24 de janeiro — São Timóteo, Bispo e Mártir

24 de janeiro — São Timóteo, Bispo e Mártir
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Extraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

Os termos elogiosos em que São Paulo enaltece as virtudes de seu discípulo Timóteo, são provas do alto valor do mesmo. Nas epístolas do Apóstolo das Gentes, lemos expressões como: meu diletíssimo filho, meu fiel colaborador, servo de Cristo, meu irmão e servo de Deus no Evangelho, que não procura a si, mas a Cristo, Nosso Senhor — todas referentes a Timóteo.

Timóteo nasceu em Listra, na Licaônia. O pai era pagão, casado com uma hebreia, de nome Eunice, mãe de Timóteo. Eunice abraçou a religião de Cristo quando São Paulo esteve em Listra. De sua mãe Timóteo recebeu o espírito cristão. Na sua segunda chegada em Listra, São Paulo levou consigo o jovem Timóteo, na sua travessia pela Ásia Menor. Os dois Apóstolos passaram pela Macedônia, pregaram aos Tessalonicenses, aos Filipenses e aos Beroenses. Os judeus expulsaram a São Paulo e ficou Timóteo continuando a obra da pregação. Mais tarde, o vemos em Atenas, para onde seu mestre o tinha ordenado. Uma cruel perseguição que viera sobre os cristãos em Tessalônica, fez com que Timóteo para lá voltasse, para confortar e consolar seus irmãos em Cristo. De Tessalônica se dirigiu a Corinto, onde se encontrou com São Paulo. Coincide com esta época a composição da epístola de São Paulo aos Tessalonicenses. De Corinto continuaram sua viagem e chegaram em Jerusalém e Éfeso. São Paulo mandou a Timóteo e Erasto para Macedônia, com a ordem de arrecadar subsídios para os cristãos perseguidos em Jerusalém.

Havendo-se introduzido abusos na Igreja de Corinto, para lá voltou Timóteo, acompanhado de uma carta recomendatória de seu mestre (I Coríntios 16, 10). Este o esperou na Ásia, para depois em sua companhia ir a Macedônia e Acaia. Voltando para a Palestina, o Apóstolo foi preso e passou dois anos na prisão. É provável que Timóteo tenha sido seu companheiro nesta provação. Paulo foi levado para Roma, Timóteo posto em liberdade. Quando Paulo voltou de Roma, Timóteo já era bispo e nesta qualidade foi por seu mestre mandado para Éfeso, donde devia governar a Igreja da Ásia Menor.

Paulo se achava na Macedônia, quando escreveu sua primeira epístola a Timóteo. Uma segunda foi escrita, de Roma, no ano 65. Ambas as epístolas são documentos preciosíssimos, em que o grande Apóstolo revela a amizade que o ligava a seu discípulo. Convida-o com muito empenho para que o visitasse em Roma e lhe desse a satisfação de vê-lo mais uma vez antes de morrer; dá-lhe instruções úteis sobre o modo como se deve haver com os hereges; prediz novas heresias e suas consequências (II Timóteo 31, 2).

Das epístolas de São Paulo, deduzimos que Timóteo era muito mortificado. Sofrendo de fraqueza de estômago, seu mestre aconselha-o tomar de vez em quando um pouco de vinho.

São Timóteo é considerado o primeiro Bispo de Éfeso, que lá se achava, quando chegou São João Evangelista, para assumir a direção das Igrejas da Ásia.

As atas do martírio de São Timóteo, que datam do quinto ou sexto século, dizem da sua morte o seguinte: “No ano de 97, quando era imperador Nerva, os pagãos fizeram uma grande festa em homenagem aos deuses e nesta ocasião organizaram um préstito no qual levaram as imagens, cometendo muitas indignidades. Vendo esta abominação, Timóteo se pôs no meio dos idólatras e verberou energicamente o procedimento escandaloso. Sua franqueza apostólica provocou uma ira tal da parte dos pagãos, que se precipitaram contra ele e o mataram a pedradas e pauladas.

Reflexões

O jejum era fiel e inseparável companheiro dos trabalhos apostólicos de São Timóteo. A Igreja impõe o jejum a seus filhos como uma lei de grave obrigação. Tantas, porém, são as desculpas alegadas, que praticamente é um número reduzidíssimo de cristãos que a cumpre. O nosso tempo tem horror ao sacrifício. Quando então é um sacrifício imposto pela religião, qualquer motivo serve para muitos se eximir do seu cumprimento. A praxe dos Santos é inteiramente diferente. Os Santos dão muita importância às mortificações do corpo, privando-se voluntariamente de prazeres lícitos, para com maior facilidade se poderem afastar dos ilícitos (São Gregório). Sem as mortificações da carne será difícil senão impossível vencer e dominar as paixões. “Eu sinto em meu corpo uma outra lei, que contraria a lei do espírito”, confessa o próprio São Paulo. É o mesmo Apóstolo que diz: “Aqueles que pretendem pertencer a Cristo, devem crucificar a carne com seus apetites” (Gálatas 5, 24). Se o Apóstolo São Paulo, se seu discípulo São Timóteo acharam necessário “castigar seu corpo e o reduzir à servidão’ (I Coríntios 9, 27), como podem então o jejum e a abstinência ser considerados medidas exageradas de penitência por aqueles que em seu corpo levam constantemente a lei do pecado?

A Igreja não exige de seus filhos a execução de penitências que debilitam o organismo e afetam a saúde. Estão isentos da lei do jejum todos aqueles, que por causa da idade, de trabalhos pesados e de doença não se acham em condições de o cumprir. Mas aqueles outros que muito bem podiam jejuar, não deviam fazer uma explicação mais larga da lei utilíssima e procurar toda a sorte de desculpas para dela se eximir. Nos tempos em que os homens eram mais santos, mais puros e crentes, havia mais consciência também neste ponto, e a lei do jejum era observada com todo o rigor, sem murmuração alguma. Em nosso século, porém, que tem o estigma de material, sensual e tíbio; neste século, onde a sensualidade e a sede de prazeres enchem a atmosfera, há reclamações, protestos e objeções de toda sorte contra a abstinência e o jejum. Que será de nós, se, em vez de crucificar a nossa carne, cada vez mais a lisonjeamos? Grandes servos de Deus, na incerteza de salvar sua alma, recorriam à penitência — e nós, infelizes escravos da concupiscência, vítimas das nossas paixões pretendemos poder andar sossegadamente no largo caminho da perdição, procurando alargá-lo ainda mais. Como falou Cristo, recordemos: “Estreita é a porta e apertado o caminho, que guia para a vida eterna” (Mateus 7, 14).

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312