23 de janeiro — São João Esmoler

23 de janeiro — São João Esmoler
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Extraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

O Santo, cuja festa a Igreja hoje celebra, nasceu em Amatunte, cidade da Ilha de Chipre. Seus pais eram ricos e de família mui considerada. Entrando nos anos, surgiu em João o desejo de dedicar-se ao estudo clerical. Como os pais não concordassem com esta ideia e, para não os contrariar, casou-se com uma donzela virtuosa. A morte lha arrebatou pouco depois, e João pôde realizar o plano, havia muito tempo por ele acariciado.

Alguns anos depois, morreu o patriarca de Alexandria e a vontade do povo e do imperador elevou a João à dignidade de seu sucessor. O novo patriarca preencheu perfeitamente todos os requisitos que São Paulo exige de um bispo da Igreja Católica. A escolha não podia ser melhor. João não era possuidor de uma ou outra virtude, ele era um homem perfeito. Chegando a Alexandria, preparou-se para sua sagração, fazendo retiro espiritual e planejando uma grande obra de caridade. Mandou que se fizesse sindicância de 7.500 pobres, existentes na cidade. Às quartas e sextas-feiras eram dias que pertenciam aos pobres e necessitados. Estava sua casa então aberta para todos que o quisessem procurar.

Em certa ocasião, que se dirigia à igreja, uma pobre mulher se prostrou a seus pés, pedindo proteção contra seu genro. Os companheiros do patriarca, vendo aquele espetáculo, repreenderam a mulher, dizendo-lhe que viesse outra hora. João, porém, disse-lhes: “Como poderia esperar que Deus ouça as minhas orações, se não quisesse atender a esta mulher?”

Um pobre infeliz a quem o patriarca tinha dado uma boa esmola, externou sua gratidão em expressões extremamente exageradas. O prelado interrompeu-o, dizendo: “Meu filho, eu não derramei meu sangue por ti, como fez Nosso Senhor Jesus Cristo”.

Um negociante tinha perdido grande parte da sua fortuna num naufrágio e recorreu à caridade do Santo. Mais duas vezes teve o mesmo infortúnio; com a confiança que se dirigia a João, com a mesma liberalidade este o auxiliou.

A caridade do Santo Patriarca não se limitava à sua diocese de Alexandria. Grande número de famílias cristãs, que o furor dos persas tinha expulsado, encontraram carinhosa recepção no Egito. Sabendo que os infiéis se tinham apoderado de Jerusalém, mandou para lá muito mantimento e dinheiro, para socorrer os cristãos na reconstrução das igrejas demolidas. Cristãos que tinham caído em poder dos persas, tiveram em João seu libertador. Se sua caridade exigia grandes dispêndios, a Divina Providência se incumbia de lhe abrir sempre novas fontes de recursos, quando a providência humana parecia ter chegado ao termo.

O amor ao próximo correspondeu em João a um grande rigor contra a sua própria pessoa. A mesa, a roupa, os móveis, enfim, tudo que era de seu uso pessoal, trazia o caráter da pobreza. Disto não fazia exceção o seu cobertor de cama, que um amigo do bispo fez desaparecer, em troco de um novo. Para se mostrar grato à esta generosidade, João fez uso dele na primeira noite. No dia seguinte já estava vendido em proveito de outros, que necessitavam de coisa mais necessária. O doador do presente vendo-o à venda, comprou-o outra vez e com ele foi ter com o Bispo, deu-lho dizendo em ar de gracejo: “Quero ver quem de nós dois se cansa primeiro”.

Ao lado de sua atividade no campo da caridade, o patriarca não descuidou da administração da sua diocese. Extremamente econômico no uso do tempo, as horas estavam divididas e tinham cada uma seu destino, fosse para a oração, o estudo ou o trabalho. Se acontecia, que alguém em sua presença falasse desfavoravelmente do próximo, dava à conversa um outro rumo. A caluniadores vedava a entrada em sua casa, de tanta repugnância que experimentava daquele vício.

Santidade é inconcebível sem que exista o fundamento, que é a humildade. Quem o tivesse ouvido falar a seu próprio respeito, teria levado a impressão de estar diante de um homem que se tinha em conta de miserável, imprestável e orgulhoso. A lembrança constante do juízo divino causou na sua existência um desapego completo de tudo que era deste mundo.

Uma consequência deste desapego foram a mansidão e grande paciência, que o Santo revelava em todas as circunstâncias. Usando de rigorosa disciplina na formação do seu caráter, chegou a adquirir uma quase insensibilidade em face de contrariedades que se lhe apresentavam. Dizia-se feliz, vendo-se no meio de sofrimentos, que conforme sua convicção, aumentavam os seus merecimentos.

João possuía em sua mansidão o segredo de acalmar espíritos excitados. Certa vez o prefeito tomou umas deliberações mais ou menos vexatórias aos pobres. Sem que com isso tivesse contado, o Patriarca fez-se advogado dos desventurados, o que não pouco irritou o ânimo do magistrado. Ao entardecer recebeu do Bispo o seguinte recado: “O sol está para inclinar”. O prefeito compreendeu perfeitamente a alusão destas palavras ao dito da Sagrada Escritura: “O sol não se deite sobre a vossa ira”; imediatamente foi ter com o prelado e prometeu não dar mais ouvidos àqueles que o queriam levar a praticar uma injustiça.

Muito incomodado com uma inimizade que sabia existir entre seus dois amigos, convidou a um deles para assistir à Santa Missa, que em determinado dia ia celebrar. Antes da Missa, o Bispo pediu ao cavalheiro que o acompanhasse na recitação do Padre Nosso. Tendo ambos chegado às palavras: “Perdoai-nos as nossas dívidas”, o Bispo parou, deixando ao outro recitá-las sozinho. Notando a perturbação de seu amigo, o Bispo tanto insistiu com ele, até que este se resolveu a fazer as pazes com seu desafeto.

Ao seu rebanho era o Bispo um bom pastor, que tudo fez para afastar dele o perigo da heresia. Convidado para fazer uma visita ao imperador de Constantinopla, João se pôs a caminho, em companhia de Nicetas. Quando chegaram em Rhodes, o Patriarca teve um aviso de Deus sobre a iminência de sua morte. Em vista disto, interrompeu a viagem e disse a seu companheiro: “Não posso visitar o imperador, visto que sou chamado pelo Rei dos Reis”. De Rhodes passou a Chipre, onde morreu, em 619, tendo sessenta e quatro anos de idade.

Reflexões

1. A virtude predominante na vida deste Santo foi a caridade. Foi ela a força motriz de todas as obras de misericórdia, de que a vida de São João Esmoler é tão rica. A verdadeira caridade não se inspira pela vaidade, pelo sentimentalismo ou pela simpatia pessoal. Antes podemos dizer que os limites da caridade são lá onde começa o amor próprio. “Tudo que desejares que os outros te façam, a eles deves fazer” (Lucas 6, 31). Guiado por este princípio evangélico, São João administrou sua caridade a todos os homens, sem distinção de pessoa. Com mansidão e amabilidade tratava a todos, justos e pecadores, conseguindo desta maneira a conversão de uns, e a santificação de outros. Pais e educadores devem se convencer de uma coisa: Não é com aspereza, rigor excessivo e zelo imoderado que se colhem bons resultados: — antes pela mansidão, pela paciência, pela caridade e tratabilidade. Tanto o coração da criança como do adulto aspira pelo amor: com caridade tudo se alcança. Para ganhar os corações para Cristo, é preciso que procuremos ser tudo para todos. Quem quer ter uma ideia da verdadeira caridade, leia as seguintes palavras de São Paulo sobre este assunto: “A caridade — diz ele — é paciente e bondosa; a caridade não é invejosa, não age com imoderação; não é presunçosa e não tem ambição; a caridade não procura seu proveito; não é irascível; a caridade não malicia; não folga com a iniquidade e se alegra com a verdade. Tudo tolera, tudo crê, tudo espera, tudo sofre” (I Coríntios 13, 4-7).

2. O bem que fazemos ao próximo, deve ser feito por motivos sobrenaturais. Muitos dão esmolas e socorrem ao próximo por inclinação e bondade naturais. Mera filantropia, não tem valor perante Deus. Jesus Cristo ensina-nos a verdadeira caridade, querendo Ele, que no pobre, no doente, na necessidade vejamos sua pessoa. Tudo que de bem fazemos ao próximo por amor de Jesus Cristo, é por este aceito como se a ele próprio o tivéssemos feito. No dia do juízo ele dirá aos eleitos: “Vinde, benditos de meu Pai, e possuí o Reino, que vos foi preparado desde o princípio do mundo: porque eu tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era estrangeiro, e me recebestes; estava nu, e me vestistes; doente, e me visitastes; no cárcere, e me socorrestes”. Os justos responder-lhe-ão: “Senhor, quando foi que tivestes fome, e nós vos demos de comer?” E o Rei dir-lhes-ás: “Em verdade vos digo: todas as vezes que fizestes isso ao menor dos meus irmãos, foi a mim que o fizestes”. Deus não olha pelo que se dá, mas pela intenção com que a esmola é dada. A caridade meramente humana opera por motivos meramente humanos, quando a caridade cristã não tem em mira outra coisa senão a glória e a honra de Deus.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312
23 de janeiro — São João Esmoler — Padre João Batista Lehmann