24 de agosto — Santa Maria Micaela do Santíssimo Sacramento, Virgem

24 de agosto — Santa Maria Micaela do Santíssimo Sacramento, Virgem
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Extraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

Nascida em 1 de janeiro de 1809 em Madrid, oriunda de família de Flandres, insigne por tradições guerreiras e religiosas, Maria Micaela Desmaissières Lopez de Dicastillo, Viscondessa de Jorbalán, era uma personalidade toda feita para a verdade e virtude, amante da ordem, de um temperamento resoluto e forte, disciplinado pela graça, destinada para os grandes empreendimentos de sua vocação. Sobretudo se distinguia por seu grande amor à Eucaristia e aos pobres, prelúdio de sua admirável vida, por ela mesma escrita, vida de um apostolado excepcional, em que reconcilia a tradição com o tempo moderno, a graça com a natureza, a prudência com a audácia, vida onde o heroísmo de uma senhora, filha de sangue ilustre e de um século agitadíssimo, é coroado das luzes da santidade antiga, reconhecida pela voz da Igreja.

Rezar, ler, escrever, pintar, bordar, cozinhar, engomar eram as suas ocupações juvenis. Não lia romances; a mãe não lho permitia, mas também não lhe vinha o desejo de ler coisas que eram mais da fantasia do que da verdade. Esta educação sólida, que visava unicamente a verdade e a utilidade veio a ser para a grande dama fonte preciosa e inexaurível. A nobre menina, que abre uma escola para crianças pobres no próprio palácio paterno, e não deixa de confortar nenhum dia os indigentes de Guadalajara, apresenta já o perfil admirável da fundadora das "Servas da Caridade". Em Madrid funda a "Comissão para socorrer a pobreza envergonhada", e outra "Comissão para socorrer as monjas". Visita pela primeira vez o hospital de São João de Deus. A princípio não compreende, mas a sua cândida inocência vê, cheia de horror e de piedade, os abismos do mal, e já tem sua vocação decidida. Neste "jardim de flores de virtude" como delicadamente o chama D. Ignacia, senhora de acrisolada virtude, ensinava a doutrina aos infelizes.

A triste história de uma filha de um banqueiro foi um relâmpago para sua grande alma e lhe sugeriu "a primeira inspiração de fundar uma casa, o refúgio onde as jovens podiam permanecer por algum tempo e receber instrução nas coisas da religião para depois, caso não encontrassem um emprego, voltar ao seio da família". Em 21 de abril de 1845 nasceu aquele "Refúgio", o Colégio, cuja administração confiou a uma Comissão de sete senhoras, em homenagem às sete Dores da Santíssima Virgem. Valentes cooperadoras naquela obra eram o sacerdote Alexandre Olivan e a marquesa de Malpica.

Razões de família obrigaram-na a uma longa permanência em Paris ao lado de sua cunhada e do irmão Conde Diego, embaixador da Espanha junto à Corte real. Foi lá, que em 1846 assumiu o título de Viscondessa de Jorbalán. Todo este tempo que passou em Paris, prestou ao irmão, que, por causa das suas qualidades superiores muito a estimava, fez relevantes serviços de conselheira no desempenho do seu delicado ofício. E a Viscondessa, séria e gentil, de uma aparência majestosa e ao mesmo tempo graciosa e bela, vive a vida do mais refinado mundo aristocrático, naquela grande capital, cheia de todos os excessos e de todas as contradições, frequenta a Corte, o teatro, as festas de gala, vai aos bailes, aos grandes círculos, troca a rica carruagem pela sela — tudo por obediência. Ela mesma chama este tempo de sua vida o "ano perdido". Altiva, cheia de fé em si própria, soube-se manter perfeitamente piedosa e continuar largamente sua atividade caritativa.

Para preparar-se para sua grande missão, que primeiro traz a cruz e depois a glória, estudou o desenho da perspectiva, se aperfeiçoou na pintura, dedicou-se ao estudo do inglês e mais especialmente da religião, frequentou a escola de bordado, tomou lições de uma das melhores engomadeiras, e de uma excelente florista. Suas generosas obras de beneficência mereceram-lhe o título honorífico de Dama de Caridade, apreciada na Corte e venerada pelo povo. Uma mulherzinha centenária jaz doente numa mansarda imunda. A Viscondessa lá vai, sobe as escadas, trata da doente, a conforta, faz-lhe companhia. As duas almas se unem em uma amizade fraterna. A pobre velha sara. Um dia, na Rua Madalena, a Viscondessa, elegante no seu vestido de veludo cor grená, avista a velhinha, e a ela se dirige; e a pobre, vendo sua benfeitora, deixa sua sacola num banco, vai alegre ao seu encontro de braços abertos. A nobre dama a aperta contra o coração, beija-a e isto à vista de muitas pessoas, que num maravilhoso ímpeto de caridade vêm resolvido o mais árduo problema social.

As Tuileries ardem na revolução de 1848. O Cardeal Arcebispo Mons. Affre morre assassinado quando vai levar o ramo de oliveira da paz aos homens das barricadas. A família real se salva fugindo, abandonando à ira da multidão e à fúria do incêndio o ninho da ociosidade, do luxo e da vaidade. A Viscondessa, praticante da Comunhão frequente, bem cedo vai à Missa, e os próprios homens das barricadas dão-lhe mão para auxiliá-la na passagem por entre os obstáculos e uma voz de homem grita: “Deixai passar a cidadã”.

Nesses dias terríveis, junto com a Marquesa de Villafranca que, encorajada por ela, seguindo seu exemplo, continuou seu apostolado de caridade e ganhou para a fé duas senhoras inglesas protestantes.

Também no vórtice dos tumultos e do sangue passa esta jovem senhora, bela e respeitada na luz da caridade cristã; irmã espiritual do arcebispo heroico e com ela dominadora altiva e serena, em nome de Deus, no meio do clamor e dos estragos onde as culpas dos poderosos e a vingança dos humildes se mesclam loucamente para encher a medida do mal.

De Paris, Dom Diego é transferido para Bruxelas. A Viscondessa o acompanha, primeiro a Boulogne-sur-Mer, onde é o anjo da caridade entre os pobres pecadores. Também em Bruxelas vive praticando a piedade e a caridade, se interessa pelas escolas, pelos operários, faz-se amiga dos pobres envergonhados, sobe por uma escada de cordas a uma mansarda, verdadeira cova de ratos. A sacola de esmola na cinta, sobe, tremendo, mas a lembrança de ver no pobre doente a pessoa de Cristo, lhe dá coragem.

Chama a si criaturas transviadas, procura-as em suas casas, visita-as nas oficinas e fábricas, arranja-lhes emprego, tira a algumas o letreiro infamante, “distintivo de vergonha”, a que eram condenados a levar. Com algumas almas eleitas funda em Paris a “Adoração Perpétua”, à qual liga “a Obra das igrejas pobres”, duas instituições que mais tarde foram reunidas em uma única Congregação, a das “Adoradoras Perpétuas”.

Nesta belíssima iniciativa eucarística e caritativa a Providência fê-la encontrar duas grandes almas: a Baronesa d’Hooghvorst e D. Anna de Meeüs.

Numa longa viagem de recreio que sua cunhada, a Condessa de la Vega del Pazo empreendeu em busca de melhoras para suas persistências moléstias, a santa Viscondessa a acompanhou. Um pequeno repouso que tiveram em Bordéus era bastante para esta, naquela cidade, deixar vestígios de sua bondade e caridade cristã. Uma visita que fez aos presos na cadeia pública, trouxe consolo e conforto àqueles infelizes. O arcebispo, que a tinha em grande estima, confiou-lhe a reforma de um mosteiro de freiras jansenistas, que se tinham negado a prestar obediência à autoridade diocesana, missão de que a Viscondessa maravilhosamente se desempenhou.

A página autobiográfica que narra este episódio, é uma revelação. Falou à superiora e depois à Comunidade. Da Superiora disse: “Depois de lhe ter falado cerca de uma hora, coisas que eu não sabia, mas que Deus me pôs nos lábios, abriu-me a porta e deixou-me entrar. Às religiosas, umas cinquenta, dispostas em ala dupla, na sala conventual, falei palavras ardentes sobre a obediência, a Confissão, a Eucaristia e a proteção de Nossa Senhora, lembrando-as ao mesmo tempo, o motivo por que tinham deixado o mundo e o afeto de pessoas caras. Falei uma hora e meia, com o resultado de todas prorromperem em choro. Prometeram obedecer ao Prelado, aceitar o confessor, designado pela autoridade, fazer exercícios espirituais. Chorei com elas. Abracei a todas, uma por uma e, prostrada por terra, pedi-lhes perdão se as tivesse ofendido com qualquer coisa”.

Em 15 de novembro de 1848 a vemos afinal em Madrid, livre dos freios que a impediam no exercício da caridade. O "Colégio", fundação do seu coração, era uma ruína. Havia somente três asiladas.

Pela morte da Irmã Superiora da Congregação da Doutrina Cristã anexa ao Hospital de São João de Deus, a Viscondessa é chamada para ocupar-lhe o lugar. Com fino tato e profunda humildade vence a guerra aberta, que lhe moveram as próprias cooperadoras, e para testemunhar seu ardor interior, adota o nome profético de “Sor Sacramento”.

Desde 1º de janeiro de 1849 governa ela própria o Colégio. Tendo-o confiado a algumas Irmãs francesas, a experiência foi de mau resultado e culminou num desfecho doloroso. Foi preciso realizar mudanças rápidas e assim se restabeleceu a ordem e a paz. O ano de 1850 trouxe-lhe grandes provações. Foi uma guerra de tudo e de todos contra sua pessoa e seu governo. Clero e povo tinham-na em conta de uma grande ilusionista, e as de sua casa lhe obedeciam só em que era necessário.

Por fim quiseram tirar-lhe o Santíssimo Sacramento. Mas não o conseguiram. Guiada sempre e confortada pelo sábio e enérgico jesuíta Pe. Carasa, pondo toda confiança em Deus, dedicou-se inteiramente às suas meninas, e teve o prazer de ver a guerra de todos transformar-se em aplauso universal, confirmado pela aprovação do Papa.

Reformado o "Colégio", com um número bem grande das asiladas, por obediência aceitou a direção das primeiras coadjutoras de sua obra. Vestiu hábito de religiosa e, cumprindo o maior desejo do seu coração, pôde ainda instituir a Adoração Perpétua.

A serva de Cristo, a preço de sacrifícios heroicos, feitos por amor de Deus, tinha alcançado o maior triunfo. Com Anna Maria Anchorit, flor de inocência, com Isabella, sua fidelíssima camareira, com Garcia Casas e Anna Lopez Ballesteros, criatura eleitíssima, em 6 de janeiro de 1859 pronunciou os primeiros votos: estava fundada a Congregação das Religiosas Adoradoras, das Servas do Santíssimo Sacramento e da Caridade. Um pequeno ostensório sobre o peito era seu distintivo de honra, ao mesmo tempo a indicar a fonte do seu luminoso heroísmo.

As regras nasceram na luz do sacrário, com a violência de muitas orações, junto com a experiência cotidiana e com a assistência constante e iluminada do Pe. Carasa. O segundo capítulo é redigido assim: "Fim primário do Instituto é promover a glória de Deus e a santificação dos seus membros pela observância dos três votos religiosos e a prática das virtudes próprias da vida ativa e ao mesmo tempo contemplativa: 1.) na Adoração Perpétua do Santíssimo Sacramento; 2.) em cooperar na salvação das almas por meio da educação e reabilitação de jovens transviadas ou em iminente perigo de se perder.

O método em reabilitar as jovens é simples e vigoroso: tratá-las com sinceridade, dar-lhes instrução necessária e em forma conveniente, fazê-las conhecer a monstruosidade do pecado, repará-lo ou evitá-lo; dar-lhes educação e ensino apropriados às suas condições, não olhando sua procedência, mas tendo em vista a necessidade que têm de afeto, de instrução e de salvação.

Onde as condições das casas o permitirem, as "Adoradoras" podem manter também escolas gratuitas externas para meninas.

O tabernáculo é o monte santo e o rochedo misterioso, que, tocado pela força das suas orações, jorra abundantemente as águas da graça alimentadora de uma vida heroica e silenciosa.

A primeira aprovação desta obra providencial veio de Roma, pelo Breve de 27 de agosto de 1850.

O Colégio de Madrid não ficou sendo o único. A Fundadora, sempre empreendedora, e mestra em administrar, imitou a grande santa, a Santa Teresa de Jesus. Como Serva d’Aquele que passava benfazendo, escreve ela, vou em toda a parte, oferecer os meus serviços em nome da caridade e não para exigir sacrifícios". As numerosas fundações obrigavam-na a viajar quase continuamente. Havia dias que ditava mais de 20 cartas, e isto era regra. Quando morreu, vítima da caridade em Valença, deixou sete Colégios; sete, dizia ela, sete, como as dores de Nossa Senhora.

Em 21 de agosto de 1865, tendo notícia da cólera em Valença, para lá se transportou imediatamente. A um Comissário do governo que a suplicou que não fosse, respondeu: “Nós que fazemos tudo pelo amor de Deus, não tememos a morte”. Em Valença se apresentou ao arcebispo, ofereceu-lhe seus serviços e se fez enfermeira.

Na manhã do dia da sua morte assistiu ainda ao médico da casa numa operação cirúrgica. Assaltada repentinamente do mal, que lhe partiu a fibra robusta, durante onze horas sofreu um martírio indizível, não perdendo aliás sua afabilidade, serenidade, conservando sempre fechados os olhos. Recebeu o Santíssimo Sacramento num transporte de alegria. Pronunciava frequentemente os nomes de Jesus, da Virgem Dolorosa e repetia: "Minhas almas, minhas filhas!” À Maria Santíssima, aludindo às suas fundações, dizia: "Mãe minha, são sete, como sete foram as vossas dores".

Morreu à meia-noite de 24 de agosto de 1865.

Os processos diocesanos, iniciados em 1889, em Valença, resultaram na declaração das virtudes heroicas da Serva de Cristo em 1922. Em 1925 foi beatificada. Depois de aprovados os dois milagres do rito, na pessoa de Maria Josephina Montagati, curada de uma otite purulenta e de Sor Maria das Neves curada de tuberculose gravíssima, Pio XI, em 4 de março de 1934 inseriu-a no Álbum dos Santos.

Hoje a Congregação das "Adoradoras" conta 57 casas esparsas na Europa, na América, África e Ásia, com mais de mil religiosas e perto de 3.000 asiladas. Muitas são as escolas gratuitas que mantém para crianças pobres, patronatos que foram fundados principalmente nos grandes centros para os filhos de operários.

Reflexões

Deus é admirável nos seus Santos. O amor a Deus, o amor ao Santíssimo Sacramento opera milagres nas fracas criaturas, que por sua vez encantam o céu e deliciam a humanidade. Santa Maria Micaela do Santíssimo Sacramento, a grande dama no mundo, culta, enérgica, nobre, que em Paris com lágrimas nos olhos vende seu cavalo para socorrer o seu Colégio em Madrid; que troca seus elegantes e ricos vestidos de seda com um hábito de estamenha e assim se apresenta à Rainha, da qual se torna confidente, em cuja presença e nas suas conversações, para não perder tempo, ocupa suas mãos com trabalhos de agulha: e destes conhecimentos se aproveita para repreender certos maus hábitos da monarca, fazendo-a amar a virtude; a grande dama que de sua influência não se serve, a não ser para procurar subsídios às suas instituições de caridade; que não teme transpor o limiar da pobreza e do vício; que, ou em traje de veludo, ou em hábito de Religiosa, vai à procura das almas que necessitam do seu socorro; que protege suas filhas contra todos e contra tudo; que as alimenta, as educa, e por amor delas se torna louca aos olhos do mundo, quando sua loucura era a de Cristo e de sua Cruz: esta nobre dama, esta grande Santa obriga-nos a cair de joelhos e bendizer a grandeza de Deus.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii