23 de julho — São Francisco Solano, Missionário

23 de julho — São Francisco Solano, Missionário
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Extraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

Natural de Montilla, na Andaluzia, São Francisco Solano viu a luz do mundo em 1549. Menino ainda, revelava o dom da conciliação. Contrário por índole a toda a sorte de discórdia, fazia empenho em pacificar os ânimos, quando, por qualquer motivo, tivessem se azedado uns contra os outros.

Francisco Solano contava 20 anos, quando tomou o hábito de São Francisco de Assis. Religioso exemplar que era, mereceu a confiança dos superiores, que sucessivamente lhe entregaram cargos importantes da Ordem. A ocupação principal de Francisco, porém, era a pregação. Sem dispor de dotes extraordinários de retórica, a palavra ardente, ditada pela fé e convicção, arrebatava os ouvintes, conduzindo milhares de pecadores ao redil de Cristo e consolidando a todos no amor e na prática das virtudes.

Numa ocasião em que a peste assolou o país, foi Francisco Solano um dos primeiros a pedir para ser aceito como enfermeiro. Atacado pelo terrível mal, recomeçou depois o serviço, no tratamento dos pobres doentes. Desejoso de derramar o sangue pela fé, pediu para ser enviado para a América. Na travessia naufragou a embarcação em que viajava, com mais um franciscano e 800 passageiros. Naquele supremo risco, além de dar provas de grande heroísmo, confortou os ânimos dos náufragos. Garantiu-lhes o salvamento certo no terceiro dia, profecia esta que teve fiel cumprimento.

Chegado a Lima, pouco se demorou naquela cidade, para dirigir-se a Tucumã, futuro campo de ação do jovem missionário. Os últimos cinco anos de vida, Francisco Solano passou-os novamente em Lima, para, em cumprimento de ordem superior, restabelecer a disciplina interior monástica da Ordem.

Foi esse um tempo abençoado, em que pelas práticas, quer nas Igrejas, quer nas praças públicas, fez um bem enorme a muitas almas. Uma das práticas mais importantes foi aquela, que em 1604 fez, numa praça pública de Lima. Qual Jonas aos ninivitas, pregou Francisco Solano aos Limenses penitência, sob pena de terríveis castigos de Deus. Os Limenses fizeram penitência, que de pouca duração foi; pois pouco depois caíram nos mesmos vícios, que o missionário servindo-se da expressão de São João Evangelista, indigitara: a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e o orgulho da vida. Deus mandou um terremoto, que causou horríveis estragos na capital. A cidade de Trujillo, cuja população nenhum caso fez dos avisos e ameaças do homem de Deus, foi igualmente por um terremoto completamente destruída.

Francisco Solano tinha o dom de línguas. Em quinze dias se fez senhor da língua dificílima dos Tucumanos. Não é só isto. Servindo-se de uma língua, os ouvintes, que às vezes pertenciam a diversas tribos, de idioma diferente, compreendiam-no tão perfeitamente, como se exprimisse na língua de cada um deles.

Pela imposição do cordão do religioso, muitos doentes recuperaram a saúde. Rezando sobre um menino que tinha falecido, este voltou à vida. Um indivíduo, cujo corpo se achava coberto de úlceras, ficou são, em consequência de um ósculo que o Santo imprimiu a uma das feridas, unicamente com o fito de mortificar-se. Em certa ocasião, pela bênção do santo missionário, uma região inteira ficou livre da praga de gafanhotos, que ameaçavam devastar as plantações. Os Tucumanos queixavam-se da falta de água, num lugar que lhes tinha sido determinado para residência. Francisco Solano animou-os a pôr toda confiança em Deus e dirigir-lhe preces e súplicas. Passados uns dias, quando os Tucumanos queriam já abandonar aquelas paragens, Francisco Solano conduziu-os a um lugar, aparentemente sequíssimo, e fê-los cavar a terra. Mal tinham metido a pá, quando apareceu água de qualidade ótima e em volume tal, que foi suficiente para fazer funcionar dois moinhos. Muitos doentes que beberam daquela água, ficaram livres dos seus incômodos.

Era natural que estes e ainda outros fatos extraordinários da vida de Francisco Solano, concorressem valiosamente para que de todos fosse sumamente estimado, o que não impediu que o santo missionário não deixasse de entregar-se aos exercícios da mais severa penitência. Ao corpo impôs o jugo mais duro da mortificação, tanto que, pelo fim da vida, se incomodava com o receio de ter-se excedido neste ponto. Uma visão, porém, que Deus lhe concedeu, na qual lhe foi mostrada sua futura glória, tranquilizou-o completamente.

Característica na vida de São Francisco Solano é sua alegria espiritual. Nunca ninguém o viu triste ou acabrunhado. Nas horas livres compunha cânticos, em honra do Menino Jesus e de Nossa Senhora e cantava-os, ao som do violino. Seu lugar predileto era a igreja, onde permanecia horas em profunda adoração ao Santíssimo Sacramento. A santa Missa por ele celebrada parecia a de um Anjo, e edificava a todos que a assistiam. Pessoas de alta posição social, por exemplo, o vice-rei do Peru, tinham por grande distinção poder ajudá-lo na celebração da santa Missa.

Por uma graça especial divina, Francisco Solano teve conhecimento prévio da morte. Dois meses antes, adoeceu gravemente, atacado de febre. Longe de se entristecer, conformou-se perfeitamente com a vontade de Deus. Dava-lhe graças, por ter-se incumbido de infligir-lhe os castigos, que pelos pecados merecera. Nos dias da doença, não largava a imagem do Crucificado, com o qual entretinha os mais ternos e comovedores colóquios.

As últimas palavras que proferiu, foram: "Deus seja bendito".

Francisco Solano morreu em 14 de julho de 1631, tendo alcançado a idade de 64 anos. O Papa Bento XIII canonizou-o em 1726 e transferiu-lhe a festa para o dia 23 de julho.

Reflexões

"Antes morrer do que ofender a Deus" era o lema de São Francisco, dando assim a entender que mais temia o pecado, que a morte. De fato: o pecado é mal muito maior que a morte. A morte em si, diz São João Crisóstomo, não é mal nenhum. O mal verdadeiro é o pecado. A morte mal nenhum pode causar ao homem, que se acha em estado de graça. O pecado, porém, causa-lhe a infelicidade eterna, quanto ao corpo e quanto à alma. Que pensas do pecado grave? Pertences àquela classe de pessoas que nenhuma importância lhe ligam, e vivem em pecados, sem se incomodar com a penitência, que deviam fazer? Se assim for, mau sinal é; pois os filhos de Deus têm horror ao pecado; dele fogem e preferem a morte a ofender a Deus. Pede a Deus que te dê verdadeira compreensão do pecado e, sabendo uma vez quão grande mal é, como São Francisco, preferirás a morte a cometer um só pecado.

Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:

Em Ravena o martírio de Santo Apolinário, bispo sagrado por São Pedro, dele recebeu sua missão para pregar o Evangelho em Ravena. Seu zelo apostólico excitou o fanatismo dos pagãos. Teve um martírio glorioso sob o governo de Vespasiano.

Em Le Mans a memória do bispo São Libório, contemporâneo e amigo de São Martinho de Tours.

Na Bulgária, o martírio de muitos cristãos, vítimas do ódio atroz do Imperador Nicéforo.

Em Roma, a memória das Santas Virgens Rômula, Redentora e São Herundo. 697.

Em Roermond, na Holanda, o martírio de sete sacerdotes, dois diáconos e dois leigos, massacrados pelos calvinistas em 1572.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii