22 de janeiro — São Vicente e Santo Anastácio, Mártires

22 de janeiro — São Vicente e Santo Anastácio, Mártires
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Extraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

A Igreja comemora no dia de hoje a festa de dois grandes mártires. São Vicente, em cuja memória Santo Agostinho fez diversos Sermões, nasceu em Saragoça, na Espanha, e recebeu do Bispo Valério o diaconato. Valério com dificuldade falava; para que aos seus diocesanos não faltasse a pregação da palavra divina, encarregou a Vicente da missão de pregar em seu lugar. O jovem diácono desempenhou-se com tanta proficiência deste seu cargo, que a diocese de Saragoça se distinguiu pelo espírito de piedade. Quando Diocleciano principiou a perseguição, apareceu na Espanha seu emissário Daciano, com ordem de exterminar a Igreja Católica naquele país. Valério e Vicente foram as primeiras vítimas. Valério foi mandado ao desterro, e Vicente, submetido a cruéis torturas. Tão desumanas elas foram, — assim opina Santo Agostinho — que para sofrê-las era preciso uma assistência divina especial. O mesmo Santo Padre elogia em Vicente uma paciência angélica, uma tranquilidade imperturbável e uma paz tão extraordinária, que causou a admiração e o espanto até aos próprios algozes. Daciano, ao ver isto, não pôde dominar sua fúria, que se manifestava no seu olhar faiscante e na sua voz trêmula. Ferro e fogo foram os instrumentos de que Daciano se serviu, para martirizar o santo diácono. Mas Deus não abandonou seu dedicado servo. O cárcere do mártir encheu-se de grande luz e os Anjos desceram, cantando com Vicente o louvor de Deus. O próprio carcereiro, vendo este espetáculo, converteu-se ao cristianismo e recebeu o Batismo. Os cristãos, a que antes era vedado entrar em comunicação com o diácono-mártir, aproximaram-se dele, beijaram as suas feridas e embeberam panos em seu sangue, guardando-os como preciosas relíquias. Para que os cristãos nada pudessem fazer com o corpo do mártir, Daciano deu ordem que fosse lançado num pântano, mas um corvo defendeu-o contra as feras. Determinou-se então atirar ele ao mar, mas o mar despejou-o. Os cristãos tomaram o corpo e sepultaram-no numa capela, perto de Valência. Mais tarde as santas relíquias foram transportadas para a abadia de Castres, em Languedoc, na França, ocasião em que observaram muitos milagres.

Santo Anastácio

Cosroes II, rei da Pérsia, tomou Jerusalém em 614, e nesta ocasião apoderou-se do Santo Lenho e levou-o consigo. Deus serviu-se desta circunstância para operar a salvação de muitos persas. Um deles foi Anastácio, filho de um célebre feiticeiro. A Santa Cruz, de que tanto se falava, excitou também sua curiosidade e o desejo de vê-la.

Sem ter a intenção de abraçar a religião de Cristo, nela se instruiu, e sua admiração cresceu à medida que se aprofundava nos santos mistérios. Depois de algum tempo, dirigiu-se a Hierápolis, hospedando-se na casa de um artista cristão. Este, no intuito de fazê-lo conhecer a fundo a religião cristã, convidou-o para assistir a diversas reuniões cristãs. As santas imagens, as representações dos Santos Mártires tocaram o seu coração bem ao vivo e despertaram nele o desejo de, como eles, um dia sacrificar sua vida em testemunho da fé, que estava prestes a abraçar. Após longa preparação, recebeu o Santo Batismo e entrou num convento em Jerusalém. O seu zelo era tão vivo e ardente que, em pouco tempo, entre os irmãos, era ele o primeiro em virtude e santidade. Sua leitura predileta, além da Bíblia, era a história dos mártires. As lutas e vitórias, os triunfos dos mártires o comoviam até as lágrimas e cada vez mais nele se pronunciou o desejo de morrer pela fé. Este desejo fez com que saísse do convento e se dirigisse a Cesareia, na Palestina. Vendo entre os soldados alguns que cometiam atos vergonhosos, censurou-os energicamente. Este seu rigor chamou a atenção do governador, que suspeitava de Anastácio um espião e mandou-o prender. Perguntado pela religião que professava, Anastácio respondeu que tinha abandonado a magia, para ser cristão.

Não faltaram promessas e ameaças que lhe fizessem renunciar sua fé — Anastácio permaneceu firme. Seguiram-se então os maus tratos e verdadeiras torturas. Anastácio, porém, a tudo só tinha uma resposta: “Sou cristão, e como cristão quero viver e morrer”.

São Justino, seu abade, sabendo dos sofrimentos que seu súdito sofria por amor de Cristo, mandou que a comunidade rezasse pelo pobre perseguido, para que não lhe faltasse a graça divina. Destacou dois monges, que o deviam visitar e consolar.

Da Palestina foi Anastácio, por ordem do imperador, transportado para a Pérsia. Lá o esperava o martírio tão almejado. Cosroes II, envidou primeiro todos os esforços para o afastar da religião cristã. Ofereceu-lhe uma alta patente no exército; permitiu-lhe viver como simples monge, contanto que só verbalmente negasse a fé cristã, embora de coração continuasse fiel discípulo de Cristo. “Que mal poderia causar esta negação? Poderá haver nisto uma ofensa a Cristo, se de coração com Ele ficas unido?” Anastácio declarou que teria horror até da sombra da hipocrisia. De novo foram-lhe oferecidas colocações honrosas.

A resposta de Anastácio foi a mesma: “A pobreza do meu hábito, — disse ao general — fala-te eloquentemente do desprezo que tenho das vaidades do mundo. Honras e riquezas de um rei, que hoje existe e amanhã será pó, não me tentam!” Vendo assim frustradas todas as tentativas, o rei recorreu à tortura. Todo o dia trouxe um novo tormento, uma nova provação. Anastácio, porém, preferiu sofrer a negar sua fé. O dia 22 de fevereiro de 628 trouxe-lhe afinal a salvação e a glória. Esgotadas a paciência e crueldade do rei, deu a ordem de enforcar e decapitar o Santo mártir.

Pouco antes da sua morte, Anastácio tinha predito a morte do tirano Cosroes II. Esta profecia realizou-se dez dias depois, quando o imperador Heráclio invadiu e conquistou a Pérsia.

O corpo do Santo, que tinha sido atirado aos cães, foi por estes respeitado, os fiéis tomaram-no e deram-lhe sepultura no convento vizinho, de São Sérgio. As suas relíquias foram mais tarde transportadas para Constantinopla e de lá para Roma.

Reflexões

1. Repara bem a resposta que Santo Anastácio deu ao oficial, que procurava fazê-lo apostatar. “As honras e riquezas de um rei, que é candidato à morte, não me podem tentar”; e “A quem devo temer mais, a um homem mortal ou a Deus, por quem foram criadas todas as coisas?” Não são todos que pensam como Santo Anastácio. Muitos dão às coisas do mundo preferência incondicional. Podendo eles escolher entre riquezas, honras e prazeres e uma vida só de Deus, sem a menor dúvida se decidem em favor daqueles. “Se o demônio prometesse grandes reinos, muitos lhe prestariam homenagens divinas. Muitos cometem grandes pecados por causa de uma moeda; que não fariam eles, se pudessem por um pecado ganhar um reino? “São Tomás de Vilanova). Quantas vezes não preferiste a Deus e à sua causa bens miseráveis deste mundo! Cada transigência que fazes à tentação, é um desprezo de Deus Nosso Senhor. Que lucro teria agora Santo Anastácio se tivesse aceito as honras que lhe eram oferecidas? Que lucro teve Judas com os trinta dinheiros que lhe pareciam valer mais que o próprio Mestre? Que lucro tu terás das transigências, que tantas vezes fazes, quando a lei de Deus e tua consciência não te deixam em dúvida sobre o modo com que deves agir?

2. Os Santos Vicente e Anastácio morreram pela fé. Dores crudelíssimas foram sua sorte, porque assim os tiranos quiseram. Estes receberam sua paga, e, os heróis de Cristo, uma vez livres do sofrimento, gozam no céu a eterna recompensa. A lembrança desta verdade deve sustentar-te em tuas lutas e provações. Tudo passa; também a dor, o sofrimento. A recompensa será eterna. Tudo que o pecado me prodigaliza: prazer, lucro e bem-estar, terá seu fim. O castigo, porém, que é o companheiro do pecado, não faltará e será eterno. É isto que Santo Agostinho quis frisar, quando no seu panegírico a São Vicente, disse: “Teve fim a ira, a crudelidade de Daciano, como fim teve o martírio de Vicente; o castigo de Daciano ficou e ainda perdura, como ficou e perdura a recompensa de Vicente”.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312
22 de janeiro — São Vicente e Santo Anastácio, Mártires — Padre João Batista Lehmann