22 de outubro — São Teodoreto, Sacerdote e Mártir († 362)

22 de outubro — São Teodoreto, Sacerdote e Mártir († 362)
, ,

Extraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

Juliano, governador do Oriente, tio do Imperador do mesmo nome e, como ele, apóstata, soube que no tesouro da igreja principal de Antioquia existia grande número de vasos preciosíssimos de ouro e prata. Formou o plano de tirá-los de lá. Para consegui-lo com mais facilidade, baixou uma ordem segundo a qual todos os zeladores da igreja teriam de abandonar a cidade.

Havia em Antioquia um sacerdote, de nome Teodoreto, que no tempo do Imperador Constâncio tinha quebrado muitos ídolos e construído grande número de igrejas, sobre os túmulos dos mártires. Este sacerdote era o guarda-mor da igreja. Não só não saiu da igreja, mas continuou a reunir os fiéis e celebrar a santa Missa.

Juliano mandou prendê-lo e, com as mãos atadas às costas, conduzi-lo à sua presença. Repreendeu-o rudemente por ter derrubado os antigos ídolos e construído igrejas. Teodoreto não negou o que tinha feito, mas lembrou a Juliano o tempo em que este era cristão e o crime de que se tinha feito culpado, abandonando a religião.

Juliano mostrou logo seu caráter diabólico, dando ordens para que Teodoreto fosse açoitado no rosto e nas plantas dos pés. Depois os algozes o amarraram em quatro postes, esticando-lhe os braços e as pernas com tanta força, que quase os desarticularam. Juliano acompanhou essas torturas com ditos sarcásticos. O mártir, porém, exortou-o a que se convertesse e desse honra a Jesus Cristo, por quem tudo foi feito.

Não satisfeito com as ordens bárbaras que já tinha dado, Juliano mandou que Teodoreto fosse colocado sobre o cavalete. Vendo correr o sangue em grande abundância, disse ao mártir:

— Pelo que vejo, não sentes dor.

Teodoreto respondeu:

— De fato, nada sinto, porque Deus está comigo.

Juliano, então, ordenou aos algozes que lhe queimassem as carnes com tochas ardentes. Teodoreto, sofrendo horrivelmente, levantou os olhos para o céu, pedindo a Deus que glorificasse seu nome eternamente. No mesmo instante os algozes caíram por terra como mortos, tanto que o próprio Juliano se assustou. Voltando-lhe a calma, mandou aos mesmos que continuassem com a execução das ordens. Estes, porém, terminantemente se negaram a isso e alegaram como motivo desse procedimento terem visto alguns Anjos falar com Teodoreto. Juliano enfureceu-se sobremodo e deu ordem para que a vítima fosse atirada ao mar.

Teodoreto disse aos algozes:

— Ide adiante, meus irmãos; eu seguirei e vencerei o inimigo.

— Que inimigo? — perguntou Juliano.

— O inimigo — respondeu Teodoreto — é Satanás, vosso chefe. Quem dá a vitória é Jesus Cristo, o divino Salvador.

Juliano, cada vez mais enfurecido, começou a ameaçar Teodoreto com a morte.

— “É justamente isso que quero — disse Teodoreto. — Tu, porém, morrerás na tua cama, atormentado de terríveis dores. Teu soberano, que julga poder vencer os Persas, será desbaratado; mão invisível o matará e ele não tornará a ver o território romano”.

Terminado este vaticínio, ouviu a sentença de morte pela espada e entrou na glória eterna, aureolado com a coroa do martírio. A morte do Santo teve lugar em 362.

Juliano apoderou-se das riquezas da igreja e os vasos foram horrivelmente profanados.

O castigo não tardou. Juliano, tio do imperador, teve uma morte horrível.

Vermes saíram-lhe do corpo e roeram-lhe as entranhas. Durante quarenta dias sofreu as mais atrozes dores, até que a morte o livrou. Juliano, o Imperador, caiu morto, fulminado por uma mão invisível e não mais voltou ao território romano, enquanto fazia uma guerra inglória contra os Persas.

REFLEXÕES

Juliano, educado cristãmente, apostatou da religião, tornando-se idólatra e inimigo de Cristo. Não houve argumentação que o convencesse do erro e o reduzisse à verdade. Diante de inegáveis milagres, permaneceu irredutível. Que triste queda de um cristão, de um homem inteligente! Não há hoje também homens que se dizem cristãos, que foram recebidos no seio da Igreja e que vivem zombando da religião? Pode Deus deixar impune tamanho crime? Só se fosse um Deus morto; mas Deus é um Deus vivo, que zela pela sua honra e pela de seu Filho. “Coisa terrível é cair nas mãos do Deus vivo!” — diz o Apóstolo São Paulo (Hebreus 10, 31). Cair nas mãos do Deus vivo quer dizer ser entregue à sua justiça, quer dizer receber o castigo merecido, quer dizer sofrer sem consolo, sem auxílio, sem companhia das criaturas.

Tristíssimo foi o fim dos dois Julianos. O ímpio terá um fim igualmente desolador. “Quem não aceitar as minhas palavras, terá quem o julgue. A palavra que eu falei julgá-lo-á no último dia” (João 12, 48).

Santa Úrsula

Neste dia se comemora a festa de Santa Úrsula, virgem e mártir. Filha de reis da Inglaterra, foi com um grande séquito de donzelas amigas à Renânia. Fez uma peregrinação à Roma. De volta à Colônia, encontrou a cidade ocupada pelos Hunos. Preferiu morrer a entregar-se às hordas bárbaras de Átila. Com ela, morreram mártires as onze mil companheiras. Uma linda igreja em Colônia abriga o túmulo de Santa Úrsula.

Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:

Em Jerusalém, o bispo Marcos, de descendência pagã, morto na perseguição de Antonino. 156.

Em Huesca, as santas virgens Nunilo e Alódia, irmãs, vítimas do fanatismo dos maometanos. 841.

Em Colônia, Santa Córdula, uma das companheiras de Santa Úrsula. Vendo os horrores por que passavam as outras, escondeu-se. Movida, porém, de arrependimento e de vergonha, saiu do seu esconderijo e aceitou a morte.

Em Jerusalém, a memória de Maria Salomé, de quem o Evangelho refere ter cuidado do túmulo de Nosso Senhor. Segundo São Mateus (27, 56 e 20. 20), é Maria Salomé a mãe de Tiago e João, mulher de Zebedeu. Uma lenda quer saber desta Santa, ter ela sido parteira e testemunha do nascimento de Nosso Senhor. Como não quisesse crer na virgindade de Nossa Senhora, teria ficado com a mão atrofiada, mais tarde curada por Nosso Senhor.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii
22 de outubro — São Teodoreto, Sacerdote e Mártir († 362) — Padre João Batista Lehmann