23 de dezembro — São Sérvulo
23 de dezembro — São SérvuloExtraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Nos tempos do Papa São Gregório I, vivia em Roma um mendigo, chamado Sérvulo, de cujas virtudes e santidade aquele grande Papa e Doutor da Igreja dá o seguinte testemunho:
“Sérvulo era um mendigo, que todos os dias se fazia transportar para o adro da Igreja de São Clemente, onde implorava a esmola dos transeuntes. Desde o berço tinha o corpo tão mal tratado pelo reumatismo, que até à morte lhe era impossível andar, manter-se em pé ou sentar-se, de modo que a única acomodação era ficar deitado e ainda assim não podia mover-se de um lado para o outro. O reumatismo não lhe permitia levar a mão à boca. A mãe e um irmão tratavam dele, como de uma criança de poucos meses. A extrema pobreza em que viviam, obrigava-os a recorrer à caridade dos outros. Apesar do estado miserabilíssimo em que se achava, Sérvulo nunca proferiu uma palavra de queixa, ou de desânimo, ou desespero contra a doença e as dores que lhe causava; muito menos levantava a voz contra Deus e suas santas determinações; pelo contrário, era admirável observar-lhe a conformidade com a vontade de Deus, e como se animava com citações da Sagrada Escritura, louvando em tudo e sempre a Deus Nosso Senhor.
A ocupação predileta de Sérvulo era a oração e a recitação dos Salmos, como a audição de uma leitura espiritual. Quando recrudesciam as dores, louvava e agradecia a Deus, mostrando sempre a maior paciência. De outros pobres tinha grande compaixão. A mãe e o irmão deviam repartir entre estes o que lhes sobrava das esmolas recebidas. Na pobre casa em que residia, recebia sacerdotes pobres, que vinham a Roma sem poder encontrar outra hospedagem. Da presença dos ministros de Deus tirava o maior proveito para a alma. Pedia-lhes que lhe lessem livros espirituais. Se bem que não soubesse ler, sabia de cor toda a Bíblia. Das esmolas que lhe davam, pôde adquirir uma Bíblia e outros livros religiosos — de que os hóspedes lhe deviam ler. Não havendo às vezes quem lhe fizesse esta caridade, pedia a um pobre que, a troco de uma esmola, lhe fizesse leitura durante uma ou mais horas, em casa ou no lugar onde arrecadava esmolas. Desta maneira adquiriu um vasto conhecimento da ciência dos Santos e conservou-se a si próprio no constante exercício de uma penitência imperturbável e heroica até o fim da vida.
Durante muitos anos Deus apresentou ao mundo cristão um modelo exemplar e admirável de paciência na pessoa do seu devoto Sérvulo, até ao dia em que o chamou para receber a recompensa eterna. O mal que o cruciava, atacou também os órgãos interiores, causando-lhe horríveis dores, que terminaram com a morte. Sérvulo não se iludia sobre seu estado e, embora a vida lhe fosse uma preparação contínua para a morte, sentindo-a aproximar-se, redobrou de zelo para ter uma morte santa. Fez tudo que um bom cristão em semelhantes circunstâncias deve fazer, e numa noite chamou à cabeceira todos os sacerdotes que se achavam em sua casa e convidou-os com muito empenho para cantarem alguns Salmos, pois a morte estava perto. Os sacerdotes satisfizeram-lhe o desejo e cantaram uns Salmos, no que eram secundados pelo moribundo, cuja voz estava quase apagada. De repente parou e clamou em alta voz: “Silêncio, silêncio! Não estais ouvindo os Anjos cantarem? Não ouves como louvam e bendizem a Deus, seu Senhor?” Levantando o rosto transfigurado para o céu, como se visse o cortejo dos Anjos e lhes ouvisse os cânticos maviosos, exalou o espírito. No mesmo instante do cadáver do Santo se desprendeu um perfume deliciosíssimo, que causou a admiração de todos que estavam presentes. Era convicção de todos, que a alma do Santo voara para o céu, acompanhada dos Santos Anjos; pois era a recompensa bem merecida da pureza e santidade de sua vida, como da paciência e conformidade com que levara a cruz da moléstia.” É desta maneira que se externa o grande Papa São Gregório I. A morte do Santo ocorreu provavelmente no ano de 590.
Reflexões
A vida do pobre São Sérvulo estar cheia de bons ensinamentos, que aquele admirável servo de Deus deu pelo exemplo. Um deles é o desejo de conhecer a ciência dos Santos. Não sabendo ler, comprava livros e pedia a outros que lhe fizessem uma leitura. Dos santos livros tirava a força de suportar com paciência as dores provenientes da doença. Pela leitura dos santos livros educava-se à prática das virtudes em alto grau. — É incalculável a utilidade para a alma da leitura de bons livros. Livros ímpios, obscenos e heréticos, produzem males muito grandes, na alma de quem os manuseia. Resultado de tal leitura deve ser e, é sempre, o enfraquecimento da fé e o relaxamento dos costumes. A leitura de bons livros, porém, produz o contrário: amor à religião, temor de Deus, sentimentos de penitência e resoluções de verdadeira e sincera conversão. “Exorto-vos — escreve São Crisóstomo — a dedicar bastante tempo à leitura espiritual, e de acordo com ela, orientar a vossa vida.” São Gregório chama os livros espirituais, cartas que Deus envia às criaturas: “O Rei do céu, o Senhor dos Anjos e dos homens envia-te suas cartas e tu não te darás a pena de as ler?” Como o príncipe das trevas se serve da má imprensa para perder almas, como os maus livros e jornais são os órgãos de propaganda satânica, assim o Espírito Santo fala e ensina pelos bons livros e jornais. A quem darás preferência?
Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:
Em Roma, a virgem e mártir Victoria, da perseguição daciana. Prometida em casamento a um jovem pagão, negou-se a casar com um idólatra e prestar culto aos deuses. O noivo entregou-a então, ao tribunal, que a condenou à morte. 253.
Em Nicomédia o triunfo de vinte e dois mártires, na perseguição diocleciana. 303.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii ↩