24 de abril — São Fidélis de Sigmaringa, Mártir
24 de abril — São Fidélis de Sigmaringa, MártirExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
São Fidélis nasceu no ano de 1577 em Sigmaringa, cidade do ducado de Hohenzollern. Seus pais eram João Roy e Genoveva Rosenberg. Fidélis teve a triste sorte de perdê-los bem cedo. Os belos talentos do menino determinaram a seu tutor mandá-lo a Friburgo, em Brisgóvia, onde fez todos os seus estudos e recebeu o grau de doutor em Filosofia e Direito Canônico.
Desde pequeno Fidélis era muito piedoso e inclinado à vida austera, tanto que se abstinha do vinho e usava constantemente o cilício. Seus modos afáveis, como sua modéstia, ganharam-lhe a simpatia de todos os seus companheiros. Em 1604, fez uma longa viagem em diversos países da Europa, em companhia de três fidalgos, aos quais foi para eles um verdadeiro anjo tutelar. Dava-lhes o exemplo mais perfeito de piedade. Nos domingos e dias santos recebia a Santa Comunhão. Havendo numa cidade um hospital, a ele era sua primeira visita.
Terminada a viagem, estabeleceu-se, como advogado, na cidade de Colmar.
Era sua firme vontade, de cumprir rigorosamente seu dever. Justiça e religião formaram a regra indeclinável para o seu proceder. Interesse particular votava aos desprotegidos, e em breve era conhecido por advogado dos pobres.
Poucos anos durou sua atividade como advogado. Injustiças que não lhe era possível evitar, fizeram com que se enfadasse da sua profissão e se resolvesse a tomar o hábito de São Francisco. Sua biblioteca foi incorporada à do seminário episcopal e seus bens ele os distribuiu entre os pobres.
Como religioso redobrou seu zelo e, tendo entrado tarde na Ordem, não obstante, tornou-se em breve para todos os noviços um modelo em humildade, obediência e obras de penitência.
À vontade dos seus superiores sujeitou-se inteiramente e tornou-se vencedor sobre as tentações, revelando-as ao seu diretor espiritual. Além das penitências e jejuns regulamentares, fazia outros por iniciativa própria, principalmente nas vigílias das festas eclesiásticas. Sempre recolhido, achava na oração um meio poderoso contra o perigo da tibieza.
Tendo terminado o curso de Teologia, seus superiores confiaram-lhe as difíceis missões de pregador e confessor.
Nomeado superior do convento em Feldkirch, conseguiu a conversão de muitos calvinistas à Igreja Católica. Quando no acampamento militar apareceu uma epidemia, São Fidélis tornou-se o Anjo da caridade aos pobres doentes, que recebiam suas visitas diárias. Como superior, usava de máximo rigor para si, lia muitas vezes a santa regra e pedia a Deus não permitir que servisse de escândalo para os seus súditos. Com caridade e mansidão repreendia as faltas dos outros, sendo, porém, inexorável quanto à disciplina monástica.
Conhecendo o zelo apostólico de Fidélis, a Propaganda da Fé o enviou como missionário ao Graubünden, para trabalhar na conversão dos calvinistas. Com oito companheiros da sua Ordem dirigiu-se Fidélis ao campo de ação. Seus trabalhos foram coroados de êxito. Muitos calvinistas, entre eles pessoas de alta colocação, voltaram à fé católica, o que provocou o descontentamento e o ódio dos sectários, da parte dos quais ficou resolvido a fazer desaparecer o santo homem. Fidélis soube da trama que contra ele se armava e preparou-se para a morte, continuando, entretanto, com seus trabalhos apostólicos. Predisse sua morte a muitos amigos e daquele tempo em diante, terminava as cartas com estas palavras: "Frei Fidélis, que em breve será pasto dos vermes".
Aos católicos animou à constância na fé. No caminho de Gurk a Sevis foi alvejado pelo fuzil dum calvinista. Os católicos pediram-no que se retirasse, para salvar a vida. Fidélis, porém, nenhuma precaução tomou, dizendo-se pronto para sacrificar a vida pela religião. Voltando para Gurk, caiu na emboscada de soldados calvinistas, que, chefiados por um pregador da seita, quiseram-no obrigar a abjurar sua religião. Fidélis, porém, cheio de indignação, rejeitou sua pretensão e disse: "Eu não vim para aceitar os vossos erros. A fé católica é a religião de todos os séculos e no mais — eu não temo a morte". Em seguida um dos soldados feriu-o na cabeça com a espada, prostrando-o por terra, Fidélis levantou-se e orou pelos seus inimigos. Quando disse as palavras: "Santa Maria, Mãe de Jesus, valei-me", os soldados mataram-no a baionetadas e cortaram-lhe o pé esquerdo. O próprio pregador calvinista tão impressionado ficou com a morte de Fidélis, que nela viu a prova mais cabal da verdade da Igreja Católica. Renunciou ao erro e voltou ao seio da Santa Igreja Católica.
O corpo de Fidélis foi sepultado, com todas as honras, na igreja dos capuchinhos em Feldkirch. Glorioso foi seu túmulo e muitos milagres testificaram a santidade do mártir. Seu nome foi por Papa Bento XIV inscrito no catálogo dos Santos.
Reflexões
São Fidélis reconheceu no seu nome um aviso do céu, de ser fiel até a morte. "Sê fiel até a morte e te darei a coroa da vida". Fidélis ficou fiel a Deus, na prática do bem, até à morte. Muitas coisas prometemos a Deus no dia de nosso batismo e de nossa primeira Comunhão; muito lhe prometemos nas nossas confissões, em dias de provação e de sofrimento. Cumprimos o que prometemos? Fomos fiéis à nossa palavra? — Merece o nosso desprezo a pessoa que não tem palavra. Que conceito não deve Deus fazer de nós, vendo-nos faltar à palavra tantas e tantas vezes? Humilhemo-nos diante de Deus, peçamos-lhe perdão e sejamos mais sinceros para o futuro. "Para que o homem se salve, — diz São Bernardo — é preciso que cumpra o que prometeu".
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩