23 de agosto — São Filipe Benício, Confessor
23 de agosto — São Filipe Benício, ConfessorExtraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
São Filipe Benício era descendente de nobre família de Florença. A mãe, senhora muito piedosa, foi revelado em sonho a futura santidade do filho. Isto concorreu para que se esmerasse ainda mais na educação que deu ao mesmo. Filipe, já tendo concluído seus estudos e estando, porém, sem saber a que profissão devia dedicar-se, foi assistir à Santa Missa, na quinta-feira depois da Páscoa, numa capela que os Servitas possuíam, fora da cidade. À leitura da Epístola, ouviu as palavras que o Espírito Santo dissera ao diácono Filipe: "vai e aproxima-te do carro". Arrebatado em Espírito, parecia-lhe estar no meio dum vasto campo, onde não se viam senão altas montanhas e penhascos inacessíveis. Em redor havia só espinhos, armadilhas, imundícies e animais nojentos. Tão impressionado ficou com esta visão que, guiado ainda pelo instinto de conservação, gritou por socorro. Levantando os olhos, viu no alto Maria Santíssima, sentada num carro e rodeada de muitos Anjos e Santos, tendo nas mãos o hábito igual àquele que os Servitas usam. A mãe de Deus, dirigindo-se a ele, disse-lhe as mesmas palavras da Epístola: "Filipe, vai e aproxima-te deste carro".
Passada a visão, voltou a si. Dissiparam-se-lhe as dúvidas sobre a vocação e logo no dia seguinte, pediu admissão, como irmão leigo, na Ordem dos Servitas. Foi aceito e desde os primeiros dias da entrada, deu a todos o exemplo de religioso perfeito, que, como virtude principal, cultivava a humildade. Ocultando cuidadosamente a nobre origem, a cultura intelectual, não teve em mira outra coisa senão imitar Jesus Cristo na humildade e no espírito de penitência.
Os trabalhos mais humildes eram os que mais procurava. Por mais pesado e fatigante o trabalho fosse, Filipe entregava-se-lhe com toda a dedicação, rendo diante dos olhos o exemplo de Nosso Senhor, de São José, dos maiores Santos do Antigo e do Novo Testamento, pois todos eram trabalhadores.
Filipe conhecia bem e praticava melhor a arte de ficar unido a Deus, quando as mãos estavam ocupadas em árduo labor. Virtude tão distinta não podia deixar de chamar sobre si a atenção dos confrades. Nem tão pouco podiam ficar desconhecidos seus conhecimentos científicos e grande preparo espiritual, e assim aconteceu que os superiores o tirassem das ocupações humildes e secundárias e o apresentassem como candidato ao sacerdócio e, mais tarde, o propusessem para o alto cargo de superior-geral da Ordem. Com todo empenho Filipe se opôs a essa vontade dos confrades. Devendo, porém, aceder às insistências da Comunidade, toda a atenção se lhe dedicava
à expansão da Ordem e propaganda da fé. Uma das primeiras ordens expedidas por ele, como superior-geral, foi a pregação do Evangelho na Cítia, para onde enviou alguns missionários. Ele mesmo, acompanhado por dois confrades, percorreu grande parte da Itália, pregando penitência aos pecadores, animando os católicos a prestarem obediência do Papa, e intensificando por toda parte a devoção a Nossa Senhora. Deus abençoou-lhe visivelmente a missão e o nome de Filipe, como dum grande missionário, estava na boca de todos, clérigos e leigos.
Em Viterbo estavam reunidos em Conclave os Cardeais da Igreja. Vendo-se em grande dificuldade para eleger um Papa, depois de muitos escrutínios, deram os votos a Filipe. Este, tendo notícia da eleição, fugiu para as montanhas desertas de Thuniati, onde permaneceu em seguro esconderijo até que soube que os Cardeais tinham desistido do seu nome e eleito outro Papa.
Filipe guardou durante toda a vida a inocência batismal e para isto conseguir, sujeitou o corpo às mais duras mortificações. Homem de oração, fossem quais fossem as ocupações, tinha o espírito constantemente unido a Deus. Trabalho nenhum começava sem que invocasse primeiro o auxílio de Deus. A caridade para com Deus e o próximo, era o único motivo de suas contínuas e penosíssimas viagens.
De todas as devoções, a que mais cultivava era a de Nossa Senhora. Fora convite de Maria Santíssima que tomara o hábito dos Servitas e manifestava a gratidão para com a divina Mãe, fazendo-se Apostolo do seu culto. Em todas as práticas lhe exaltava o santo Nome e animava os fiéis a porem toda a confiança em Maria Santíssima e a imitarem-lhe as virtudes.
Longos anos tinha Filipe dedicado à vida missionária, tão cheia de trabalhos, sacrifícios e responsabilidades e só a abandonou, quando sentiu faltarem-lhe as forças e apresentarem-se-lhe os primeiros indícios do enfraquecimento do organismo. Recolhido ao convento de Todi, ali começou a preparação para a morte. Na festa da Anunciação de Nossa Senhora fez o último sermão, com um entusiasmo tal, que causou admiração aos ouvintes. Quando desceu do púlpito, sentiu-se levemente agitado pela febre. Embora os confrades não ligassem muita importância a esta circunstância, Filipe tomou-a como prenúncio da morte, para a qual começou logo a se preparar meticulosamente. Com uma devoção que a todos edificou, recebeu os santos Sacramentos. Terminadas as cerimônias sacramentais, rezou os salmos penitencias e a Ladainha de Todos os Santos. Quando chegaram à invocação: "Nós pecadores, ouvi-nos, Senhor", o doente caiu cm êxtase, perdendo o uso dos sentidos de tal forma, que todos o julgavam morto. Nesse estado permaneceu durante três horas. Foi então que um dos confrades lhe falou alto ao ouvido, o que o fez voltar a si. Parecia então como se acordasse de um profundo sono e contou que, durante todo o tempo do arrebatamento, teve uma luta horrível com o demônio que, objurgando-lhe os pecados, procurava por todos os meios levá-lo a desesperar da misericórdia divina. No auge da tentação, apareceu no meio a Santíssima Virgem, à cuja aparição o espírito infernal o deixou. Com tanta comoção Filipe contou este encontro com o demônio, que a todos impressionou profundamente. Pediu que lhe dessem seu livro — assim chamava a imagem do Crucificado. Estreitou-a fortemente contra o peito e entoou com entusiasmo o canto de Zacarias, acrescentando-lhe as palavras: "Em vós, meu Deus, confiei; em vossas mãos recomendo meu espírito". Mais um olhar cheio de fé dirigiu ao Senhor Crucificado e a alma evolou-se-lhe, em demanda dos páramos celestiais. A biografia de São Filipe Benício está repleta de milagres, que Deus se dignou de fazer por intermédio de seu santo servo.
São Filipe foi canonizado por Clemente X e pelo mesmo Papa fixada a festa para o dia 23 de agosto.
Reflexões
A vida de Filipe Benício ensina-nos o bom uso do tempo, pelo trabalho honesto e assíduo. Embora fosse de família nobre, não se eximia dos serviços, nem dos mais pesados da Comunidade. Em tudo procurava só a glória de Deus. Tendo as mãos no trabalho, o coração estava junto de Deus e satisfazia plenamente as ordens dos superiores.
A operosidade é uma qualidade que deve distinguir todo cristão. Um bom cristão é sempre um cumpridor do dever e bom trabalhador. A ociosidade, a preguiça é incompatível com o espírito de Cristo e a mãe de todos os vícios. O preguiçoso não dá a Deus a honra que lhe deve e a cada instante ofende os interesses do próximo.
O preguiçoso é mau cristão, mau cidadão e mau amigo. Há cristãos que ociosos não são e se queixam de que lhes falta o tempo necessário para ir à igreja e para tratar da alma e da salvação eterna. Sempre ocupados, não se ocupam como e com o que deviam. Perdem o tempo com ninharias e esquecem-se dos trabalhos de obrigação. Estes não correspondem à vontade de Deus, que quer fidelidade também nas coisas pequenas. O céu é prometido ao servo fiel, ao trabalhador dedicado, ao cumpridor dos deveres.
Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:
Em Jerusalém o bispo Zacarias, terceiro sucessor dos santos Apóstolos.
Em Alexandria a memória do bispo São Teonas.
Em Clermont-Ferrand, o santo bispo Sidônio, célebre em ciência e santidade.
Em Óstia, os santos mártires Ciríaco, bispo, Máximo, presbítero, Arquelau, diácono e seus companheiros. 3. sec.
Em Antioquia o trânsito dos santos mártires Restituto, Donato, Valeriano e Fruttuosa. 3. sec.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii ↩