22 de fevereiro — Santa Margarida de Cortona

22 de fevereiro — Santa Margarida de Cortona
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Extraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

Santa Margarida, natural de Alviano na Toscana, tem o sobrenome de Cortona, cidade onde passou grande parte de sua vida e morreu. Menina de 8 anos apenas, perdeu sua mãe, que a tinha educado com todo o cuidado nos princípios da religião católica. A perda da mãe foi o princípio da infelicidade da pobre menina. Não havendo quem guiasse seus passos e de certo modo substituísse o cuidado e a vigilância materna, Margarida viu-se em breve rodeada de elementos que pessimamente influíram na formação do seu caráter.

Bonita, atraente, de temperamento jovial e expansivo, deu ouvido às vãs lisonjas e fúteis amabilidades e abriu as portas do seu coração à vaidade.

Em vão, seu pai avisou-a do perigo que corria. Seus bons conselhos foram dados a ouvidos surdos. Dezesseis anos contava Margarida, quando abandonou secretamente a casa paterna, procurando a companhia de um jovem fidalgo, com quem viveu ilícita e pecaminosamente, pelo espaço de nove anos. Deus, que permitira esta triste queda, não perdeu de vista a ovelhinha desgarrada. A consciência não deixou de fazer seus reclamos, com insistência cada vez mais acentuada.

Debalde, Margarida não se animava a deixar a vida, que a algemava aos prazeres ilícitos. Deu-se, então, um fato que lhe abriu os olhos e a chamou ao bom caminho. O amante, tendo empreendido longa viagem de negócio, foi em caminho assaltado e assassinado. O cadáver esteve dois dias e duas noites no lugar do crime, ficando ao seu lado, o cão, que tinha acompanhado o dono. No terceiro dia apareceu o fiel animal na casa de Margarida e pelo latido plangente, deu sinal de um acontecimento extraordinário.

Como, porém, Margarida não desse atenção, o cão a puxou pelo vestido, como se quisesse convidá-la para o acompanhar. Margarida então atendeu e o cão a conduziu ao lugar onde se achava o corpo do assassinado, já em estado de decomposição bem adiantada, enchendo o ambiente de cheiro insuportável.

Margarida, diante do espetáculo que se apresentava aos seus olhos, impressionou-se profundamente, e seu primeiro pensamento foi: “Onde estará sua alma?” Um momento de horror para Margarida, mas também a hora da graça e da salvação aproximou-se.

A porta do coração, tanto tempo fechada aos convites de Deus, abriu-se ao Bom Pastor. Jesus, que tinha andado tantos anos atrás desta ovelha desgarrada, afinal, a achou e, pondo-a sobre seus ombros, levou-a ao seu aprisco. Lágrimas de arrependimento borbulhavam dos olhos de Margarida; uma dor profunda e sincera feria-lhe o coração, mas, animada por uma confiança ilimitada na misericórdia de Deus, dizia de si para si: “Deus quer salvar-me. Por que teve Ele tanta paciência comigo? É seu amor, que me deu tempo para fazer penitência; é seu amor que me mandou este tremendo aviso, quem sabe, talvez o último”.

Profundamente abalada, no seu interior, voltou para casa, resolvida a dizer adeus ao pecado e começar uma nova vida, vida de penitência. Fez o voto de dedicar o resto da vida à mais severa penitência. Caiu-lhe na alma, como um peso enorme, o modo ingrato com que tratou seu pai e, parecia-lhe ouvir os gemidos de dor, que, durante nove anos, seu procedimento indigno tinha arrancado do coração do seu maior benfeitor.

Compreendeu então que não podia haver sofrimento mais atroz para o coração de um bom pai do que ver seus filhos levados pela onda das paixões, expostos ao iminente perigo de se perderem eternamente, sem poder fazer outra coisa senão rezar por eles e implorar a misericórdia divina. — Resolutamente pôs-se a caminho, à procura do pai. Embora compenetrada da gravidade de sua culpa, embora dizendo-se indigna do perdão paternal, resolvida estava a fazer tudo para reparar sua falta, e se reabilitar na amizade de seu pai. Margarida contava então 25 anos.

Chegando em Alviano, em altos soluços, prostrou-se aos pés de seu pai, pedindo que a recebesse outra vez em sua casa, pois, que estava resolvida a emendar de vida. O pai comoveu-se diante do pedido da filha e recebeu-a com todo o amor; não assim, porém, a madrasta, que não quis consentir na permanência da pecadora em sua casa. Assim, abandonada e exposta de novo ao perigo, Margarida, assentada à sombra duma árvore no jardim da casa de seu pai, pôs-se a chorar amargamente. Renovou seu protesto de antes morrer de fome, do que voltar à sua vida anterior. Elevando os olhos ao céu, exclamou: “Meu Senhor, e Salvador de minha alma, quereis que ela se perca? Ela vos custou tanto como a de Madalena. Ó vós que me remistes, pelo preço de vosso sangue, não me desampareis no meu mísero estado! Tende compaixão de mim!” Deus ouviu a oração da pobre pecadora. Esta, cedendo a um impulso interior, dirigiu-se a Cortona, para lá se confessar e receber do confessor a diretiva de sua nova vida. Fez sua confissão geral, com muita contrição, na Igreja dos Padres Franciscanos. O pedido de Margarida de ser aceita entre os penitentes da Ordem Terceira pôde ser atendido só depois dela ter dado prova suficiente de sua constância.

A partir de sua conversão, a sua vida foi uma série contínua de práticas de virtudes, principalmente de mortificação, penitência, humildade e paciência. Seu alimento era só pão e água. Seu leito, o soalho e, de travesseiro, servia-lhe uma pedra.

A maior parte da noite passava em oração e em práticas de penitência. Para castigar e mortificar o corpo, sujeitou-o à disciplina diária. A meditação da Sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo não só lhe despertou no coração terno amor a seu divino Salvador, mas também fez crescer cada vez mais o desejo de sofrer com Ele e por Ele. Os sofrimentos, que Deus lhe enviava, aceitava-os com a maior paciência, e o desprezo que recebia do mundo, causava-lhe prazer. Incessantemente agradecia a Deus de não a ter deixado morrer no pecado, como acontecera ao moço, com quem vivia ilicitamente. Seu pesar de ter ofendido a Deus, era tão grande, que não só chorava amargamente suas infidelidades do passado, mas chegava até a desmaiar.

Vinte e três anos passou Margarida penitenciando-se por seus pecados. Alguns anos depois da sua conversão sobrevieram-lhe tentações as mais terríveis. O inimigo tudo fazia para convencê-la da insuficiência das obras penitenciais. Surgiram em sua mente veleidades de abrandar a mortificação, e sair de Cortona. Parecia-lhe que suas penitências deviam ter já alcançado o completo perdão dos seus pecados, e era sua obrigação conservar a vida, para poder servir a Deus muito tempo ainda. Seu bom senso, porém, e mais ainda a graça divina fizeram-na conhecer em tudo isto uma tentação diabólica, tanto que, em vez de abrandar as penitências, daí por diante ainda as redobrou e intensificou.

Numa ocasião, em que as tentações sobremodo a atormentaram, Margarida prostrou-se aos pés do Crucifixo, clamando a Deus, que a socorresse. Cristo se dignou de aparecer a sua serva e disse-lhe: “Tenha ânimo, minha filha! Estou contigo, no meio das tentações. Com o apoio da minha graça vencerás todas. Siga em tudo o conselho do teu confessor”. Não foi esta a única aparição que Margarida teve. Distinguiram-na com seus colóquios a Santíssima Virgem, vários Santos e principalmente seu Anjo da Guarda.

Este deu-lhe certeza do completo perdão dos seus pecados. Apareciam-lhe também as almas do Purgatório, em particular aquelas que foram remidas pelas suas orações e penitências.

A visão, porém, mais consoladora que Cristo lhe concedeu, foi uma, pouco antes do seu trânsito, em que Jesus, anunciando-lhe a proximidade da morte, assegurou-a da completa remissão dos seus pecados e que sua alma iria para o céu, acompanhada de todas as almas do Purgatório, que deviam sua libertação às suas orações e boas obras. Com santa impaciência aguardou Margarida a chegada desta feliz data. Era o dia 22 de fevereiro de 1297. Margarida contava 48 anos. Seu corpo foi, com grande solenidade, enterrado na Igreja da Ordem de São Francisco, onde até hoje é conservado intacto. Muitos milagres têm provado a santidade da serva de Deus. Bento XIII inseriu-a solenemente no catálogo dos Santos, em 1728.

Reflexões

1. Depois de longos anos vividos em pecados, Margarida de Cortona recebeu a graça de se converter dos seus erros. O companheiro dos seus desvarios morreu repentinamente, sem poder dar um sinal sequer de arrependimento. Arcanos da Providência Divina! — Quantos motivos não tens para agradecer a Deus sua misericórdia e bondade, pois se tivesse te tratado, como a justiça o exigia, qual teria sido tua sorte, e onde agora estarias?

2. Uma vez convertida, Margarida não mais tergiversou, mas castigou seu corpo com jejuns e penitências. A penitência e o jejum em particular são necessários para justos e pecadores. Para os justos, que assim se defendem contra o mal, que é o pecado; para os pecadores, que devem dar uma satisfação à divina justiça. — Margarida não recaiu mais em pecados, e tendo confessado sua culpa, não procurou mais as ocasiões de pecar. Assim devem fazer todos que, tendo-se deixado levar pela fraqueza da carne, depois voltaram a Deus com sincera penitência. O pecador que volta à prática do mal, põe em grande perigo a salvação de sua alma. A penitência e conversão sincera, porém, causam alegria a Deus e aos seus Santos Anjos.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312
22 de fevereiro — Santa Margarida de Cortona — Padre João Batista Lehmann