23 de outubro — São João de Capistrano († 1456)
23 de outubro — São João de Capistrano († 1456)Extraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
São João de Capistrano é um dos mais luminosos astros do céu cristão do século XV. Natural de Capistrano, do reino de Nápoles, recebeu o nome dessa cidade. Privilegiado de belos talentos, fez em Perúsia o curso de ambos os direitos, doutorou-se e desempenhou o cargo de juiz de direito a contento de todos.
Um dos cidadãos mais importantes da cidade deu-lhe a filha em matrimônio. Nada parecia faltar-lhe à felicidade. Faltou, porém, a constância da mesma.
A cidade de Perúsia recusou-se a reconhecer a soberania do rei Ladislau, de Nápoles, e declarou-lhe guerra. João de Capistrano recebeu a incumbência de conferenciar com o Rei sobre as condições da paz e tudo parecia prometer bom êxito. Essas esperanças foram iludidas e os concidadãos duvidaram da sua boa fé. Tão bem fundadas pareciam-lhe essas suspeitas, que o prenderam e o recolheram à fortaleza de Bursa. Ainda as esperanças lhe foram iludidas, quando apelou para o espírito de lealdade do rei de Nápoles.
Tudo isso foi necessário para que se convencesse da falsidade do mundo, da inconstância da amizade dos homens e da futilidade do que se chama felicidade. Recebendo ainda a notícia da morte da esposa, tomou a resolução de abandonar o século e entrar numa Ordem religiosa.
Para este fim vendeu todos os bens, pagou o resgate e pediu o hábito de São Francisco. O Superior da Ordem, conhecendo os antecedentes, deixou-se levar pela suspeição de João ter agido um tanto precipitadamente e talvez lhe faltasse a perseverança e verdadeiro espírito religioso. Sujeitou o noviço a uma prova duríssima, capaz de pôr em relevo a humildade e firmeza do candidato.
Obrigou-o a envergar um traje de arlequim, pôs-lhe nas costas uma tabuinha, na qual se via registrada uma série de crimes e neste estado lhe fez montar uma mula e passar pelas principais ruas de Perúsia. João obedeceu e, com a maior prontidão, cumpriu não só esta, como ainda outras ordens humilhantes.
Decorrido um ano, foi admitido à emissão dos votos. Desde aquele tempo a vida de João de Capistrano era um jejum perpétuo. Durante trinta anos se absteve completamente do uso da carne.
Tinha por leito o soalho, e ainda assim dava poucas horas ao descanso. Cotidianamente sujeitava o corpo às mais ásperas mortificações.
Uma vez separado do mundo, o coração do Santo pertenceu a Deus e só a Ele procurou servir. Achava delícias na oração, na meditação e na leitura espiritual. Ligeiras passavam-lhe as horas que permanecia na presença do Santíssimo Sacramento.
Orador de grande recurso, com facilidade comunicava aos ouvintes o amor de Deus, que lhe ardia no coração. O efeito dessas prédicas foi muitas vezes imediato. Aconteceu assim em Aquileia, Nuremberg e Leipzig, que, tendo pregado sobre a vaidade do mundo, logo após a prática, vieram muitas senhoras entregar ao Santo as joias, bem como outros objetos, que lhes pareciam inúteis e embaraçosos à santificação.
Na Boêmia mais de cem moços pediram para ser admitidos na Ordem Franciscana, depois da audição de um sermão que João de Capistrano fizera, sobre o juízo universal.
São Bernardino de Siena, que era contemporâneo de São João de Capistrano e igualmente grande pregador de penitência, tinha sido acusado em Roma por motivo de exagero na devoção ao Santíssimo Nome de Jesus.
João de Capistrano defendeu o companheiro com tão bom resultado, que os Papas lhe confiaram outras missões muito mais melindrosas e difíceis.
Nicolau V nomeou-o comissário apostólico para a Alemanha, Hungria e Polônia. Este encargo deu-lhe ocasião oportuna para beneficiar largamente os países interessados. Muitos hussitas voltaram ao seio da Igreja.
Grande perigo surgiu para a cristandade, com a propaganda turca de Maomé II. O Império grego não resistiu aos ataques; Constantinopla caíra-lhe nas mãos e com a capital, mais de duzentas cidades capitularam. Em 1456 apareceu o Califa com um grande exército às portas de Belgrado, ameaçando avassalar a Europa inteira. O Papa confiou a João de Capistrano a pregação de uma cruzada contra o inimigo comum. Encarniçadíssimo foi o combate pela posse de Belgrado. Os cristãos defendiam-se contra um inimigo dez vezes mais forte, e mais de uma vez parecia a vitória pertencer aos turcos. Embora repelidos por diversas vezes, estes sempre com nova fúria e ímpeto quase irresistível continuaram os ataques. O número reduzido dos combatentes cristãos estava ao ponto de desfalecer, quando João de Capistrano apareceu nas fileiras, e seu grito: “Vitória, Jesus, vitória!” — animou os guerreiros a redobrar os esforços.
Dos turcos apoderou-se um pavor tal que, desorganizados, desistiram do combate. Maomé caiu gravemente ferido, e milhares de cadáveres de soldados juncaram o campo de batalha. A vitória dos cristãos foi completa e não faltou quem a atribuísse à santidade e ao poder das orações de João de Capistrano. Este, porém, rendeu graças a Deus e retirou-se para o convento de Villach, na Áustria, onde três meses depois morreu. O túmulo do Santo foi mais tarde profanado pelos luteranos, que o arrombaram e atiraram com o corpo ao Danúbio.
Hoje descansa na igreja de Ilok, na Croácia.
João de Capistrano morreu em 23 de outubro de 1456, com 71 anos de idade. Bento XIII pôs-lhe o nome no catálogo dos Santos da Igreja em 1724.
REFLEXÕES
Quando João de Capistrano percebeu que a amizade do mundo é falsa e que os elogios dos homens não merecem fé, pôs-se à procura da amizade do supremo Senhor do mundo. Fez muito bem, porque a amizade de Deus é infinitamente mais nobre e mais durável do que a das criaturas. A amizade humana é coisa frágil e ao mesmo tempo difícil de encontrar, o que não se dá com a amizade divina, que é de fácil alcance. Ninguém no-la arrebata sem nosso assentimento. Para ela podemos apelar, sempre que as circunstâncias o exigirem, certos que estamos de não rogarmos em vão. É loucura, pois, que cometemos se, em vez de nos assegurarmos da amizade de Deus, com afã procuramos a dos homens.
“O amor da criatura — diz Tomás de Kempis — é mentiroso e inconstante, ao passo que o amor de Jesus é fiel e duradouro. Dá teu amor, tua estima àquele que não te abandona, quando os outros se retraem: sê fiel a Jesus na vida e na morte”.
Santos do Martirológio Romano e de outros Santos, cuja memória é celebrada hoje:
Na região da Hispânia, os santos mártires Servando e Germano, vítimas da perseguição diocleciana. Sec. 4.
Em Constantinopla, o bispo Santo Inácio, que, por causa de uma justa repreensão dada ao governador adúltero, foi por este expatriado. O Papa Nicolau I conseguiu sua repatriação. 877.
Em Valenciennes, na Revolução Francesa, o massacre de um grupo de religiosas Ursulinas.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii ↩