23 de abril — São Jorge, Mártir
23 de abril — São Jorge, MártirExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
São Jorge, um dos mártires mais gloriosos da Igreja, goza de geral veneração tanto na Igreja Ocidental como na Oriental. Na Igreja grega, seu nome figura entre os maiores Santos, e o dia de São Jorge é dia santo de guarda. Em Constantinopla existiam cinco ou seis igrejas dedicadas ao seu nome. Uma delas foi construída pelo imperador Constantino, bem como aquela outra que se eleva sobre seu túmulo na Palestina. Existe ainda uma igreja de São Jorge em Bizâncio, na Armênia, que tem por construtor o imperador Justiniano. Das igrejas de São Jorge, porém, a mais célebre era aquela que se achava no estreito do Bósforo, à qual o povo deu o nome de "Manganes", ou "braço de São Jorge".
Também na Igreja Ocidental a memória de São Jorge era muito venerada. A província de Geórgia tem o nome do glorioso mártir. Os historiadores gregos enumeram grande cópia de milagres, que se deram por intercessão de São Jorge, e muitas vitórias foram atribuídas à sua intervenção. São Gregório de Tours faz menção de peregrinações, que cristãos do Ocidente faziam ao túmulo de São Jorge, em Jerusalém. Santa Clotilde tinha grande veneração a este Santo e dedicou-lhe a igreja do seu querido Convento de Chelles.
As cruzadas trouxeram nova animação, ou antes, grande entusiasmo ao culto de São Jorge. A cidade de Gênova, escolheu-o para principal padroeiro. Na Espanha o dia de São Jorge é celebrado como festa de primeira classe, com oitava. Na devoção de São Jorge nenhum país tanto se distinguiu como a Inglaterra.
O concílio nacional de Oxford de 1222 ordenou a celebração solene da festa de São Jorge, em todas as ilhas britânicas. Monumentos antiquíssimos não deixam dúvida, sobre que já no tempo dos reis normandos, São Jorge figurava como padroeiro do país inteiro. Eduardo III, agiu bem de acordo com o sentimento do povo, pondo debaixo da proteção de São Jorge a célebre Ordem da Jarreteira, por ele fundada em 1340. Frederico III, em 1468, criou a ordem militar de São Jorge na Alemanha.
Tudo isto faz crer, que São Jorge viveu nos primeiros séculos da cristandade e mereceu a confiança do povo cristão pelo grande poder que manifestou ter junto ao trono de Deus. Existem, porém, conhecimentos muito vagos da sua vida e do seu martírio. É opinião geral, que, São Jorge, natural de Nicomédia, morreu na perseguição de Diocleciano. Metafrastes escreve que Jorge, de descendência nobre da Capadócia, depois da morte de seu pai, mudou-se com sua mãe para a Palestina, terra natal dela, onde ocupou altas posições no exército de Diocleciano.
Quando este declarou guerra à religião cristã, Jorge renunciou à carreira militar e censurou energicamente a crueldade das medidas tomadas contra os cristãos. Esta sua franqueza custou-lhe caro. Encarcerado, foi submetido a duríssimas provas de constância. O governo, não conseguindo sua apostasia, condenou-o à morte pela espada.
A arte cristã representa São Jorge como cavaleiro que, combatendo um dragão, salva a vida a uma princesa. Esta representação é meramente alegórica. O dragão vencido por São Jorge, representa o espírito mau do paganismo. A princesa simboliza a esposa de Diocleciano, Alexandra, que, vendo a constância do mártir, se converteu ao cristianismo. As atas da vida de São Jorge, nem tão pouco os hinos da liturgia grega, fazem menção nem do dragão, nem da princesa.
Reflexões
São Jorge foi um dos Santos mais festejados na Igreja antiga, à quem os fiéis recorriam com muita confiança em todas as suas dificuldades. O povo cristão sempre teve e ainda tem seus prediletos, na grande coroa dos Santos. São Geraldo, São Roque, Santa Teresa do Menino Jesus e muitos outros gozam de uma popularidade pouco vulgar. Não há mal nenhum nisso. O culto prestado aos Santos é agradável a Deus e útil a nós mesmos, contanto que não seja inspirado por motivos menos elevados e dignos. Um culto que não passa de um mero sentimentalismo, sem as bases da fé, e sem o firme propósito de emenda de vida, pela imitação fiel e constante das virtudes dos Santos que veneramos, pode ser bonito, brilhante, encantador, sem produzir o mínimo efeito na vida espiritual da alma. Devoção verdadeira e sincera aos Santos não é possível que haja sem a imitação das suas virtudes. Como os Santos viveram rezando, penitenciando-se, sofrendo e trabalhando, assim também nós não teremos traçado outro caminho para o céu, senão o da oração, da penitência, do sofrimento e do trabalho. Devoção a Santo nenhum existe, que nos isente desta lei.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩