24 de julho — Santa Julita, Mártir
24 de julho — Santa Julita, MártirExtraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Diocleciano, imperador romano, firmemente se propusera a exterminar a religião cristã e para este fim, em 303, promulgou uma lei, que declarava os cristãos privados dos direitos de cidadão. Sem defesa e proteção — assim calculava o tirano, — entregues às arbitrariedades dos inimigos, os cristãos haviam de abandonar a religião e dessa maneira dar novo incremento ao paganismo romano, visivelmente decadente. Não sabia que o cristianismo colhe os maiores triunfos quando é perseguido, e que a religião de Jesus Cristo eleva a natureza sobre todas as dificuldades e misérias, dando-lhe poder invencível sobre o mundo e o inferno. O martírio de Santa Julita confirma esta verdade.
Santa Julita residia em Cesareia, na Capadócia, onde possuía grandes bens imóveis, numeroso gado e muitos escravos. Mais que a nobreza, davam-lhe valor as belas qualidades, as virtudes e a firmeza de caráter. Por um dos poderosos da terra fora gravemente prejudicada e perdeu grande parte da fortuna. Julita protestou contra a injustiça sofrida e apresentou a causa ao tribunal.
O juiz, corrompido pelo adversário, desde logo declarou que Julita, sendo cristã, nenhuma apelação tinha direito de fazer, e das leis nenhuma defesa e garantia havia de esperar, enquanto permanecesse nas superstições religiosas do cristianismo. Foi mais além: Na própria audiência mandou que trouxessem incenso e fogo, querendo obrigar Julita a prestar homenagem a uma divindade pagã. Resolutamente a nobre senhora respondeu: "Se quiserdes a minha fortuna, os meus bens, a minha própria vida, tudo está ao vosso dispor. Nunca, porém, conseguireis de mim que diga ou faça com que ofenda a Deus, meu Criador".
Brutal e injustíssima foi a sentença que se seguiu a essa declaração franca e heroica. Não só o juiz legalizou o roubo, de que Julita fora vítima, como ainda a condenou à morte pelo fogo.
Julita ouviu a sentença sem a menor perturbação e, longe de se queixar da injustiça, louvou a Deus por ter-lhe reservado graça tão preciosa, como é a do martírio. Os próprios pagãos admiraram-se da coragem e firmeza, com que Julita aceitou o julgamento e com palavras procurou animar os cristãos, cujo espírito, sob o peso brutal e formidável das leis da perseguição, ameaçava desfalecer. Às companheiras e amigas disse as seguintes palavras: “Não vos entregueis à fraqueza e ao sentimentalismo, quando é vosso dever sofrer pela vossa fé. Não vos desculpeis com a delicadeza do vosso sexo. Somos feitos do mesmo barro que os homens; como eles, somos imagens de Deus. Como o homem, a mulher também é criada e formada por Deus e semelhante ao homem, é capaz de praticar todas as virtudes. Por isto Deus exige de nós que mostremos, como os homens, uma firmeza inabalável na fé, a mesma perseverança e paciência nos sofrimentos”.
Foram estes os sentimentos que a acompanharam até à fogueira, à qual subiu como rainha ao trono. Deus renovou em Santa Julita o milagre observado na morte de São Policarpo: As labaredas formaram um arco, ao redor do corpo da mártir, sem lhe causarem o menor mal. Sem ser tocada pelas chamas, Santa Julita exalou o espírito. Os cristãos obtiveram o cadáver da mártir e sepultaram-no no adro da Igreja principal de Cesareia.
No lugar onde o corpo da Santa achou a última morada, apareceu uma fonte de água saborosa, quando a água na redondeza era salgada e impotável.
Muitos milagres glorificaram o túmulo da serva e fiel discípula do Senhor. São Basílio, num dos discursos, a propõe aos homens, como exemplo e modelo na firmeza da fé, que deviam imitar.
Reflexões
Em defesa dos bens, contra injusta opressão, Julita apelou para a justiça legal. Vendo, porém, que os que a deviam defender, eram os primeiros a declarar-se contra suas justas reclamações; vendo mais que a perseguição procedia do ódio contra a religião, Julita conformou-se com a sentença injustíssima, que não só lhe desfalcou a fortuna, como também lhe exigiu o sacrifício da vida — Está no direito do cristão, quando com o trabalho procura aumentar a fortuna e a defende contra injusta agressão. Nunca, porém, lhe é licito apegar-se às coisas deste mundo de tal maneira que, para se lhe assegurar da posse, não recue diante de um pecado contra Deus. Como Santa Julita, deve dizer: “Tirem-se-me todos os meus bens, a própria vida, se quiserem; longe de mim, porém, praticar um ato sequer, que desagrade a Deus!” Se todos observassem esta regra áurea, não haveria tanta luta, tanta discórdia entre os homens, por causa dos bens deste mundo. “Ai daquele — exclamou o profeta Jeremias, — que edifica sua casa na injustiça; e as grandes salas não em qualidade; ao amigo oprimirá sem causa e não lhe pagará o salário. Que diz: edificarei para mim uma casa espaçosa e magníficos salões… Acaso teu pai não comeu e bebeu e foi feliz, praticando a equidade e justiça? Julgou a casa do pobre e do indigente para bem seu; e não foi isto porque me conheceu? — diz o Senhor. Mas os teus olhos e coração dirigem-se à avareza e a derramar sangue inocente, e à calúnia e à carreira da obra má” (Jeremias 22, 13). “Ai daquele, que acrescenta o que não é seu! Até quando amontoa ele também contra si o lodo?… Ai daquele que, por avareza criminosa, junta bens para estabelecer a sua casa, a fim de que lhe esteja em lugar alto o ninho e que julga livrar-se da mão do mal… Mas a pedra clamará da parede contra ti e o madeiramento que serve de travessão ao edifício, responderá” (Habacuc 2, 6).
Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:
Em Roma, na Via Tiburtina: São Vicente, mártir.
Em Amiterno, nos Abruzos o martírio de oitenta e três soldados.
Em Mérida, na Espanha, São Vítor, oficial militar, com seus irmãos Estercacio e Antinógenes, na perseguição de Diocleciano. 3. sec.
Os santos mártires Meneo e Capitón. 3. sec.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii ↩