24 de julho — Santa Cristina, Virgem e Mártir
24 de julho — Santa Cristina, Virgem e MártirExtraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Coroa belíssima cinge a cabeça de Cristina, menina de doze anos, celebrada e exaltada nos fastos das Igrejas Oriental e Ocidental. Embora nas biografias desta Santa nem sempre prevaleça perfeita concordância nos relatos sobre sua origem e a vida, alguma coisa é aproveitável, e como certa, pode servir à nossa edificação.
Cristina era filha de Urbano, oficial do exército em Tiro, na Toscana, homem de rudes sentimentos e inimigo do nome cristão. Em sua casa havia uma espécie de tribunal, e muitas vezes aconteceu que cristãos, apanhados pela soldadesca, sofressem duros vexames nos interrogatórios a que foram submetidos. Cristina, presenciando às vezes fatos e cenas impressionantes deste gênero, enchia-se de veneração àquelas vítimas da intolerância pagã, sem poder achar uma explicação plausível para a serenidade, a paciência, a alegria com que os cristãos sofriam toda a sorte de crueldades. Curiosa de saber o motivo desta calma, resignação e alegria dos cristãos no meio de tantos sofrimentos, inquiriu das empregadas e escravas, das quais somente uma soube lhe dar a verdadeira explicação, uma que era cristã e da qual recebeu também as primeiras instruções sobre o cristianismo, e que a preparou para o santo batismo, no qual lhe foi mudado o nome em Cristina.
Urbano, cismado com o vivo interesse da filha pelos cristãos, e pela compaixão que esta demonstrava, vendo-os sofrer tanto, destinou-lhe um apartamento luxuoso, adornado de ídolos raros e preciosos, aos quais devia queimar incenso diariamente, em presença de algumas escravas de confiança, que ordem tinham de velar sobre a fiel e pontual execução desta cerimônia de rito pagão.
Cristina, por sua vez, transformou sua nova morada em oratório, sem, entretanto, acender uma vela e queimar incenso às imagens das divindades. As escravas delicadamente advertiram: "Sete dias já são passados, e a senhora ainda não rendeu homenagem aos deuses; estes se irritarão contra nós e nos castigarão"; a que Cristina respondeu: “Tolo é vosso medo, tola a vossa advertência; diante de um deus cego eu não acendo uma vela; a um deus surdo não peço favores; ao Deus vivo, ao Senhor do céu e da terra, sim, a este eu apresento o sacrifício da verdade e do amor”. As empregadas relataram a Urbano o que tinha acontecido, e este ainda mais insistiu no fiel cumprimento das suas ordens, ameaçando com severa punição, caso Cristina persistisse em negar culto aos deuses.
Cristina não se perturbou e nem tão pouco se dispôs a sacrificar às imagens; horas mortas da noite saía de sua residência, assistia às reuniões e ao santo sacrifício dos cristãos, visitava os encarcerados, aos quais levava mantimentos e dava aos pobres tudo que possuía. Justamente o amor aos pobres deu-lhe coragem a ponto de despedaçar as imagens preciosas, e, pondo-as à venda, desta maneira adquiriu os meios para dar pão e subsistência aos necessitados.
O efeito deste gesto não se fez esperar. O pai, posto a par dos acontecimentos, furioso, increpou a filha: “Insensata, é assim que te atreves a desrespeitar os deuses?” Cristina, procurando desculpar, com mansidão respondeu: “Mas, meu pai, não são deuses estas imagens, que sua filha pôde pôr em pedaços; são apenas figuras de metal, sem vida e sem poder. Deus há um só, o Eterno, o Invisível; é este o Deus que eu adoro”. A resposta do pai foi uma agressão brutal, seguida da ordem a uns escravos, de aplicar à filha desapiedadas chicotadas. A execução foi tão bárbara, que deixou a vítima prostrada em uma poça de sangue. Não satisfeito com este castigo, Urbano decretou ainda o encarceramento de Cristina. Ele mesmo, sobremodo excitado, vexado e humilhado, fechou-se nos seus aposentos, não dando acesso a ninguém. Entre os parentes levantou-se um grande rumor. Ao cárcere foram em altos lamentos, entre lágrimas, soluços e brados pediram a Cristina, cedesse à vontade do pai. A donzela ficou firme. A tudo respondia: "Deixar a vida, não me custa; abandonar minha fé, isto nunca!" Urbano procedeu a outra tortura. Mandou amarrar a filha sobre a roda; esta movia sobre um braseiro e, para intensificar ainda as queimaduras em carne viva, o desumano pai mandou despejar azeite sobre o corpo da mártir. O plano do carrasco falhou; pois um anjo apareceu em defesa da virgem, e as labaredas, que lhe deviam comer as carnes, atacaram os carrascos, dos quais alguns receberam ferimentos graves, em cuja consequência morreram. Longe de abandonar a sua ira, e perdoar a filha, Urbano nova ordem deu para ela ser encarcerada. A tal ponto de exaltação chegou, que teve um colapso, que o prostrou morto.
Cristina muito chorou o triste fim de seu progenitor, e dia e noite pedia a Deus a graça para si da perseverança.
Dio, sucessor de Urbano, quis oferecer ocasião a Cristina de se reabilitar na religião oficial e ordenou que fosse conduzida ao templo de Apolo. Apenas a donzela transpôs o limiar do santuário, o ídolo, como movido por mão misteriosa, se despenhou do seu alto pedestal, e quebrou em pedaços. Diante deste fato, Dio resolveu pôr termo ao processo e fê-lo de uma maneira bárbara. Mandou encher de azeite e piche uma tina de ferro, colocá-la sobre o fogo e, estando em ebulição a horrível mistura, deu ordem para que a menina fosse metida no fervedouro. Cristina fez o sinal da cruz, e, dispensando o auxílio de outra pessoa, se mergulhou no líquido efervescente, sem que este lhe produzisse a mais leve queimadura. Em altas vozes rendeu graças a Deus e jubilosa cantou o louvor do Altíssimo. Como tocado por um raio, Dio caiu por terra, morto. Muitas pessoas que presenciaram esta cena, converteram-se ao cristianismo. Cristina voltou para o cárcere.
Pela terceira vez teve que passar pela prova do fogo, mas a mão de Deus visivelmente a protegeu. Metida no meio de cobras venenosas, nenhuma serpente a ofendeu. Mandou o tirano Juliano, sucessor de Dio, que lhe cortassem a língua, mas Cristina, ainda assim, com voz sonora, cantou louvor a Deus, milagre este que ganhou muitos pagãos a Cristo. Envergonhado pelos triunfos da jovem mártir, o tirano deu ordem para que fosse morta a flechadas, ordem esta que foi executada imediatamente. Com ardente desejo, Cristina recebeu no coração o golpe mortífero, que fez sua alma voar para os páramos eternos. Um parente, pouco antes convertido ao cristianismo, deu-lhe sepultura honrosa.
Reflexões
Que firmeza de fé admirável numa menina de doze anos, que era Santa Cristina! Nada, nem louvores, nem ameaças, e muito menos aplicações bárbaras de requintada crueldade, como só ódio cego a Deus era capaz de produzir, conseguiram demovê-la do caminho da verdade e do divino amor. — Firmeza, perseverança é de todas as virtudes a mais necessária, não só para os mártires, como também para nós, que não nos vemos sujeitos a provas tão duras como Santa Cristina.
Começar bem não é difícil; difícil ainda não é consagrar a alma a Deus; sem maior dificuldade se consegue vencer nos primeiros combates da vida religiosa; perseverar, porém, resistir constantemente às tentações, vencer hoje e sempre toda a sorte de dificuldades, reagir firmemente contra influências malignas, remover obstáculos e empecilhos, praticar a virtude em circunstâncias desfavoráveis, é coisa, que requer maior energia e fortaleza de espírito. São Jerônimo diz: “Muitos começam, poucos chegam ao ponto culminante; não perseveram, desanimam, desfalecem”. De Nosso Senhor é este aviso: “Só quem persevera, será coroado” (Mateus 24, 13).
Seremos perseverantes? Sem dúvida, mas só a preço de muito orar. A graça da perseverança final é alcançada pela oração, e, principalmente, pelo fidelíssimo cumprimento do dever. Também nas coisas mais insignificantes. “Quem não é fiel em coisas pequenas, pouco a pouco cairá” (Lucas 16, 10). São Bernardo, aludindo à obediência de Cristo até à morte, diz: “Por mais que correres, se não correres até à morte não alcançarás o prêmio”.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii ↩