22 de março — São Nicolau de Flue, Eremita

22 de março — São Nicolau de Flue, Eremita
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Extraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

São Nicolau de Flue, chamado também da Rocha, nasceu em 1407, na Suíça, em Sachseln, pequena aldeia do Cantão de Unterwald. Sua mocidade passou na casa paterna, ajudando ao pai nos trabalhos do campo. Sem cultura espiritual, possuía Nicolau profunda piedade. Embora seu desejo fosse viver afastado de tudo e de todos, cumprindo a vontade dos pais, casou-se com Dorotéia Wissling, moça muito religiosa e virtuosa. Deus deu ao casal dez filhos. Descendentes desta família existem ainda, e um dos filhos de Nicolau foi vigário em Sachseln. Na descendência contam-se até hoje mais de 30 sacerdotes. Nicolau ocupou, por muitos anos, o cargo de juiz. Convidado diversas vezes para ser presidente do Cantão, sempre declinou de si esta dignidade. Tomou parte ativa em diversas guerras, como por exemplo na guerra de Zurique, numa expedição contra os austríacos, e na guerra de Turgóvia. Como soldado, vivia sempre honestamente, não dispensando nunca suas práticas de piedade. Aos seus companheiros, além do bom exemplo, dava conselhos, repreendendo-os quando se entregavam a excessos lastimáveis.

O desejo de viver na solidão nunca mais o abandonou. Afinal conseguiu esse seu ideal. De combinação com sua mulher, tendo feito as disposições necessárias na família, separou-se de todos, e procurou um lugar onde, só com Deus e só para Deus pudesse viver. Depois de, por diversas vezes, ter mudado seu paradeiro, ficou morando em um lugar ermo e abandonado, nas margens do Melcha, distante um quarto de hora de sua casa. Os seus construíram-lhe ali uma capela e uma pequena cela e ele mesmo fundou em 1482, uma capelania. Nicolau passou o resto da vida naquele lugar. Extraordinariamente rigoroso para consigo, sua vida decorreu no meio de orações, penitências, jejuns e toda a sorte de mortificações. Sua cama era uma tábua e de travesseiro servia-lhe uma pedra. A cela era tão baixa, que Nicolau, homem de alta estatura, mal podia andar nela. Nos domingos e dias santos ia assistir à Missa em Sachseln e, por mais frio que fizesse, nunca ia de outro modo, senão descalço e com a cabeça ao léu. Oração e meditação eram suas ocupações contínuas. Diversas vezes fez romarias a Einsiedeln e Engelberg. Nicolau no seu ermo tornou-se o conselheiro e consolador de muita gente, e não eram só as pessoas da vizinhança que o vinham procurar na sua cela. A fama do Santo transpôs os limites da Suíça e por toda a parte gozava da maior estima e veneração. De Estrasburgo, Halle, Ulm, da Renânia e Itália vinham pessoas de posição, pedir conselho ao eremita, buscar consolo em suas mágoas. Nicolau recebia a todos com muita bondade e ninguém o deixava, sem sentir alívio nas dores. Amável, hospitaleiro e versado, não se implicava com os negócios do século, e era inacessível a mexericos e intrigas. Deus o distinguiu com graças extraordinárias. Durante todo o tempo de sua vida de eremita, isto é, 20 anos, não tomou alimento de espécie alguma. O corpo de Nosso Senhor, na Sagrada Comunhão, dava-lhe o sustento sobrenatural, conservando-lhe também a vida material. Este fato de todo extraordinário mereceu a atenção da autoridade civil e eclesiástica. O Bispo auxiliar de Constança, com o governo federal, organizaram, independente um do outro, comissões examinadoras, que sujeitaram o Santo à mais rigorosa fiscalização. O exame terminou com o reconhecimento do fato.

Muitos outros milagres Deus obrou por intermédio de seu humilde servo. A muitos pecadores Nicolau desvendou o estado da consciência, convidando-os a voltar para Deus. A um jovem, que se lhe apresentou em trajes que acusavam muita vaidade, disse-lhe: “Quem tem boa consciência, não precisa de enfeite. Tua consciência estaria em melhores condições, se não fosses tão vaidoso”. A um menino predisse muita vida, a um outro morte próxima. Um terrível incêndio ameaçava a destruição da aldeia de Saen; Nicolau, subiu a uma montanha, fez o Sinal da Cruz sobre a povoação e no mesmo instante a fúria do elemento desencadeado cessou. Grandes e funestas dissenções entre cidadãos e partidos foram pacificamente resolvidas pela intervenção de Nicolau.

O grande eremita morreu santamente em 21 de março de 1487. Seu corpo foi sepultado em Sachseln. Nicolau foi beatificado por Papa Inocêncio X, em 1649. E em 15 de maio de 1947, foi canonizado por Papa Pio XII.

Reflexões

1. O jejum não goza de popularidade, e logo no princípio da quaresma chovem os pedidos aos confessores, para que deem dispensa do jejum. — Quem não está em condições de poder jejuar, também não tem obrigação de o observar. — O aborrecimento do jejum pode ser muito natural, mas não é comum entre os Santos, que, sem exceção, ao jejum recorriam como a um dos meios mais eficazes de se restabelecer na graça de Deus e de se munir contra as insídias do inimigo. “Se Cristo fez o sacrifício de morrer por nós, nós não podemos também fazer um sacrifício por seu amor e observar pelo menos algum jejum, praticar alguma mortificação, cujo resultado é muito mais vantajoso à alma, do que desvantajoso ao corpo enfraquecido?”

2. Sentindo-se seriamente doente, Nicolau de Flue não esperou até que o lembrassem de receber os Santos Sacramentos, pois, ele mesmo reclamou que lhos trouxessem. Se um dia Deus te mandar uma doença mais grave, um dos teus primeiros cuidados seja, providenciar a recepção dos Santos Sacramentos. Tolos são os que, em vez de reclamar a presença do sacerdote, tudo fazem para afastar sua visita e protelar a recepção dos Sacramentos que tanto bem fazem à alma do enfermo ou moribundo. Rejeitar os Santos Sacramentos ou é ignorância ou ingratidão, descuido ou maldade. Ingratidão é rejeitar uma graça que Deus Nosso Senhor nos mereceu pelo seu sangue derramado na cruz, e maldade é resistir por vontade ao chamamento de Deus que quer a salvação do pecador.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312
22 de março — São Nicolau de Flue, Eremita — Padre João Batista Lehmann