22° Domingo depois de Pentecostes: O tributo de César e a obrigação de amar a Deus
22° Domingo depois de Pentecostes: O tributo de César e a obrigação de amar a DeusExtraído do livro Meditações para todos os dias e festas do ano tiradas das obras ascéticas de Santo Afonso Maria de Ligório, Bispo e Doutor da Igreja, pelo Padre Thiago Maria Cristini, edição de 1921, tomo III: Desde a 12ª Semana depois de Pentecostes até ao fim do ano eclesiástico1
Reddite quae sunt Caesaris Caesari, et quae sunt Dei Deo – “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt. 22, 21)
Sumário. Para convencer os fariseus da obrigação de pagarem tributo a César, o divino Redentor mostrou-lhes a imagem estampada na moeda com que costumavam pagar o tributo. Lancemos nós também um olhar sobre nós mesmos: consideremos que fomos criados por Deus à sua imagem e semelhança; lembremo-nos mais que no santo batismo nos foi impresso o caráter indelével de discípulos de Jesus Cristo, e facilmente chegaremos a esta bela conclusão: Dai a Deus o que é de Deus.
I. É esta a bela resposta que no Evangelho de hoje Jesus Cristo dá aos fariseus, que, com o intuito maligno de O apanharem em suas palavras, O interrogavam sobre se era ou não lícito pagar o tributo: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus“. Por estas palavras quer ensinar-nos que devemos dar aos homens o que Ele o quer todo para si.
Isto é de inteira justiça, porque o Senhor não é somente a primeira Verdade, mas além disso o supremo Bem. Como portanto o nosso entendimento paga a Deus, como à primeira Verdade, o tributo de submissão pela fé, crendo sobre a palavra de Deus coisas que não compreende; assim a nossa vontade deve pagar a Deus, como ao Bem supremo, um tributo de afeto, “amando-o com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças” 2. Tanto mais que é unicamente para cativar o nosso amor que Jesus se fez homem, nos remiu com o seu preciosíssimo sangue e morreu sobre a cruz nos mais atrozes tormentos.
Ó meu lastimoso Redentor! Quantos são os que Vos amam? Vejo a maior parte dos homens ocupados em amarem, uns os parentes, outros os amigos, outros até os animais; mas Jesus não é amado; ao contrário, é ofendido e pago com a mais negra ingratidão. – Meu irmão, quero crer que te achas em estado de graça e por isso quero crer que amas Jesus Cristo. Podes, porém, dizer que o amas de todo o teu coração?… És porventura um daqueles que, levando vida tíbia, nutrem a ilusão de poderem servir ao mesmo tempo a dois senhores inteiramente opostos, como são Deus e o mundo? – Ah! Lembra-te, assim te direi com São Felipe Neri, que todo o amor que consagramos às criaturas é roubado de Deus; se não cuidarmos em séria emenda, acabaremos cedo ou tarde por o roubarmos todo.
II. Observa o Evangelho que, para convencer os fariseus da necessidade de pagar o tributo, Jesus se fez mostrar a moeda do tributo, e referindo-se a ela, disse: “De quem é esta imagem e inscrição?” E tendo eles respondido: “É de César“, o Senhor logo acrescentou: “Dai, pois, a César o que é de César“. Como se dissesse: Já que do imperador recebestes a moeda, justo é que lh’a restituais pagando o tributo.
É o que tu também deves fazer para que mais facilmente te resolvas a pagar teu tributo a Deus. Pergunta muitas vezes a ti mesmo: Cuius est haec imago et superscriptio? – “De quem é esta imagem e inscrição?”. Quer dizer: Põe-te a considerar que foste criado por Deus à sua imagem e semelhança e para o único fim de o amares; considera mais que no santo Batismo te foi impresso o caráter indelével de discípulo de Cristo; e logo chegarás à conclusão que deves dar a Deus o que é de Deus: Reddite ergo quae sunt Dei, Deo.
Ó meu Senhor, visto que me quereis todo para Vós, eis que me dou a Vós todo inteiro, sem reserva. Não quero que outro qualquer me roube uma parte deste coração que Vos criastes só para Vós, ó bondade infinita, digna de amor infinito. O meu coração é muito pequeno para Vos amar tanto como mereceis. Que injustiça, pois, não Vos faria, se o quisesse dividir para amar outra coisa que não seja Vós? Não, meu Jesus amabilíssimo, só a Vós quero amar, e nesta vida e na outra nada desejo senão o tesouro de vosso amor, ó Deus de meu coração e minha herança para sempre 3.
Não desprezeis o amor de um pecador que outrora Vos ofendeu; abrasai sempre mais em mim as felizes chamas do amor, e sede em toda ocorrência o meu refúgio e a minha força. – “Ó Pai Eterno, pelo amor de Jesus Cristo atendei-me, pois que sois o mesmo autor da piedade, e fazei que eficazmente consiga o que Vos peço com viva confiança” 4.† Doce Coração de Maria, sede minha salvação.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/meditacoes-santo-affonso-maria-de-ligorio-tomo-iii ↩
- Dt. 6, 5 ↩
- Sl. 15, 5 ↩
- Or. Dom. curr. ↩