22 de dezembro — São Flaviano, Mártir

22 de dezembro — São Flaviano, Mártir
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Extraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

São Flaviano, pai das Santas Bibiana e Demétria, esposo de Santa Dafrosa, pertencia à alta aristocracia romana. Os brilhantes dotes intelectuais e morais, a simpatia de que gozava entre o povo, o alto conceito em que o tinha o Imperador Constantino, o Grande, tudo isto o elevava muito acima do nível da vulgaridade e mais acertada não podia ser a escolha do Imperador, destinando-o para o cargo importante de governador de Roma. Pontualíssimo no desempenho das funções desse ministério, Flaviano sempre e em tudo visava também a propagação da fé católica entre os súditos.

Pela morte de Constantino, o Grande, seu filho Constâncio tomou as rédeas do Governo. Casado com uma princesa ímpia, Constâncio deixou-se por ela levar a favorecer o Arianismo e a perseguir os católicos de uma maneira tão bárbara, que em nada cedia às perseguições decretadas pelos Imperadores pagãos, seus antecessores. Flaviano tudo fazia para confortar e animar os católicos e defendeu valorosamente a divindade de Jesus Cristo contra os erros de Ário. Esta atitude franca desagradou sumamente ao Imperador, que em seguida lhe decretou a demissão. Flaviano, que, como antes, gozava da estima do povo inteiro, sujeitou-se à determinação humilhante da autoridade e sentiu-se feliz em poder sofrer alguma coisa por amor de Jesus Cristo.

Constâncio morreu e para substituí-lo no trono imperial apareceu Juliano, o Apóstata, inimigo figadal do nome cristão. A atitude de Flaviano continuou a ser a mesma. Convicto da verdade da religião de Cristo, fez-se Apóstolo e defensor da mesma, procurando os católicos que corriam mais perigo de perder a fé, isto é, os encarcerados. A princípio os sicários do tirano não ousaram lhe dar voz de prisão, em atenção à posição social, à classe aristocrática a que pertencia e ao elevado cargo que desempenhara. Um dia, porém, chegou-lhe ordem de apresentar-se ao governador Aproniano, na presença do qual ou havia de abjurar a fé católica, ou receber a sentença da morte em cruel martírio. Aproniano fez o que o Imperador lhe mandara, e empregou todos os meios persuasivos, para determinar Flaviano a renunciar à fé católica. A resposta deste foi clara e decisiva: “Sou cristão, e cristão permanecerei. Honra maior não conheço que esta, de sacrificar não só meus bens e minha fortuna, como também minha vida, pela glória de Jesus Cristo.” Vendo que era inútil insistir mais com o valoroso soldado de Cristo, o governador declarou-o destituído de todos os títulos da aristocrata que possuía, e rebaixou-o à condição de escravo. Arrancaram-lhe os distintivos de sua dignidade e nobreza, e com o ferro em brasa assinalaram-lhe na testa o selo de vileza, o estigma da escravidão. Se era grande a dor, maior era a vergonha, o insulto. Flaviano, entretanto, deu desprezo ao ato do juiz, dizendo-se feliz em receber tamanha honra, que nunca recebera outra semelhante.

Plano e desejo de Aproniano era aplicar-lhe outras torturas, mas a circunstância de Flaviano possuir muitos amigos entre os próprios pagãos e, de existir o perigo de uma revolta, fê-lo confiscar-lhe os bens e mandá-lo ao exílio; o que, entretanto, não impediu que desse ordem às autoridades do lugar a que se destinava Flaviano, para que o maltratassem de toda a maneira, e tudo fizessem para que em breve prazo morresse de desgosto e miséria. Flaviano conformou-se também com esta determinação tirânica. Grande dor causou-lhe a separação da esposa e de duas filhas. Recomendando-as à Divina Providência, partiu de Roma para o exílio. Os soldados cumpriram fielmente as ordens recebidas do governador e maltrataram Flaviano de toda a maneira. Este, porém, ficou firme e só na oração procurava e achava conforto. O desejo do tirano realizou-se em breve. Flaviano morreu na prisão, quando estava dirigindo preces ao céu. Flaviano merece ser enumerado entre os maiores mártires da Santa Igreja.

Reflexões

Grande foi a dor que São Flaviano experimentou, ao separar-se da família. Mas nem assim vacilou na firme vontade de antes sofrer tudo, do que largar a religião. Que heroísmo deste grande homem, que se sujeita à vontade de Deus e entrega os seus aos cuidados da Providência Divina! — Pessoas há que não se conformam com a morte e muito menos com a determinação de Deus, de separar-se da mulher, do marido e dos filhos. Que querem elas? Poderão acaso opor resistência a Deus? Não seria mais prudente calmamente se preparem para a morte, e entregarem a família às mãos de Deus? Deus sabe o que faz. Conhece também as condições em que ficam os sobreviventes. Não poderá providenciar tudo, para que nada lhes falte? Jesus Cristo moribundo na cruz deixou a Mãe Imaculada e entregou-a ao discípulo João. Estava em seu poder chamá-la à eternidade antes dele próprio. Não o fez, para nos dar também este exemplo de conformidade com a vontade de Deus, quando esta, de nós exige o sacrifício da separação das pessoas mais caras. Se um dia tiveres de fazer semelhante sacrifício, segue o conselho que Deus deu ao santo eremita Antão: “Trata de ti, e deixa para Deus o cuidado dos outros.”

Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:

Em Alexandria, o mártir Santo Isquirião. Como não quisesse adorar as divindades pagãs, os idólatras se precipitaram sobre ele, cravando-lhe com uma estaca afiada nas entranhas. 250.

Em Nicomédia a morte de São Zeno. Era soldado. Tinha sido observado que seria quando o Imperador Diocleciano prestava culto a Ceres. Quebraram-lhe as maxilas e os dentes. Depois foi decapitado. 303.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii