigiu dele a aprovação do seu casamento com Teódota, alegando — infelizmente com razão — a atitude de Patriarcas anteriores, em condições idênticas. Tarásio, porém, ficou firme e disse: “Mais temo de cair em desagrado do Rei dos reis, que perder as boas graças dum rei mortal”. Constantino, uma vez no caminho dos desregramentos, adotou o sistema monárquico absoluto, afastando sua mãe da gerência nas coisas da política. Irene soube vingar-se. Se no princípio disfarçadamente, mais tarde fez guerra aberta ao filho; moveu contra ele elementos poderosos militares. Constantino foi preso; por ordem da mãe, arrancaram-lhe os olhos com tanta crueldade, que morreu em consequência disso. Irene subiu novamente ao trono, mas seu governo pouca duração teve. Vento semeara, tempestade havia de colher e colheu. Em 802 foi derrubada do poder e desterrada para Lesbos, onde morreu desgostosa.
Pela morte de Constantino, voltaram para Tarásio dias de sossego, que não mais foi perturbado por novas lutas. Tanto Irene, como seu sucessor Nicéforo I, deixaram a Igreja em paz. Vinte e dois anos pôde Tarásio governar seu patriarcado, dedicando-se de corpo e alma aos trabalhos da vinha de Cristo.
Embora já velho e doente, celebrava todos os dias o Santo Sacrifício da Missa, preparando-se assim santamente para a morte.
Antes de entregar sua alma ao eterno repouso, o demônio armou-lhe uma luta terrível, molestando e martirizando-o com pensamentos de desespero. Pessoas que o puderam observar de perto, viram-no tremer no corpo todo, acusando sinais de temor e de angústia. Uma ou outra vez ouviram-no exclamar: “Não fiz tal coisa! É mentira!” — “Sim, isto eu fiz, mas confessei-me sinceramente e espero em Deus misericórdia”. — Os circunstantes, observando esta luta entre a alma e o demônio, se puseram a rezar fervorosamente. Tarásio, livre daquele pesadelo terrível, serenamente entregou sua alma a Deus em 806.
Quatorze anos depois da morte de Tarásio, o imperador Leão V, amigo dos iconoclastas, viu em sonhos o falecido Patriarca, que lhe lançava olhares ameaçadores, dando a um tal Miguel ordem para que o matasse. Em vão procurou Leão V descobrir esse Miguel. Seis dias depois foi assassinado por Miguel, o Gago, que se apoderou do trono imperial.
Reflexões
1. O culto das imagens tem inimigos também em nossos dias. Os protestantes, invocando a autoridade bíblica, reprovam a veneração das imagens e chamam-nos de idólatras. De Deus Padre, do Espírito Santo, do mistério da Eucaristia, dos Anjos, temos apenas emblemas, símbolos, não imagens. Imagem é possível só que se faça de pessoas visíveis, como de Nosso Senhor, de Nossa Senhora, dos Santos Apóstolos etc. A veneração das imagens é antiquíssima na Igreja e de origem apostólica. Não veneramos a imagem em si, não se lhe dando de que matéria a mesma seja feita, ou que possua um poder sobrenatural e maravilhoso, o que seria superstição e idolatria. Nós veneramos as imagens por serem representações de pessoas que amamos e veneramos. Venerando uma imagem sacra, mostramos: 1º) o nosso afeto à pessoa por ela representada, como temos amor ao retrato de pessoas queridas; 2º) reanimamo-nos na fé e na imitação das virtudes dos Santos; 3º) excitamos a nossa devoção e o nosso amor a Deus e aos seus santos Servos.
2. Vemos que os próprios Santos passam pelo fogo da tentação e da tribulação. O demônio é um terrível acusador. Na hora da nossa morte não faltará sua presença. Oxalá, como São Tarásio, possamos-lhe responder de consciência tranquila e repelir as acusações, que se levantará contra nós . “A confissão — diz Santo Agostinho — fecha as fauces do inferno e abre as portas do paraíso”. Confiemos em Deus e façamos boa confissão dos nossos pecados. “Se confessarmos os nossos pecados, — diz São João — Deus é fiel e justo para nos perdoar os pecados e para nos purificar de toda iniquidade” (I João 1, 9).
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩