24 de dezembro — Santas Tarsila e Emiliana, Virgens

24 de dezembro — Santas Tarsila e Emiliana, Virgens
, ,

Extraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

Gordiano, senador romano e pai do Santo Papa Gregório, tinha três irmãs, que se dedicaram ao serviço de Deus e lhe votaram a sua virgindade. Eram Tarsila, Gordiana e Emiliana. Quase ao mesmo tempo, estas três donzelas tinham tomado tão santas resoluções, e viviam na casa paterna como em um convento, animando-se mutuamente, pela palavra e pelo exemplo, para prosseguir na senda da perfeição. O progresso que faziam na prática das virtudes, parecia igual em todas as três. Depois de alguns anos, porém, podia-se notar uma mudança no estado das coisas. Tarsila e Emiliana de tal maneira se desapegaram das coisas do mundo, a tal grau chegaram na união com Deus, que pareciam ter-se esquecido do corpo, vivendo unicamente em espírito. Tal não se dava com Gordiana. Esta perdeu o primitivo zelo, arrefeceu no amor de Deus, que antes a incendiara. Tornou-se tépida e abriu o coração ao amor do mundo. Esta mudança muito entristeceu as duas irmãs, que tudo fizeram para que Gordiana se lembrasse dos deveres e voltasse às práticas da religião, que abandonara.

Realmente conseguiram que Gordiana recomeçasse a vida fervorosa, como antes a praticava. Mas foi passageira a mudança; Gordiana recaiu, e mais ainda do que a primeira vez, se deixou levar pela simpatia do mundo e seus prazeres. O silêncio, o recolhimento, a companhia das irmãs e de outras pessoas devotas, se tornaram-lhe intoleráveis e, em lugar destas, começou a procurar a companhia e a amizade de pessoas da sociedade. Tarsila e Emiliana continuaram na vida santa de antes, lamentando profundamente o desvario da irmã. Tarsila, mais ainda que Emiliana, se aperfeiçoava na vida interior e, mais cedo que esta, parece ter alcançado o fim desejado. São Gregório, seu sobrinho, fala de uma visão que a Santa teve, nos últimos dias de vida. Ela viu o Papa Félix (de que era parenta), que lhe mostrava uma moradia belíssima, rodeada de luz, que devia ocupar. No dia que se seguiu a esta visão, Tarsila foi acometida de uma febre alta e adoeceu gravemente. Agonizante já, parecia acordar de um profundo sono e exclamava em alta voz: “Dai lugar! Jesus está chegando, querendo visitar-me!” Ditas estas palavras, morreu placidamente, e o quarto em que estava, encheu-se de delicioso perfume. Essa morte ocorreu nas vésperas da Festa do Nascimento de Nosso Senhor.

Depois dos dias da Festa do Natal apareceu a Emiliana, e disse-lhe ser vontade de Deus que celebrassem juntas no céu a Festa da Epifania. Emiliana recebeu com agrado esta nova, mas manifestou apreensões relativamente a Gordiana. Tarsila respondeu-lhe com profunda tristeza: “Não te incomodes mais por causa de Gordiana. No coração dela não temos mais lugar; está resolvida a voltar ao mundo”. Emiliana adoeceu e faleceu na vigília da Festa da Epifania. Gordiana afastou-se cada vez mais do espírito religioso que até então reinava na casa do pai. Fez uso da liberdade, desfez-se do véu e casou-se com um morador da casa. São Gregório acrescenta: “Eis três pessoas que, animadas do mesmo zelo, se consagraram a Deus, mas não perseveraram todas no mesmo espírito, pois, é como disse Nosso Senhor: Muitos são os chamados, poucos os eleitos” (Mateus XXII, 14).

Reflexões

As duas santas irmãs, Tarsila e Emiliana, fugiram do mundo, porque o viram cheio de perigos e de ocasiões para pecar. Quem deseja seriamente a eterna salvação, deve ao menos evitar a ocasião próxima do pecado e transformá-la em remota, senão o pecado em que vive, leva-o seguramente à perdição eterna. O demônio procura encobrir o perigo que há, e engana a vítima sobre a gravidade da situação. Procurar a ocasião próxima e ficar isento do pecado, é coisa impossível, e excede às forças de todo o homem, ainda que fosse piedoso como Davi, sábio como Salomão e forte como Sansão. “Aproximando-te demais do fogo — diz Santo Isidoro — embora sejas de ferro, o calor te fará derreter. Quem está perto do perigo, por muito tempo não se preservará do pecado.”

Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:

Em Espoleto, o sacerdote-mártir Gregório, morto na perseguição diocleciana. 303.

Em Antioquia, na perseguição de Décio, o martírio de quarenta santas virgens. 250.

Em Bordéus o bispo São Delfino, célebre por sua grande santidade. 404.

Em Tréveris, Santa Irmina, abadessa. 708.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii